DESCORTINÁ-LO É PRECISO
Por Rêmulo Caminha

 

Santiago Nazarian (Divulgação)

O escritor Santiago Nazarian, 30, veio ao Recife para participar da Sexta Bienal Internacional do Livro, que aconteceu no início do mês de outubro. Fez parte de mesas redondas e divulgou o seu mais recente trabalho, Mastigando Humanos. O jovem autor já tem na bagagem três livros publicados: Olívio, A Morte Sem Nome e Feriado de Mim Mesmo. Para entedê-lo melhor, compreendendo as obras, o pensamento e o processo de criação literária, O GRITO! realizou uma entrevista completa com ele.

Santiago fala da relação entre a mídia e a arte e da maneira como os veículos de massa tentam defini-lo. Discute a literatura gay, revê sua posição acerca disso e fala sobre os rumos da geração pós-90 e discute temas como estética e individualismo. “Não vejo a solidão como um valor negativo”.

Prêmio Portugal Telecom é o evento de literatura de língua portuguesa que oferece o maior valor em dinheiro para um escritor ( R$100 mil para o primeiro lugar). Como é participar de um concurso ao lado de escritores como Saramago, Bruno Tolentino, Ignácio Loyola de Brandão?
É estranho. Porque não vejo como minha obra pode ser comparada com a deles. Não é questão de modéstia, nem de soberba, simplesmente estamos fazendo coisas diferentes, totalmente diferentes, não vejo muito sentido em concorrermos… E nem é uma questão de “categorias” de idade, gênero, nada assim. Eu não acho que meu trabalho possa ser comparado a de nenhum outro escritor jovem também… afinal, todos esses concursos acabam sendo arbitrários, tem-se critérios discutíveis, ganhando ou perdendo. Mas claro que é bom identificar que já se conquistou um certo respeito ao menos para competir e passar para uma final. Ao menos mostra que você está no páreo oficial, profissional. Só não se pode deixar que isso guie sua literatura. Eu tenho consciência de que algumas escolhas que faço dificultam um estabelecimento do meu perfil como “premiável”, mas, como diria Frank Sinatra, mais importante do que isso é fazer ” my way”.

“Talvez os temas nacionais ou nacionalistas estejam um pouco desgastados, e seja hora de falar em temas mais subjetivos, do individuo”

Santiago Nazarian (Olívio)

A sua carreira logo se projetou após você ter levado o prêmio de revelação pela Fundação Conrado Wessel, com o livro Olívio. Hoje, pode-se dizer que existe um público do Santiago, alimentado pela expectativa dos próximos lançamentos. Existe um público específico para o qual você se direciona?
Eu tenho um público, sim, gente que me escreve, que acompanha o blog, vai aos debates… Mas ainda é muito cedo para eu considerar esse um público fiel. Comecei a publicar a menos de 5 anos, meu público aumentou de três anos para cá, então é preciso ver se essas pessoas vão permanecer, vão realmente acompanhar minha carreira. É claro que eu tenho um público ideal. Todo lançamento que faço, debate que eu vou, espero pelos rapazinhos delicados com franja caindo no rosto, hahaha, e eles aparecerem! É é um desejo genuíno mais do que digno você querer conquistar aqueles que te inspiram… Aliás é uma questão bem “Thomas Mann”, bem “Tônio Kroeger” o escritor que está sempre tentando alcançar os belos, a beleza. Foram questões como essas (e livros como este) que me motivaram a escrever em primeiro lugar. Então posso dizer que escrevo mirando os belos.

Esse reconhecimento chega ao ponto de a mídia te apresentar como um personagem. Sempre vejo, ao lado das suas fotografias, legendas do tipo ” o escritor que fez automutilamento” ou “foi barman, redator de um telesexo”. É uma forma de se referir a alguma história tua, claro. Mas como tu encaras esse personagem ou estereótipo que fazem?
Eu não me importo, realmente. Mas acho um pouco tolo. Não entendo muito a separação que os jornalistas fazem entre os valores de massa e valores pessoais. Quero dizer, as pessoas que me entrevistam, que escrevem essas coisas sobre mim – “oh, ele morou com traficantes” – também estão aí tomando drogas, também conhecem traficantes e talvez estejam morando com eles. Mas sei lá, parece que elas estão só procurando pessoas para admitir isso publicamente e vestir o personagem. É igual com o homossexualismo. O que mais se vê é ator gay em começo de carreira, mas eles nunca chegam a Globo? Quando eles chegam à novela das oito eles perdem a homossexualidade? Isso não faz sentido para mim. As pessoas também esperam que surjam personalidades para vestir a carapuça de gay, quando devia ser algo natural. Sim, homens trepam com homens, tomam drogas, se cortam fazendo a barba ou fazendo fotos para um trabalho de faculdade. Pode até ser divertido contar essas histórias, mas elas não formam traços exclusivos meus.

