OLINDA E ALÉM
Orquestra Contemporânea de Olinda lança disco cercado de expectativa, com a proposta de manter o sucesso alcançado na estreia

Por Paulo Floro

Os músicos da Orquestra Contemporânea de Olinda não têm muito tempo – nem paciência – para lamentações. Remando contra um mercado local que não divulga bandas do próprio Estado, os pernambucanos conseguiram despontar através de uma ação bem feita de marketing, engajamento social e uma ótima recepção da crítica de seu primeiro disco homônimo. Com esse álbum, chegaram até os EUA, onde foram destaque na imprensa de lá. Também foram indicados a prêmios e ganharam espaço em festivais e palcos de grande público, inclusive aqui no Recife.

Na difícil tarefa de manter a boa repercussão no segundo disco, o grupo lança o álbum Pra Ficar, que teve produção de Arto Lindsay, americano que já trabalhou com outros brasileiros, como Marisa Monte e Caetano Veloso. O trabalho traz uma proposta de dar uma pegada mais forte ao frevo. Tem também mistura com outros ritmos, tudo muito suingado. “Temos em mãos um trabalho maduro e estamos preparados para avançar”, diz o percussionista Gilu Amaral, em entrevista para a Revista O Grito!.

Na conversa abaixo, a banda falou do processo de gravação deste novo disco, das dificuldades de tocar no Recife e, claro, de Olinda, terra que ainda é a maior inspiração para o grupo.

Como foi o processo de gravação do disco? Qual a importância de Arto Lindsay no resultado final?
Foi um processo compartilhado. Arto ficou conosco no Fábrica Estúdios, no Recife, por 12 dias consecutivos. Ele é um profissional observador e trouxe para o disco um olhar próprio, mas ao mesmo tempo respeitando a nossa forma de trabalhar, nossas composições e arranjos. O disco alcançou as nossas expectativas, pois Arto, em parceria com engenheiro de som Renato Godoy, que veio com ele gravar o disco, deram uma pitada moderna e a sonoridade que, certamente, sem eles não existiria, fundamental para o resultado final.

Como vocês analisam a trajetória da banda desde o disco homônimo em 2008, até este? Vocês acham que alcançaram o objetivo?
Somos artistas conscientes de que a estrada não tem fim. Trabalhamos intensamente para mostrar a nossa música e do que acreditamos poder tirar e dar dela. O primeiro disco nos trouxe muitas alegrias. Chegamos a várias partes do Brasil, formamos público, fizemos turnês internacionais, ganhamos reconhecimento da mídia especializada, indicações a prêmios importantes. Aí vem um novo disco. Temos em mãos um trabalho maduro e estamos preparados para avançar. O show está dançante, instigado e demonstra a boa fase da nossa carreira. Temos certeza de que a Orquestra Contemporânea de Olinda está aqui Pra Ficar!

Conceitualmente, o que vocês gostariam de destacar neste álbum?
É um álbum trabalhado por dois anos. A maioria das músicas foi composta em grupo, nos ensaios. Fizemos tudo lado a lado. Crescemos trabalhando juntos, ouvindo o trabalho do outro. Nos entendemos no trabalho e acima de tudo somos grandes parceiros, amigos. Aí a música flui, embala. Acreditamos que o disco Pra Ficar deixa isso claro… a afinidade é evidente. O conceito é a afinidade de um grupo de músicos que entende Pernambuco como um dos celeiros musicais e criativos mais expressivos do mundo. Músicos que sempre vivenciaram a forma singular de vida olindense, de uma cidade cosmopolita, histórica, percussiva, profana, sagrada. Olinda é marcante nas nossas vidas e na vida de quem passa por ela.

Vocês conseguiram indicações no Grammy Latino, receberam elogios do New York Times. Vocês apostarão em uma carreira internacional? Quais os planos?
A nossa entrada no mercado exterior foi em 2010 por uma porta que é a mais difícil, reconhecidamente no mundo da música: os Estados Unidos. Chegamos lá e surpreendemos. Ganhamos página no New York Times e temos propostas de diversos festivais e casas para voltar. Claro que está nos nossos planos o retorno. Em 2013 também queremos chegar numa frente forte à Europa. Já temos algumas propostas e estamos estudando a viabilização, afinal somos uma big band e viajamos com 15 profissionais. Por vezes, esta realidade de formação assusta, mas já temos a convicção de que a música nos levará para longe, independentemente da logística.

Recife recebe muitas críticas pela quantidade de shows gratuitos e falta de lugar para tocar. Vocês percebem essa dificuldade por aqui?
Olha, é uma dificuldade real. Mas nunca caímos nesse mar de lamentações. Achamos que existe mercado para quem está a fim de trabalhar, de produzir suas próprias histórias. Mas o marasmo pode acabar, em breve. Tem muita gente instigada trabalhando para propiciar espaços bacanas. Para o público, é maravilhoso ter shows de graça. Quem não gosta? O resultado dessa demanda é a formação de um público exigente e, quando é para pagar por algo bom, paga! A maior dificuldade mesmo, sem dúvida, é a falta de difusão da música de Pernambuco. As rádios não tocam a produção local, as TVs não dão vazão e a gente fica assim… sem sermos ouvidos pelo povo. E não vem com essa história de o som da Orquestra Contemporânea de Olinda não é popular. É muito popular! Só precisar tocar.

Foto: Tiago Calazans

O primeiro disco saiu pela Som Livre, agora, o disco é colocado para download gratuito. Vocês também divulgaram uma música online. As bandas nacionais estão conseguindo explorar ainda melhor as possibilidades da web, o que acham?
A Internet é a grande sacada. E basta saber usá-la. É o nosso meio direto de comunicação com o nosso público. Já que não tem rádio, TV… a gente usa e abusa da web! Temos uma equipe de comunicação ativa desde 2009 cuidando das nossas redes. Damos valor a isso e vemos a importância disso. Colocamos o disco para download pelo sistema “Pay with a tweet”, ou seja, a pessoa divulga nosso trabalho e em troca ganha música. Tem coisa mais instigante? Foram mais de 2 mil downloads nas primeiras 24 horas. Estamos bem felizes com isso. Há muito tempo que disco não rende dinheiro a artista. É um romantismo gostoso ter um CD em mãos, um vinil. É arte. E a gente vive de arte. Agora vêm os shows. E o show é a parte mais trabalhosa do processo todo. Estamos montando este espetáculo há um ano. Não há nada mais gratificante do que compartilhar sua música e ainda ganhar por isso. Que venham os shows, muitos shows!

Qual a lembrança mais remota de vocês pensarem em formar a banda?
Foi uma idéia do percussionista Gilú Amaral. Ele já havia trabalhado com todos os componentes da OCO e convidou um a um. Todos foram topando, culminando com a junção do naipe de metais do Grêmio Henrique Dias, a primeira escola profissionalizante de música de Olinda, de 1954. E aí deu no que deu.

O que Olinda tem de melhor e o que ela inspira vocês?
O que ela tem de melhor: gente. O que ela inspira em nós: música.

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