MULHER, NEGRA, FRÍVOLA, ONISCIENTE
HQ de Rafael Campos Rocha traz visão inusitada de Deus

Por Paulo Floro

O quadrinista paulista Rafael Campos Rocha blasfema com um propósito. Sua personagem Deus é uma carismática mulher, negra e dona de uma sex-shop na HQ Deus, Essa Gostosa, que tem lançamento pelo selo Quadrinhos na Cia, da Companhia das Letras. Contrapondo uma visão comum de uma divindade austera, com barbas longas, criador do mundo e bastante severo, encontramos o todo-poderoso bastante interessado nas frivolidades da vida.

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A obra chegou às livrarias depois de circular por uma lista de emails, a revista piauí e enfim, nas páginas do semanário Ilustríssima, da Folha de S. Paulo. Com uma carreira nas artes plásticas, Campos Rocha começou a publicar suas HQs em fanzines. “Tudo o que eu faço vem da irritação que me dá ideias que considero reacionárias e conformistas. Então, quase sempre expurgo essa irritação nos quadrinhos”, diz em entrevista à Revista O Grito!. A personagem Deus foi uma forma de criticar a repressão sexual e os preconceitos que existem hoje no entendimento que as pessoas têm sobre religiosidade.

Como tudo que envolve Deus é polêmica instantânea, o autor enfrentou reprovações. “Recebo e-mails, às vezes sombrios e ameaçadores, às vezes só me chamando de imbecil”, diz. “Fiz um deus que fosse o oposto simétrico do deus das religiões monoteístas adotadas pelo homem moderno Ocidental”. Em entrevista à Revista O Grito!, Rafael Campos Rocha fala de sua personagem mais famosa, mercado de arte, quadrinhos e preconceito: “O Brasil é tão racista e intolerante quanto qualquer outra nação”.

As tiras de Deus Essa Gostosa ficaram conhecidas primeiro através de um público seleto em uma lista de email. Como surgiu a ideia de levar até um público maior?
Olha, eu sempre fui um artista plástico fracassado cujos trabalhos nunca tiveram a menor repercussão. Portanto, foi uma baita duma surpresa quando os editores da piauí e da Folha de São Paulo (nessa ordem) me chamaram. O da piauí conheceu por intermédio da lista de e-mails, que amigos em comum repassaram pra ele. O Paulo Werneck, da Folha, conheceu o trabalho por meio do Blog do Guaciara, se eu não me engano, o blog é do trio infernal Tiago e Lauro Mesquita e do meu editor da novos estudos, Joaquim Toledo Jr.

Usar o nome de Deus levanta polêmicas instantâneas. Você recebeu algum tipo de reprovação com a obra?
Recebo e-mails, às vezes sombrios e ameaçadores, às vezes só me chamando de imbecil. Uma carta deliciosa foi enviada para a Folha, que chama o meu trabalho de “um deboche ignóbil e malicioso”, alcunha instantaneamente adotada pelos meus amigos. Uma carta, também deliciosa, defendeu o meu trabalho no mesmo jornal, citando uma frase do Papa João Paulo 1°, “Deus é mãe” que, segundo o autor da carta, “chocou os fariseus dos anos 70”. Meus amigos também tiveram o cuidado de recortar, escanear e mandar para mim.

Deus é mulher, negra e trabalha em uma sex-shop. Existe uma leitura contra o preconceito nessa ideia?
Sim. Fiz um deus que fosse o oposto simétrico do deus das religiões monoteístas adotadas pelo homem moderno Ocidental. Portanto, ela é sexuada, feminina, noturna, apátrida (isso é muito importante) e profundamente contra-cultural.

Outras HQs que tocaram no campo da religiosidade causaram muito barulho, como o cartunista finlandês Kurt Westergaard, que sofreu perseguição após um desenho de Maomé. No Brasil, a aceitação desses temas é maior?
Não. O Brasil é tão racista e intolerante quanto qualquer outra nação. Está se tornando mais intolerante e racista, graças à célebre falta de autocrítica verdadeira e a ascensão econômica e financeira dos países vizinhos. Além, é claro, da ascensão interna de classes menos abastadas, vista com ódio pela autodenominada elite. Cabe ressaltar que detesto charges que fazem piada contra a religião e o status quo de outros povos e nações. Kurt Westergaard sofre do mesmo tipo de preconceito e sentimento de superioridade repugnante que gerou as charges dos jornais do Terceiro Reich, satirizando e demonizando os judeus. Quero ver ele tirar sarro do “estado de bem-estar” do capitalismo sanguessuga dinamarquês. É um otário ignorante esse cara e uma figura detestável, endeusado pela detestável imprensa ocidental.

