Sebastião Estiva e Rogério Skylab

MARGINAL, VANGUARDA E ALÉM
Nomes importantes do underground brasileiro, Rogério Skylab e Sebastião Estiva numa conversa inusitada e inédita

Sebastião Estiva e Rogério Skylab construíram suas personas lendárias no underground brasileiro através de excentricidades e projetos ambiciosos. Estiva alimenta um mistério sobre sua identidade e tem a pretensão de fazer um disco para cada estado brasileiro. Skylab causa desconforto com canções aparentemente repulsivas, onde se valoriza aspectos fisiológicos (o cu, o pau) e o trivial (Carrocinha de Cachorro quente, Fátima Bernardes). Já lançou 7 discos, de 10, da série que leva seu nome.

Sebastião Estiva se inspirou – a começar pelo nome – no músico norte-americano Sufjan Stevens e seu disco Illinois, Come On Fell The Illinoise (2005). Desde então, já lançou os discos Cum on! Feel the Tocantinoise!, The massACRE (duplo), e Ama Zonas, além do EP infantil Sete Galinhas. O mais novo trabalho, Meu Paranã – Verdades, Mitos e Falácias é segundo Estiva “um olhar antropológico às minúcias regionais paranaenses, entre épicos militares, vinhetas gastronômicas, hits para as pistas e análises comportamentais do jovem moderno”. Como todo detalhe é importante, o álbum foi lançado em 7/7/07.

Rogério Skylab produz seus discos em série, já está no Skylab VII, lançado este ano. Corriqueiro no seu trabalho, a escatologia e morbidez pontuam as canções, que escondem uma poética subversiva que o fez famoso no underground carioca. Rogério Tolomei Teixeira, seu nome verdadeiro, foi funcionário público (do Banco do Brasil) e além dos oito discos de sua série Skylabs, lançou Fora da Grei e o livro Debaixo das Rodas de Um Automóvel. É conhecido por suas entrevistas no Jô Soares, nada convencionais ao programa. Convencional é uma palavra em falta no dicionário do autor de sucessos como “Matador de Passarinho”, “Você é Feia” e “Eu Chupo Meu Pau”.

De louco e revolucionário, cada um – Skylab e Estiva – têm um pouco. O GRITO! propôs uma entrevista entre os dois e revelou até uma futura parceria. Confira a seguir.

ROGÉRIO SKYLAB – Sebastião Estiva, primeiramente é um grande prazer falar contigo. Soube que você esteve aqui no Rio de Janeiro, algum tempo atrás, no Festival Ruído. Qual foi a impressão que você teve desse festival?
SEBASTIÃO ESTIVA – O prazer é recíproco, pode ter certeza! Eu e minha banda fomos pegos de surpresa pela platéia do Rio; achávamos que nosso certo “sucesso” se estenderia mais pelo público de São Paulo, mas não foi bem assim. Todos os que encontramos (desde a organização até o público do Festival) nos receberam muito bem e estamos sondando outras oportunidades de tocar novamente no Rio. Esperamos marcar outros shows num futuro não muito distante.

ESTIVA – Você sempre diz tentar “atingir a loucura pela razão”. Em qual composição sua você acredita que chegou mais próximo disso, ou até mesmo atingiu seu objetivo?
SKYLAB – “Chegar à loucura pela razão” é uma forma de se dizer que valorizo sobretudo o artifício. Nada que eu digo é sincero. Aliás, não tem nada mais démodé do que a sinceridade. Tudo em meu trabalho é artifício, tudo é construção. A própria loucura é construída, no meu caso. Aliás, quando Foucault estudou a história da loucura, percebeu isso também: a loucura e os hospitais psiquiátricos são uma espécie de construção social.

