Fotos: Camila Van der Linden

Fotos: Camila Van der Linden

lança disco de estreia celebrando mundo mais justo e menos artificial
Cantor faz parte da nova cena independente do Recife e contou com participação de músicos da Orquestra Contemporânea de Olinda, Bande Dessinée e A de Joseph Tourton

Por Paulo Floro
Da Revista O Grito!

O cantor pernambucano Paes lança seu primeiro disco, Sem Despedida e chega cheio de ideais. Segundo ele, o trabalho reflete uma série de mudanças pessoas motivadas por desilusões amorosas e relações familiares. Adicione a isso a uma fuga do cantor para espaços mais bucólicos para refletir e o início de um novo namoro. Pronto, temos um dos trabalho mais românticos na cena independente deste ano.

Paes é bastante seguro de suas opiniões e tudo está presente neste disco conceitual. “É um trabalho difícil e sem fim neste universo competitivo e hostil em que vivemos”, explicou em entrevista. “Vejo também uma artificialidade nas relações, que é fruto da nossa era. Todos estão ‘juntos’, por outro lado sozinhos em seus apartamentos e carros”. O álbum foi feito com uma banda cheia de nomes da nova cena musical de : Rapha B. (Orquestra Contemporânea de Olinda), Rafael Gadelha (A Banda de Joseph Tourton), Filipe Barros (Bande Dessinée e também produtor do álbum, com Rogério Samico), além de ter participações de Ana Ghandra, Rafael Marques (Saracotia), Tiné e Gilú (OCO).

O show de lançamento acontece nessa quarta (12) na Livraria Cultura do Shopping Rio Mar (Teatro Eva Herz), às 19h. A entrada é de graça.

Veja a entrevista.

Qual sua maior inspiração para este disco de estreia?
Este disco é o resultado dos últimos seis anos de experiências vividas não só na música como profissional, mas na vida pessoal também. É minha redenção. Nesse período eu gravei três EPs e realizei cerca de 30 shows que passaram por Recife, Olinda, Argentina (4 cidades), São Paulo e Rio de Janeiro, com diferentes formações e participações. Isso me trouxe uma bagagem, de perdas e ganhos, erros e acertos. Não é só na ascensão que evoluímos, é na queda que aprendemos as maiores lições. Na vida pessoal passei por situações adversas, no que diz respeito a relações amorosas, relação difícil com a família, decepções, desilusões. Tudo que vivemos deve servir de inspiração para criação de uma obra artística, pois os músicos ou bandas que admiramos no discurso ou na musicalidade exercem influência de forma superficial, se não, nos tornamos uma cópia mal feita, sem originalidade.

O artista, as pessoas em geral, devem procurar em si uma identidade e deixar surgir naturalmente de dentro para fora, com sinceridade e sem hipocrisia. As relações interpessoais são uma das minhas maiores inspirações. Aprendi com elas e mudei muito minha percepção do mundo, meus valores, minhas crenças. As atitudes dos outros me fizeram mudar radicalmente as minhas em relação a tudo na vida. E hoje eu me sinto uma pessoa mais leve, menos inconformada, mais sincera comigo mesmo e com os outros, com uma visão mais madura do que é viver neste mundo. Não tenho medo de falar de mim, não tenho receio do que vão achar ou pensar. Eu sou o que sou, o artista e a pessoa são a mesma figura, onde não há distinção, personagem ou máscara. Vejo por aí uma dificuldade enorme de elogiar, de levar pra cima, de se dizer “eu te amo”, de dar um beijo ou um abraço, de demonstrar afeto, preservar as relações verdadeiras, de se jogar, romper barreiras e de deixar para trás o que não lhe faz bem.

Vejo também uma artificialidade nas relações, que é fruto da nossa era. Hoje todos estão conectados 24h a uma vida virtual dentro e fora do computador, onde estão “juntos”, por outro lado sozinhos em seus apartamentos e carros. A dois anos e meio conheci a mulher da minha vida, Camila. Minha amante, amiga, guerreira, parceira, que me conhece mais do que ninguém e me fez abrir os olhos para muitas coisas que eu não conseguia ou tinha medo de enxergar. Me fez olhar para dentro, me conhecer profundamente, ser verdadeiro. Me fez entender que somos um só ser em qualquer situação. Me mostrou o que é amar de verdade e viver a flor da pele. É uma mulher que possui uma percepção incrível das questões que envolvem o ser humano. Ela é uma das grandes inspirações, se não a maior. O dia a dia me influencia, o som do vento nas folhas, a chuva, a praia, o sítio. O contato com a natureza bucólica e viva, dos espaços fora da urbe, nos faz entrar em contato com a nossa natureza interior. Aprender a parar, refletir, respirar e meditar também me trouxe bons frutos e inspiração. E é um trabalho difícil e sem fim neste universo competitivo e hostil em que vivemos.