Como administrar a mídia, fazer dela uma aliada para sobreviver e vender livros?
Santiago Nazarian (A Morte Sem Nome)A mídia está mudando. Acho que tudo o que eu disse acima está mudando principalmente pela internet. Porque as corporações podem querer continuar ditando o gosto, mas o adolescente que gosta de uma banda banda obscura da Suécia vai poder ouvir todas as músicas deles, e conhecer outros fãs. E o rapazinho trendy que é xingado nas ruas do Mato Grosso pode montar um fotolog e ser considerado um Deus por meninos e meninas em São Paulo. A minha geração literária já surgiu nesse novo cenário, com os blogs abrindo espaço para que se diga o que se quer, para se encontrar um público sem precisar de um aval de uma editora. No meu caso, admito que minha inserção na mídia de massa, em programas como o do Jô, contribuíram muito para aumentar meu público. Mas acho que a tendência é esses veículos irem perdendo cada vez mais a força individual.

“Todo lançamento que faço, debate que eu vou, espero pelos rapazinhos delicados com franja caindo no rosto, hahaha, e eles aparecerem!”

Santiago Nazarian (Feriado de Mim Mesmo)Há um pouco de você nos livros?
Há muito de mim nos livros. Talvez não objetivamente. Talvez objetivamente, muito pouco. Mas há muito do que acredito, do que eu queria ser, do que eu queria ver, queria ter, nos meus livros. Para mim esse é o prazer de escrever, materializar um universo interno. Então eu não me preocupo tanto em contar minha vida, meu dia-a-dia, nos livros, é mais um mundo de ideais, de desejos, medos e sofrimento, que obviamente é influenciado pelo que eu vivo efetivamente.

No Feriado De Mim Mesmo tem o tradutor ( função também desempenhada por você). Em A Morte Sem Nome é a mulher que também mora só. Os protagonistas parecem, além de parecer com você também, os habitantes do Copan ou os transeuntes da avenida Paulista. Por que você sempre recorre ao tema solidão?
Hum… Eu sou um ser solitário. Vivo bastante sozinho, poucos amigos próximos, pouco contato com a família, moro sozinho, não estou namorando há um tempo, então isso transparece, é um pouco como eu disse acima. Mas eu não vejo a solidão como um valor negativo, nem acho que ela apareça dessa forma nos meus livros. Para mim, o problema da solidão não é tanto a ausência do outro, é o excesso de si mesmo, sabe, você se torna muito egoísta, ganha muitas manias, começa a perder a habilidade de viver em sociedade. Eu tenho esses problemas. Acho que um dos meus traços mais fortes é o individualismo, que pode se manifestar de maneira negativa como egoísmo e que pode se manifestar de maneira positiva como independência.

Em todas as obras, é mais que gritante a preocupação com a elegância. As repetições são propositadas, ritmadas e fixadas no propósito de provocar o leitor. Como é o processo de criação, de lapidação das palavras?
Eu gosto muito, muito de trabalhar a repetição. E gosto de artes minimalistas também. Não sei, é apenas algo que faz parte do meu universo. Mais do que isso, tem um pouco a ver com minha filosofia. Porque sou um relativista, então gosto de estudar as possibilidades. E uso a repetição para isso, para estudar o mesmo caso com diversas modificações, as diversas possibilidades de uma mesma idéia, de uma seqüência de cena. Quando escrevo uma cena, posso colocar: “Então ela agiu assim”, mas eu gosto de pensar nas outras possibilidades, e a repetição serve para eu voltar ao ponto inicial e dizer “Então ela agiu assado, então ela agiu de outra forma”, eu fiz muito isso em “A Morte Sem Nome”, há capítulos lá muito parecidos, mas com ligeiras modificações que fazem toda a diferença, é um pouco por aí que trabalho a repetição.

“Não qualificaria de gay porque não é o tema central de nenhum dos meus livros. Na verdade, não é um tema que me perturba ou instiga”

Santiago Nazarian (Mastigando Humanos)Frases curtas também são muito constantes, rimas também. De onde vem essa preocupação com o ritmo da palavra?
O caso das rimas pode ter um pouco a ver com música, sim. Aliás, adianto que o título do meu próximo livro é uma rima. As frases curtas são mais intuitivas do que conscientes, mas é algo que eu fazia mais no começo do que hoje em dia. Talvez seja uma questão oral, talvez eu tente reproduzir por escrito um pouco como vejo o ritmo das frases, das palavras, a maneira como eu falo. Ao menos uma vez um jornalista que me entrevistou ao vivo disse que eu falava como as frases do meu livro. Talvez seja isso, talvez eu tenta reproduzir a maneira como eu veja as idéias. Então se ele “partiu à cavalo sozinho”, talvez eu veja que: “Ele partiu. À cavalo. Sozinho.”