ESTIVA – Você já falou abertamente sobre várias celebridades, como por exemplo as músicas “Câncer no Cú” e “Fátima Bernardes”, e ambas foram censuradas. Já houve alguma música que você teve receio de expor ao público?
Rogério Skylab - Skylab V SKYLAB – Receio de expor ao público, jamais. Acho que o artista não pode e nem deve sentir esse constrangimento porque assim ele desenvolve a auto-censura e aí fodeu. Todas essas músicas eu canto em show. A revista Outra Coisa vetou a música “Fátima Bernardes Experiência” e o Skylab V saiu na revista sem essa música. Mas eu fiz uma tiragem do disco por conta própria incluindo a música. O que acontece também é que, em razão dos Emules da vida, não existe mais segredo – todas essas músicas estão disponíveis.

Skylab: Tudo em meu trabalho é artifício, tudo é construção. A própria loucura é construída, no meu caso

SKYLAB – Ao entrar na página da Trama Virtual, a gente tem uma idéia do conjunto do seu trabalho. E o que chama logo a atenção é a parte conceitual. Independentemente do fato da música ser boa ou ruim, ela é conceitual, e isso, por si só, deveria ser saudado. O que você acha da música brasileira, do rock brasileiro? Você consegue ver em relação a alguma banda ou compositor, pontos de afinidade com o que você faz?
ESTIVA – Costumo pensar que nem tudo é ruim ou livre de defeitos. Existe muita coisa dispensável (como sempre existiu) na música pop e nos sons mais obscuros. Mas posso dizer que percebo certas afinidades com o seu trabalho e com o do Zumbi do Mato, pelo fato de ‘desconstruir’ o conceito de música comercial/convencional. Outros artistas que não seguem esse tipo de ‘moldura mainstream’ e me interessam são Serginho Moreira, Hurtmold, Odicet… Já no lado mais pop e melodias assobiáveis, gosto muito de Cabelo Veludo e Calypso, por exemplo.

ESTIVA – Estabelecendo uma comparação entre nossos trabalhos, eu acho que nós dois possuímos praticamente duas personalidades: a primeira, artística e “marginal”, e a segunda, que se adequa ao panorama de uma sociedade. Sei que você já esteve pra se aposentar, mas enfim, como você se adequava à hierarquia de uma empresa, mantinha seu respeito profissional e se protegia contra a hipocrisia mesmo após as aparições em programas de TV?
SKYLAB – Olha, é bom pro escritor, pro artista, enfim, conhecer realidades diferentes, não só conhecer como pertencer a mundos diferentes. Imagine se eu vivesse numa torre, eu e meu piano, só compondo. Acho que esse castigo, as grandes estrelas da MPB sofrem na carne. E a conseqüência é um total desligamento da realidade. Ter trabalhado num banco, ainda que nunca tenha atendido o público, serviu pra entrar em contato com pessoas comuns. Ajudou inclusive no meu trabalho de composição.

Rogério Skylab - Skylab VII ESTIVA – Você já disse algumas vezes que sua saga acaba no Skylab X. Você lança discos praticamente de ano a ano, lançando há pouco tempo o Skylab VII. Como é pra você a idéia de se afastar da música em tão pouco tempo? Depois do décimo disco, nenhum projeto paralelo? Nem shows?
SKYLAB – Eu pretendo acabar a série dos SKYLABS, só isso. Mas eu já tenho em vista projetos paralelos. Não me vejo me desligando da música, seria impossível. Mas devo me dedicar mais à literatura.

SKYLAB – Em relação ao Acre, Tocantins, ou, Sete Galinhas, a gente percebe um trabalho tosco mas que guarda traços experimentais, inclusive cooptando a tecnologia. Mas em Meu Paraná você arrebenta e produz, ao meu ver, um dos trabalhos mais interessantes e ousados dos últimos tempos. Vai parar aí?
Sebastião Estiva - Meu Paranã - Verdades, Mitos e Falácias ESTIVA – Agradeço os elogios ao meu trabalho, é muito recompensador ouvir tais observações de um de meus ídolos. Sobre meus próximos trabalhos, não posso dizer que sigo um plano ou linha de raciocínio lógico pensando em ‘evoluir’ ou ficar mais ‘comercial’. Já tenho um disco pronto e gravado esperando para ser lançado (Monte Roraima), que consiste na gravação ao vivo de um ensaio, o qual foi composto de maneira espontânea ali no momento, totalmente experimental. Além disso, já iniciei o processo de composição e gravação de Pernambeat, um disco com uma sonoridade mais calma e eletrônica, bebendo um pouco na fonte do trip hop com influências regionais.


