Solange, Tô ABerta! (Foto: Duvulgação)

DELÍCIA E POLÍTICA
Por Breno Soares

“A Solange, tô aberta! tem como principal intenção contestar, desconstruir e expor situações, costumes, comportamentos e discursos adotados por diferentes segmentos da sociedade. Fazemos apologia ao travestismo e somos contra os dogmas da igreja católica, o binarismo e a heteronormatividade. Apoiamos a legalização do aborto, o movimento negro, o movimento GLBTT, as mulheres e todos os sujeitos silenciados. A banda experimenta a música eletrônica através da criação e, também, do uso de samples e batidas. As principais fontes são as músicas da cultura de massa e as músicas invisíveis que são feitas para divertir e/ou questionar. Ritmos tanto do Brasil quanto de outros países somam o repertório eletrônico.”

Com essas palavras o Solange, To aberta! abre sua página no myspace e mostra que mais do que chocar e contestar, tem um sólido discurso político.

A dupla é formada por Paulo Fraga, percussionista que já tocou com Lenine e Rita Ribeiro e pelo antropólogo Pedro Costa, mestrando em Artes Cênicas pela UFBA. Com projeto de gravar um CD, que está sendo preparado sem muita pressa, os polêmicos do Solange, Tô Aberta! escancaram sua personalidade em uma entrevista a O GRITO!

Como os criadores se conheceram e como foi o processo de surgimento das criaturas?
Paulo – Nós nos conhecemos em janeiro de 2006 e em julho do mesmo ano passamos a elaborar alguns projetos musicais que nunca saíram do papel. Convidamos vários amigos músicos para montar uma banda e até conseguimos fazer isso, mas o problema era conciliar os horários da galera para ensaiar… sempre alguém não podia e acabávamos adiando os ensaios.
Até que decidimos trabalhar como duo, usando bases eletrônicas e, depois de pesquisar bastante, vimos no funk carioca a possibilidade de falarmos sobre qualquer assunto, de maneira simples, direta, irônica e principalmente desconfortável para a grande maioria.

De qual necessidade de cada um de vocês fez surgir a Solange? Foi algo de cunho político ou social?
Somos homossexuais assumidíssimos, inquietos e insatisfeitos. Em virtude disso sempre convivemos muito de perto com a homofobia. Já fomos vítimas de violência verbal e até física. Nós queríamos expressar tudo isso, sem versos, sem poesias, sem maquiar pra ficar bonitinho, limpinho e gostoso de ouvir. Quem tiver capacidade e disponibilidade pra entender, que goze escancaradamente sem culpa!! Quem não tiver que vá se masturbar escondid@ no banheiro e depois morra de coito interrompido!Só não esquece de criticar bastante antes, porque é daí que surge inspiração pra maioria das nossas letras.

A Solange, tô aberta! hoje em dia já toma muito tempo de suas vidas?
Bastante! Nós recebemos inúmeras mensagens todos os dias de vários lugares do mundo e sempre respondemos tudo de maneira pessoal…Eu, Paulo, já cheguei a ficar 8 horas em frente ao computador só respondendo a recadinhos, mensagens e contatos, por exemplo. Nossa performance em palco exige muito do corpo e, depois de vários machucados, lesões, fraturas etc etc etc, estamos nos preparando melhor para as apresentações, com uma alimentação mais saudável, aulas e exercícios físicos diários. Também escrevemos e viajamos muito, e todas essas atividades ocupam bastante nosso tempo. Podemos dizer que 80% dele é dedicado a STA.