O melhor caminho ao meu ver é nos unir cada vez mais. Só assim poderemos conquistar e fomentar nosso público. Mudar essa cultura de só ver show de graça nas festividades e de não querer pagar 10, 15 reais pra entrar

Você é bem relacionado com novas e antigas gerações. Isso influencia seu trabalho?
Certamente. Desde pequeno que me relacionava muito bem, as vezes até melhor, com os mais velhos, jovens e adultos. Depois de montar várias bandas na adolescência, como baixista e cantor, eu ingressei na carreira profissional com 18 anos. Gravei meu primeiro registro autoral com uma banda formada por músicos com 20, 30 e 40 anos a mais que eu. Lógico que haviam barreiras, por serem mais vividos e experientes. Mas elas eram infinitamente menores e insignificantes perto da relação e afinidade que tínhamos em prol da amizade e da música. Depois gravei mais dois EPs e realizei shows com formações diferentes, contendo músicos de outros nichos. Aprendi muito. Devo a eles, e a todas as pessoas que se envolveram nos processos, dando apoio e incentivando, tudo o que sou hoje. Sou muito grato e satisfeito por sempre ter trabalhado com amigos.

As coisas tem de andar juntas, não há separação. O tempo que durou cada formação foi o período certo de maturação e o fim de cada uma se deu por motivos que não estão ao nosso alcance muitas vezes. É o ciclo natural das coisas. Quando senti que a amizade e a parceria profissional não andavam mais juntas, era um sinal de mudança. Sempre tentei ao máximo ser justo e honesto com todos, pois lidamos com um trabalho artístico, delicado, com dinheiro em jogo (ou a falta dele) e diversos prismas que nos envolvem. A minha geração e as novas me encantam muito, me ensinam. Amigos recém conquistados, que possuem em média 19 anos me dão lições que me deixam de cara. E eu os respeito muito. E quando é hora de dar sermão, conselhos e de puxar o rabo não sou indiferente. Eles sabem disso.

Hoje a banda é formada por músicos que tem uma média de idade entre 23 e 30 anos. Estamos nos fortalecendo, pois é a formação que passei mais tempo até agora e acho que vai durar muito. Talvez seja pelo fato de ter culminado neste disco e neste novo show. A dois anos que esse trabalho vem sendo construído. Teve muita gente envolvida na produção, cerca de 30 pessoas.

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Depois de soltar o disco, quais seus próximos planos. Vai fazer shows?
Quero fazer muitos shows. Este lançamento é a oportunidade de mostrar ao público em geral que temos um trabalho com identidade, feito com amor e dedicação diária. Que estamos, eu e a banda, prontos para ganhar a estrada. Almejamos realizar mais shows no segundo semestre e inscrever em editais um projeto de circulação nacional. Desejo conquistar espaços e públicos maiores. Acredito que agora tenho algo a mostrar para os produtores dos grandes festivais da cidade e às curadorias das prefeituras e governo. Nunca toquei em um evento público (salvo o Pré-Amp) e nos festivais. Não por falta de indicações e inscrições em editais. Mas acredito que tudo tem sua hora certa de acontecer. E o semestre que vem para mim é a hora de começar a mudar o rumo da minha carreira.

Como você começou a cantar/compor, enfim, trabalhar com música?
Comecei a estudar música com 7 anos. Tive aulas práticas e teóricas de teclado e piano nas escolas Minami e Salesiano por 4 anos. Esse início me deu uma percepção musical que iria me ajudar durante toda a juventude, até hoje e para sempre. Depois larguei a teoria e as teclas, vendi meu teclado Yamaha e comprei um baixo Jennifer. Ouvi muito The Doors, Led Zeppelin, Nirvana e Radiohead. Quando meu irmão Bruno me apresentou Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A e Otto eu pirei. Queria tocar rock. Na adolescência montei bandas de cover, nas quais tocávamos rock americano e inglês, como também músicas de bandas de pop/rock nacionais. Essas bandas culminaram na Ivete Fubá, a primeira e última banda autoral que fiz parte.

Com amigos de escola, comecei a compor letras, melodias e arranjos no estilo mais cru e sincero, sem pretensões ou modismos. Quando a banda acabou, tinha ganhado um violão de presente dos meus pais, pelos meus 15 anos. Tive meningismo, doença com sintomas iguais a meningite. Pensei que ia morrer ou no mínimo ter sequelas. Fiquei bem e depois de recuperado comecei a compor músicas instrumentais no violão, das quais uma delas está neste disco, chama-se “Exílio”. A partir disso compus minha primeira canção com letra, dentro deste novo universo. Foi o samba “Te confesso”. Daí para a gravação do meu primeiro EP (Paulo Paes), demorou 3 anos. O processo foi baseado no lema “do it yourself”, onde registrava em casa em um gravadorzinho Aiwa de entrevista, minhas primeiras composições como artista solo.