Estiva: Minhas músicas são como aqueles monstros de seriados japoneses: elas são reais enquanto você acreditar nelas

SKYLAB – Sabe o que eu acho? Ao falar dos estados brasileiros, você faz uma música antropológica. Tudo bem. Mas o que a gente percebe, é que na verdade, você não pertence a nenhum desses estados, o que leva a pensar que a sua música é inventada e completamente artificial. Ou seja, é produzida a leguas do coração. Isso é maravilhoso. Concorda comigo?
ESTIVA – Sempre que começo uma gravação eu me sinto muito envolvido, como se realmente fizesse parte daquele estado, aquela cidade, como se realmente fosse parte daquele povo. É como se fosse um entidade de umbanda que baixa num cabloco pra realizar um trabalho e só vai embora quando o trabalho está terminado. Já minhas músicas são como aqueles monstros de seriados japoneses: elas são reais enquanto você acreditar nelas.

ESTIVA – Por que seu irmão jornalista não gosta de mim? Talvez ele não tenha tido paciência pra ouvir com calma por causa da produção dadaísta de meus primeiros discos. Se possível, fale pra ele que o Estiva paga uma cerveja na próxima viagem ao Rio de Janeiro para estabelecermos paz.
SKYLAB – Não é meu irmão mas se parece muito comigo – é o que dizem. Quanto ao fato dele não gostar de seu trabalho… Cara, se eu tivesse que enumerar pra você aqueles que não gostam da minha música…

ESTIVA – Tenho um grande projeto de reunir alguns artistas controversos para um disco conceitual sobre o Pará. Já ouvi dizer que você não costuma trabalhar em parceria, mas toparia participar desse projeto?
SKYLAB – Toparia sim, claro. E não é verdade que eu não trabalho em parceria. O meu último disco, vem com 5 músicas que eu compus em parceria. Alguns projetos futuros, após a série dos SKYLABS, serão feitos também em parceria. Enfim, tamos aí.

ESTIVA – Já tenho inclusive aqui uma música que penso que poderia muito bem ter letra e vocais seus. Mas acredito que poderíamos estender tal parceria para algum projeto mais ambicioso…

ESTIVA – Finalmente, Rogério: cadê seu pau? Não são válidas respostas envolvendo eu ou meus familiares…
SKYLAB – Bem, acho que posso te responder com uma música que consta do Skylab IV:

Doutor me explica/ Por que é que às vezes/ Quando eu fico parado, sem fazer nada,/ O meu pau fica duro?/ Não é bexiga cheia,/ Não é mulher pelada,/ É assim de repente/ O meu pau fica duro.

 

LINKS
ROGÉRIO SKYLAB

Site Oficial: rota66.com.br/skylab/
Trama Virtual: tramavirtual.uol.com.br/skylab
Blog: godardcity.blogspot.com
Para Comprar: rota66.com.br/skylab/pvendas.htm

VÍDEOS
Fátima Bernardes Experiência (link)
Eu Mostro Meu Pau (link)
Quer tc comigo? (link)

SEBASTIÃO ESTIVA
MySpace: myspace.com/sebastiaoestiva
Trama Virtual: tramavirtual.uol.com.br/artista.jsp?id=33662
Orkut: orkut.com/Community.aspx?cmm=8260164
Para Comprar: peligro.com.br

VÍDEOS
O Puteiro Governamental do Terceiro Ciclo (link)
Eu Sou Sebastião Estiva: O Jingle (link)

Sem mais artigos