O mais ridículo é que muitas vezes a pessoa se acha super “descolada”, super underground, alternativa e a porra toda, mas vive reproduzindo um monte de discursos do tempo da “santa inquisição”

Como tem sido a receptividade do público depois de um certo tempo da Solange? Passaram a assimilar melhor a intenção do grupo ou ainda se cria muito um estranhamento pela postura e visual de vocês?
Olha, esse “estranhamento” também faz parte das nossas intenções! E é justamente esse lugar que faz as pessoas pensarem sobre as identidades de gênero também como fabricadas e não apenas naturais.
E quando isso acontece é sinal que estamos realizando bem o que idealizamos. Podemos dizer que já temos um público fiel, mas muita gente ainda não conhece nosso trabalho. O que observamos desde o começo até os dias atuais é que, a primeira vista, principalmente se for num show ao vivo, ou a pessoa vai amar, ou vai odiar! As duas reações acontecem por um único motivo: as pessoas se vêem na gente.
Infelizmente, desde criança, aprendemos a tratar o sexo e as sexualidades, como assuntos que não devem ser expostos… e quando você não reproduz os padrões heteronormativos, a coisa complica muito! As pessoas não são assexuadas, todo mundo faz ou deseja fazer sexo, não importa idade, classe ou credo. Agora a grande maioria é reprimida, é moralista e é muito influenciada pelos dogmas da igreja católica e outras religiões que querem dominar o sexo e assim controlar os desejos individuais. E a única opção que elas oferecem é ser monogâmico, heterossexual e transar pra ter filhos, e jamais educam as pessoas para obter o máximo de prazer numa relação sexual.
O mais ridículo é que muitas vezes a pessoa se acha super “descolada”, super underground, alternativa e a porra toda, mas vive reproduzindo um monte de discursos do tempo da “santa inquisição”. Gente assim merece ser ainda mais incomodada pra deixar de ser burra e entender que roupa, cabelo e pose não faz ninguém se tornar mais “moderno”. A gente quer mesmo é incomodar os caretas e fazer os “loucos” gozarem!! Essa é a nossa intenção babe!

Vocês usam de muitos dos estereótipos do mundo gay, os quais os próprios gays lutam para mostrar que não existe apenas isso. Vocês sofrem muito preconceito por isso no meio gay?
Nós te respondemos perguntando se a luta é para mostrar que não existe apenas esses estereótipos, ou para enquadrar a classe GLBTT que ainda se encontra na “contra cultura” nos padrões da sociedade? Perguntamos ainda: por qual motivo existem gays que dizem não sentir atração e até odeiam gays afeminados? Seria mesmo uma questão de preferência ou de conveniência não andar com uma bixinha pintosa fora do gueto?
E, assim, a família, o patrão e a sociedade continuarem respeitando-o por acreditarem que ele é hétero? Não somos a favor de apenas duas únicas opções de ser: feminina ou masculino. Somos a favor das múltiplas identidades e formas de viver as sexualidades. Mas para tanto temos que ousar experimentar… Tem muito gay que vai pra sauna ou boate, passa a vassoura, chupa todo mundo, transa até com o vaso sanitário e vem dizer que a gente fala muita baixaria, que estamos queimando o filme da comunidade ou coisas do tipo… Nós rimos, né… Fazer pode, mas falar não. Por isso que a gente vai lá e fala…
Se viver, agir, se vestir e até se camuflar como hétero pra poder ser aceito e respeitado forem significados de “luta”, nós realmente precisamos consultar o dicionário… Por isso que nos identificam mais com o gênero queer, que é uma forma de expressar seu corpo e desejos como algo político e radical, sem ter que prestar contas com a igreja, família ou a padrões de consumo/moda.

Tem muito gay que vai pra sauna ou boate, passa a vassoura, chupa todo mundo, transa até com o vaso sanitário e vem dizer que a gente fala muita baixaria… Fazer pode, mas falar não

solange-to-aberta-10.jpg

Como é a relação com o público heterossexual? Vocês chegam a ter um número expressivo de acompanhantes desse grupo ou seriam mesmo os gays o seu principal público?
Por incrível que pareça é ótima! Desde o começo… Tem uma galera que já virou figurinha carimbada nos nossos shows e muitos até se aproximaram por causa da banda e acabam virando amigos. Nosso trabalho não é segregado ou focado apenas para um público, as pessoas costumam confundir bastante. Mas a verdade é que falamos sobre inúmeros assuntos que interessam não só a turma GLBTT mas a todas as pessoas que se sentem bem mais reprimidas do que expressivas. A diferença é que usamos a nossa própria linguagem para passarmos essas mensagens.
Tem uns meninos que sempre acompanham nossos shows em Salvador, por exemplo, que no começo ficavam só observando e quando acabava o show chegavam com cuidado e falavam apenas “foi massa” “parabéns”… e hoje, depois de se acabarem de dançar com as namoradas e os amigos, eles chegam e dizem “pô foi babado…”, “arrasou”… é muito louca essa questão da linguagem, e é muito gratificante ver que existem pessoas bem resolvidas o suficiente pra agirem assim. Como falamos antes, a pessoa pode ser gay, hetéro, bi, pan ou o que ela quiser, mas se não for segura e bem resolvida em sua sexualidade vai se sentir incomodada!