Harold Bloom, crítico norte-americano, certa vez, falou de que os escritores são perseguidos pela sombra da influência, e por isso, recorrem a um caminho independente, sem tendência alguma, negando uma geração comum. você também aponta para esse caminho, negando pertencer a uma geração?
Ah, sim, sim. Até porque acho que meus heróis são só meus. Haha. Sério, talvez todos pensem assim, mas acho que os artistas que mais me motivam não são os artistas que motivam os outros jovens escritores por aí. Agora pouco, por exemplo, eu estava vendo um vídeo do Eduardo Dussek no YouTube e estava tão maravilhado, aquilo para mim faz completo sentido, é perfeito. Mas eu só ouço por aí as pessoas falando de “Chico Buarque”, “Caetano Veloso”. Posso entender o motivo para eles serem respeitados, mas, desculpe, me emociona muito mais o Eduardo Dussek.

Você já afirmou em entrevistas não acreditar numa literatura gay e que sua coletânea de contos homossexuais em parceria com Marcelino Freire usou o critério de boas narrativas. Que autores você pode citar que hoje, fazem uma literatura interessante com esse tema?
Talvez eu precise rever essa minha posição… Na nossa antologia, nos preocupamos em boas narrativas que tivessem o homossexualismo (masculino e feminino) como tema central, sim, mas a maioria dos autores lá não tem esse tema como tema central de suas obras, muitos nem são homossexuais, por isso digo que não se pode dizer que fazem literatura gay. Ainda assim, acho que há aproximações da literatura gay no Brasil, grandes autores que trabalham bastante o tema, como Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll, Lúcio Cardoso, João Silvério Trevisan e mesmo o Marcelino Freire. De qualquer forma, esses autores não estão preocupados especificamente com esse público ou com essa temática. Já nos Estados Unidos, há grandes autores de literatura direcionadamente gay, como Armistead Maupin, J.T. LeRoy, Dennis Cooper, Matthew Stadler, Tom Spanbauer, Alan Hollinghurst. Então acho que mudei um pouco de opinião quanto a isso. Já a minha obra eu não qualificaria de gay porque não é o tema central de nenhum dos meus livros, em alguns deles inclusive o tema aparece muito sutilmente, mas sempre aparece, claro. Na verdade, esse não é um tema que me perturba ou me instiga, por isso não me motivo a trabalhar com ele nos meus livros. Mas sempre é bom ler histórias que vão além do “menino encontra menina”.

O tema individual prevalece na prosa atual, recorre-se sempre caos urbano, a irrealidade dos centro. Seria uma forma de a geração pós-90, da qual você faz parte, afastarem da costumeira reflexão acerca da realidade nacional? ( Até porque solidão é um tema humano, há pessoas sós no globo inteiro)
Talvez. Talvez os temas nacionais ou nacionalistas estejam um pouco desgastados, e seja hora de falar em temas mais subjetivos, do individuo. Querer fazer diferente é um desejo genuíno, é uma forma de mostrar outra realidade, de manifestar uma opinião. Eu não preciso dizer que “criança não deve passar fome”, isso é o discurso senso comum que todos já sabem e dizem por aí, eu preciso buscar outros discursos importantes, que ainda estão em silêncio. É para isso que serve a arte, para procurar sempre novos dramas.

Pretende viver de literatura, influenciando outros por aí?
Oh, sim, ainda não sei o que é “viver de literatura”, vivo de derivados dela. Mas escrever é minha paixão, eu não tenho dúvidas, não tem nada que eu gostaria mais de fazer no mundo.

 

Santiago Nazarian (Divulgação)

RAIO X SANTIAGO NAZARIAN

Disco que mais o representa
Dog Man Star, do Suede.

Última descoberta literária
A Fábrica da Violência, do Jan Guillou. Li há poucos meses e se tornou um dos livros mais importantes da minha vida.

Livro de formação
O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.

Pior lembrança sobre sexo
Hum, não saberia dizer. E se soubesse, não diria aqui.

Filme preferido
Mamãe e de Morte, de John Waters.

Cidade perfeita
Helsinque e Florianópolis.

Personagem mais marcante
Tadzio, de Morte em Veneza.

+ SANTIAGO
Amor e Hemácias (blog)
Germinal Literatura
Mastigando Humanos (blog do livro)
Formigas no Açúcar (trechos dos livros publicados)

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