Você tem um carreira como artista plástico. Desde quando começou o interesse em fazer quadrinhos? Acredita que as duas linguagens estão próximas?
Como disse no começo, minha carreira de artista plástico não era lá grande coisa. Não conseguia sobreviver e pagar as contas com ela, por exemplo. E isso, em um mundo capitalista, acaba sendo mais importante que ser reconhecido por outros artistas, por exemplo. Comecei a fazer quadrinhos na minha estadia fora do país, como um modo de me comunicar com os amigos que tinham ficado pra trás. Também nasceu da irritação. Tudo o que eu faço vem da irritação que me dá ideias que considero reacionárias e conformistas. Então, quase sempre expurgo essa irritação nos quadrinhos. O primeiro fanzine se chamava O Poder do Pensamento NegativoComo Destruir A Sua Vida e Das Pessoas Que Vc Ama Em Duas Lições. Comecei a enviar em 2007. Parei somente no começo desse ano. Está completa a saga.

Os quadrinhos começaram, portanto, como uma forma de arte. Sempre quis fazer uma arte que não parecesse arte. O que é um problema hoje em dia, já que a arte virou uma alcunha que atribui “valor” às coisas. Como se um objet trouvé fosse melhor, por ser arte, do que uma privada funcionando quando se está com uma caganeira realmente forte. E o que aconteceu foi que os quadrinhos acabaram virando arte. No pior sentido. Foi a gota d’água para deixar a profissão. Evidentemente, se estivesse ganhando rios de dinheiro para pendurar quadrinhos na parede como se fossem alguma bobagem do tipo Di Cavalcanti, meu discurso seria outro. De qualquer forma, não gostaria de ser conhecido como um desses caras que busca rebaixar o quadrinho ao nível da Arte ou da Literatura. Credo.

“O Poder do Pensamento Negativo” tem alguma chance de chegar às livrarias?
Bom, como eu disse, esse gibi tinha o objetivo de irritar as pessoas, como todo o resto. Só que a expressão “poder do pensamento negativo” e, principalmente o pessimismo, foi tomado pela cultura de direita, que se autodenomina politicamente incorreta. Eu detesto esse tipo de cultura e humor de negação das conquistas sociais que realmente aconteceram. É classista, esnobe, fascistoide e violenta. Como não quero ficar ao lado de gente que faz piada com a religião dos outros, com a dor dos outros, com a situação econômica dos outros, abandonei o tema. Aliás, sou politicamente correto. Sou a favor das cotas, do salário família, do voto para todos. Sou contra o estado-nação e qualquer forma de distinção.

Não gostaria de ser conhecido como um desses caras que busca rebaixar o quadrinho ao nível da Arte ou da Literatura. Credo.

Quem são os artistas das HQs que você mais admira (e quem mais te influencia)?
Bom, meu cartunista predileto é George Herriman, autor de Krazy Kat. Depois creio que A Garagem Hermética de Jerry Cornelius e Harzack de Moebius, sejam das coisas que mais me trouxeram alegria e inquietação. Como quase todo mundo, adoro a geração da Zap, encabeçada por Crumb. Hoje em dia estou apaixonado por Walt Kelly, de Pogo, e pelo Batman original, de Bob Kane. Aquilo é incrível. Aliás, toda aquela ebulição de personagens malucos da década de 30 é fantástica, com aqueles desenhos toscos e diretos. Mas, deles todos Jack Cole e seu plastic man é meu favorito. Recentemente, tornei-me um fanático por Cerebus, de David Sim. Aquilo é das coisas mais loucas, demolidoras e grandiosas da cultura que conheço. E não posso me esquecer do fantástico Roy Crane. Eu queria ser o Roy Crane, na verdade. Ele tem os desenhos mais lindos de mulher que conheço e suas tiras de aventura são um turbilhão. Dos recentes, gosto muito do Cristophe Blain. Seu Issac, O Pirata, é maravilhoso. No Brasil, gosto do Laerte e do Gonzáles. Laerte pode ser genial em algumas tiras e o Gonzáles tem o desenho mais engraçado de todos. Gosto muito do antigo Angeli, quando ainda eram tirinhas com personagens. E meu desenho tem muita influencia do Hugo Pratt, principalmente no desenho de Deus.

Você tem sido a “cara” do caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo. Quadrinhos e ilustração têm recebido muita atenção da imprensa?
Cáspita. sério? Oxe, vou mandar isso pro meu editor! (Risos). Bom, acho que tem recebido sim, atenção. É um produto de cultura, e as empresas precisam ir atrás de novas demandas. Enfim, eu realmente não sou muito informado sobre o “mundo dos quadrinhos”. Estou nessa há pouco tempo (publico desde 2010, só), mas estou correndo atrás para me informar. Faço até parte de um grupo de estudos da USP, chamado “observatório de quadrinhos” e tenho estudado muito a história do meio, lido os sites especializados, essas coisas.

Por fim, uma pergunta subjetiva: o que te inspira?
Olha, eu gosto de encher o saco de uns e divertir os outros. As pessoas que gosto de encher o saco, agredir e irritar eu identifico com os aparelhos de repressão e dominação. Então gosto de irritar os intolerantes, nacionalistas, repressores sexuais, defensores do status quo, da família burguesa, da propriedade privada, da Cultura e do espetáculo da riqueza. E gosto de divertir as pessoas que detestam essas coisas todas, como eu, e amam as mesmas coisas que eu: liberdade sexual, anarquismo, socialismo, futebol argentino, arte com minúscula, beber e comer bem e sem culpa, etc.

Veja galeria com o trabalho de Rafael Campos Rocha

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