Vocês estão com algum tipo de festival em vista para participar em 2008? Onde?
Em janeiro participaremos do Queer Trash? Então toma!, em Aracajú (SE). Em fevereiro no Carnaval Revolução e em março no Queer Fest, ambos em São Paulo… Em janeiro também vai rolar a primeira edição da Tô Aberta's Party em Salvador. A idéia é realizar várias edições da festa em datas e cidades diferentes! O mais bacana é que são todos festivais independentes organizados coletivamente por pessoas mais bacanas ainda!

Vocês foram convidados a participar do X Queeruption no Canadá, um festival independente, mas não tiveram a verba suficiente para ir. Hoje vocês já teriam apoio de algum meio para ir para um evento similar? Vocês tiveram a intenção de algum apoio de grupos GLBT para essa situação?
Na época em que recebemos o convite pra participar do Queeruption nós vivíamos em Salvador com a grana contadérrima e tinha dias que mal dava pra pagar o ônibus, imagina uma passagem pro Canadá. A diferença é que hoje entendemos melhor como as coisas funcionam. O convite pra participarmos do Queeruption esse ano continua de pé e as chances de irmos realmente são bem maiores. Nós temos sorte pois recebemos muito apoio desde o começo, mas ainda assim as coisas não são muito fáceis… Não temos nenhuma ligação com grupos GLBTT. Às vezes participamos de alguns eventos promovidos por alguns grupos, mas nada além disso. Existem algumas gravadoras e produtores de outros países interessados no nosso trabalho, e nós estamos estudando tudo direitinho. Também já temos um bom público internacional principalmente na Europa e Estados Unidos e, ao que tudo indica, em breve estaremos nos aventurando por lá.

Para ser respeitado como artista independente aqui no Brasil, seria preciso que vocês participassem de um festival internacional como o que foi citado?
Nunca paramos pra pensar a respeito, mas sabemos que ainda tem muita gente alienada no Brasil que precisa ver o carimbo de “aprovado pelo colonizador” pra dizer que isso ou aquilo é realmente bom… Mas sinceramente a opinião e o respeito desse tipo de gente não nos interessa. Aqui tem muita gente boa, que mesmo sem nenhum apoio, continua realizando festivais e eventos super importantes que a maioria das pessoas desconhecem como foi o Queer Punk Queer Funk em Salvador, por exemplo.
Existe, em várias cidades, toda uma estrutura de eventos, espaços, grupos de discussões, publicações independentes… e grande parte dessa galera respeita e apóia nosso trabalho. Isso pra gente é importante! Nosso objetivo em construir uma carreira internacional é no sentido de poder levar nosso trabalho a um número maior de pessoas que possam se identificar com ele. E não conseguir mais prestígio no Brasil apenas por isso. Respeito mesmo merecem os artistas que ficam aqui na batalha, tendo praticamente que pagar pra trabalhar e, quando ganham, é uma mixaria…

As Solanges são criaturas muito distintas dos criadores Paulo e Pedro ou podemos encontrar um no outro? A sexualidade das Solanges é espelho de seus criadores?
As Solanges são o Paulo e o Pedro, não somos personagens, respondemos por todos os absurdinhos que dizemos e fazemos. É tudo real babe!Mas o mesmo não se aplica totalmente às letras; algumas realmente são meio “autobiográficas”, mas a grande maioria vêem de outras inspirações, se é que se pode falar assim (risos). E, o que servir de material, a gente faz música.É legal deixar claro que a Solange não é um personagem, e sim apenas um nome feminino que achamos gostoso de falar e quisemos usar para homenagear as travestis.