Fazia a capinha a mão, copiava em outras fitas cassetes e saía distribuindo nos shows e eventos relacionados a música. Dei estas fitas a vários músicos que posteriormente vieram a tocar comigo. Fui na cara dura, falando quem era e que tinha umas músicas. Me joguei pela primeira vez. Vieram bons comentários e a curiosidade de alguns. Fiz amizades, e depois de um tempo montei a banda que iria gravar. A partir daí comecei a trabalhar com música, em 2006.

Sempre perguntamos isso nas entrevistas: qual a percepção que você tem da cena local atual?
Acho muito rica. Tenho acompanhado diversas bandas e artistas locais e vejo uma pluralidade muito grande, em termos de composição, arranjos, melodias, discursos. Acredito que Pernambuco está vivendo um momento extremamente criativo e quem tem rendido frutos a cultura do estado e do país. Que tem representado a gente nos quatro cantos do mundo. E aos poucos, através da luta e perseverança, feito formiga, vamos alçando voos maiores. Os editais de incentivo fiscal são muito importantes para nós. Mas acredito que o mais importante é desenvolvermos mecanismos próprios para difusão e compartilhamento de nossas obras. Assim podemos ter mais autonomia em realizar shows, discos, turnês. Buscar parcerias em outras áreas. O melhor caminho ao meu ver é nos unir cada vez mais. Só assim poderemos conquistar e fomentar nosso público. Fazer as pessoas entenderem que nós precisamos delas nos shows que damos muito duro pra produzir. Mudar essa cultura de só ver show de graça nas festividades e de não querer pagar 10, 15 reais pra entrar numa festa que tem 2 bandas, um Dj, lojinha, bar, enfim.

Estão surgindo cursos como o de Produção Fonográfica da Aeso e o de André Sonoda por exemplo, que estão capacitando profissionais na área de áudio, produção musical e executiva, elaboração de projetos, eletrônica e diversas outras áreas. Isso, aliado a experiência adquirida no fazer, nos fortalece e nos dá munição para revolucionar nosso meio, nossa casa, nossa rua, nosso bairro, nossa cidade. É a cena mais rica e original do país (perdão aos outros estados). Por conta das dificuldades em se viver de música aqui, muitos pernambucanos se mandaram para São Paulo, Rio de Janeiro, a procura de melhor oportunidade. E muitos conseguiram fincar sua bandeira lá, depois de 10, 15 nos de ralação. Muitos se decepcionaram e estão voltando. Porque aqui há uma áurea diferente.

É importante circular, morar em outros lugares, pois adquirimos vivência. Mas aqui tem nossas praias, sítios, sertão, agreste e urbe. Tem nossos parentes, amigos, lugares que nos inspiram. Um dia penso em passar uma temporada em outro estado ou até mesmo em outro país. Não é questão de bairrismo, mas não troco meu Recife por nada, mesmo com todas as dificuldades. E é por elas que eu quero ficar. Pra vencê-las e transformar meu lugar. Não julgo quem se mandou, faz bem, e entendo a pressão, afinal temos de comer, dar o leite das crianças. Mas eu fico pra mudar a minha cidade e não deixar a cidade me mudar.

Pedimos para Paes comentar as imagens presentes no disco, que fazem parte de seu acervo pessoal.

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As fotos foram tiradas no início da década de 1960, época que me inspira muito musicalmente, esteticamente: as cores analógicas, as roupas, os carros, os lugares com menos gente, automóveis e trânsito, as revoluções culturais e políticas. Para mim foi a década mais rica e marcante até agora. Que determinou muita coisa no mundo, para pior ou melhor. Meu trabalho artístico visual é feito com fotografia analógica ou desenho a mão. Desenvolvi a concepção da arte do disco durante seis meses e realizei junto ao design Rodrigo Garcia a finalização do produto, que por sinal entendeu perfeitamente a atmosfera e transformou minha ideia em realidade e foi além disso. A incrível como ele conseguiu transparecer toda a sutileza das fotos. A foto acima foi feita em Nice, na França. Na foto da capa está minha avó Tiá, por parte de mãe, que só conheci quando era ainda um feto dentro da barriga. Quando ela faleceu minha mãe estava grávida de mim.

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A relação com minha mãe é muito parecida com a que ela tinha com a minha avó. É uma eterna busca. Somos muito parecidos e ao mesmo tempo tão diferentes. Fui criado com muito amor, carinho e dedicação. Tive uma educação que infelizmente muitos não tiveram por aí, sou muito grato. Minha mãe sempre me incentivou no que a vida escolheu para mim. Há pouco tempo descobri através dela que eu sou muito parecido com minha avó, que era envolvida com artesanato, quando no Recife não existia Fenearte ou qualquer evento parecido. Ela ia parando nas cidades da Zona da Mata recrutando artistas populares e enchendo o carro com suas obras para expor no Recife em feiras livres. O carro batia a saia na pista com tanta mercadoria. E eu também sigo assim, enchendo minha cabeça e meu coração de bagagens e nossa mercadoria: a música.

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