Qual a visão política de vocês?
A nossa visão política é a atitude de não ficarmos calados num país silenciado brutalmente pela ditadura militar, com todos os seus efeitos negativos que perduram até hoje. E nossa atitude é baseada no “faça você mesmo, não espere por ninguém” e de enxergar as sexualidades como possibilidades fundantes de discussão crítica e apoiarmos, principalmente, as pessoas que não se enquadram nos binarismos macho x fêmea e hétero x homo. Por isso ficamos muito felizes quando recebemos o convite do Queeruption. Significa que falamos assim: olha, na América Latina e no Brasil há um movimento que acontece, não é só na Europa e na América do Norte.

Quais são suas influências musicais e culturais?
Nossa, a gente ouve de Atari Teenage Riot à Gaiola das Popozudas querido, por aí você tira! E as influências culturais partem do Brasil todo, já que viajamos muito e moramos e conhecemos vários outros estados; e também parte dos movimentos contra culturais.

Em Recife tivemos um projeto que tinha uma temática sexual como a de vocês, o Textículos de Mary. Vocês chegaram a conhecer o trabalho da banda ou ver algum dos shows ou apresentações na tv?
Conhecemos sim. Pedro chegou a ver uma apresentação da banda no Festival de Inverno de Garanhuns-PE e Paulo só teve a oportunidade de ouvir músicas e ver alguns vídeos e fotos.
Nós respeitamos muito o trabalho dos meninos. Se hoje ainda é difícil pra caralho, imagina quando eles começaram… Apesar de nem fazer tanto tempo assim, foi muita coragem e ousadia da parte deles surgir com essa proposta numa capital patriarcal e coronelista, como as cidades do nordeste costumam ser.

A Textículos de Mary se apresentou em alguns festivais em Recife, fez alguns show e foram até entrevistados pelo João Gordo na MTV em um de seus talk-shows. Como vocês se vêem na mídia e quais suas pretensões de exposição nos veículos de comunicação? Isso de fato teria alguma importância para vocês?
A mídia é importante porque foi através dela que grande parte do público que temos hoje teve acesso ao nosso trabalho. E é também um excelente meio para divulgarmos pra quem ainda não conhece. Mas a MTV realmente é uma merda e francamente teríamos mais saco pra ir no programa da Hebe, que sem dúvida seria mais divertido… Aquilo é uma drag que nasceu mulher por engano (risos).

solange-to-aberta-5.jpg

Qual a posição sexual do Pedro e do Paulo? (risos)
Eu, Paulo, prefiro ficar por cima! Sou dominatrix e totalmente a favor de que as mulheres, as gay, as travestis e as Solanges estejam no poder sempre! Hauahuahuahuahua
Eu, Pedro, ultimamente prefiro posições de tantra pós-bondage pré-sadomaso, em mutação de freak a bear, passando pela gouinage e tecktonik…

Que pergunta 'Solange, tô aberta!' acha que se fosse feita, se chocaria com a resposta?
Porra, que pergunta é essa, hein?
Mas acho que seria:
P: Qual seus planos para 2008?
R: Gravar um cd de funk proibidão com o padre Marcelo Rossi! hauahuahuauauhauhah

Como anda a produção musical de vocês? Novas composições encaminhadas, algum disco sendo preparado?
Nós produzimos muito… No show estamos tocando umas 6 músicas que ainda nem gravamos…
Já temos músicas pra gravar uns três discos, e até recebemos propostas de algumas gravadoras, mas nada que nos interessasse. Queremos muito lançar nosso primeiro disco, mas não estamos com pressa, quando aparecer uma proposta legal vai ser a hora certa!

VAMU PRO MOTEL
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=qmM7D_ot6e4[/youtube]

+ INFORMAÇÕES

Myspace: myspace.com/solangetoaberta
Fotolog: fotolog.com/solangetoaberta
Youtube: youtube.com/solangetoaberta
Comunidade no Orkut: orkut.com/Community.aspx?cmm=20509467

Sem mais artigos