EXPLORAÇÃO DAS PALAVRAS CANTADAS
Uma folk-indie que utiliza um jogo de palavras inteligente para provocar uma experiência auditiva completa

Por Pedro Salgado
Colaboração para a revista O Grito!, em Lisboa

Aproveitando o título de uma música de Will Oldham, Francisco Silva batizou o seu projecto de Old Jerusalem. Durante oito anos de edições discográficas, revelou-se um talento que faz da atenção às palavras cantadas o segredo da sua folk-indie, inspirada em modelos de gente como Van Morrison, Bill Callahan ou Mark Kozelek.

O álbum Twice the Humbling Sun, de 2005, valeu-lhe o reconhecimento da crítica musical portuguesa e três anos mais tarde escreveu a letra e interpretou o tema “The Raven King”, com base no trabalho musical de Bernardo Sassetti, para a trilha sonora do filme “Second Life”, de Alexandre Cebrian Valente.

Constituindo uma pausa nos apetites expansionistas anteriores, o disco homônimo agora editado, o quinto da sua carreira, põe a tônica na simplicidade. Em conversa com a Revista O Grito! Old Jerusalem falou do novo trabalho.
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A sua música resulta da equação: folk + indie = consistência. Sente que em “Old Jerusalem” foi um pouco mais além do porto de abrigo?
Julgo que não. No geral as coordenadas são as mesmas. Talvez com um enfoque diferente numa das duas vertentes da equação. Costumo dizer que os vetores estão entre o pop/rock e a folk, mas uma pop que é indie. Neste disco, sinto que priviligiei uma folk de câmara, mais contida e não tão purista. O álbum tem um ambiente intimista, algo mais do que os anteriores, mas no geral não me sinto fora do porto de abrigo e, no fundo, é apenas outra divisão da mesma casa.

O disco está um pouco impregnado de melancolia. É mais fácil escrever canções em tempo de crise?
Seja em tempo de crise ou de crescimento econômico, acho que é mais fácil abordar temas melancólicos do que alegres (risos). Em particular, nesta forma de expressão folk- indie é mais intuitivo introduzir uma dose de tensão num tema feliz, do que fazer um tema mais jubiloso. Se calhar, existem aspectos da vida das pessoas que são mais propícios a serem tratados desta forma. A empatia faz-se mais facilmente pela via das canções do que propriamente quando há uma alegria pura.

“Our Inland” aponta caminhos pop e ganha um certo embalo, mas a letra é nostálgica. Porquê este contraste ?
Está relacionado com o que disse há pouco. Mesmo num ambiente mais upbeat e alegre, musicalmente, há sempre a tendência de colocar uma certa dose de nostalgia. Há qualquer coisa neste tipo de escrita de canções que nos leva a introduzir essa componente. No caso do “Our Inland” há uma particularidade. A canção é das mais antigas do Old Jerusalem (tem quase 20 anos), e só foi editada agora. Tem uma gênese peculiar e resultou de um jogo de palavras, para utilizar numa música, e algumas das frases estavam ligadas à nostalgia.
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Escute as músicas de Old Jerusalem

Escolheu a luminosidade de “The Go-Between” para single de apresentação. Sente que é um bom cartão-de-visita do álbum?
Eu sinto que é bom cartão-de-visita, embora admita que não é representativo do ambiente do disco. Nunca pensei num tema de apresentação de um álbum como sendo uma forma de dar o conhecer o trabalho. Tento sempre que essas músicas sirvam para convidar a ouvir o resto do disco. Que seja apelativo para as pessoas tomarem algum tempo para conhecer o resto do álbum. Gosto da palavra luminosidade porque “The Go-Between” é um dos temas do meu novo trabalho que mostra uma certa abertura e é atraente.

Sendo o disco composto e interpretado na totalidade por si, qual foi o desafio que procurou concretizar nesses parâmetros?
A meio do processo de gravação eu e o Paulo Miranda (produtor), decidimos que não precisávamos de mais colaborações para o ambiente pretendido. Fizémos uma espécie de mini-conceito quanto a isso. Mesmo nos casos em que poderíamos usufruir da participação de outros músicos concordámos na ideia de criar um conceito a partir do caminho inicial. Por um lado, tentámos encontrar uma forma para cada tema funcionar partindo só daquilo que eu poderia aportar e só isso já foi um desafio significativo. Por outro lado, fazer do disco uma experiência auditiva completa nem sempre foi fácil, mas sentimos que as canções despidas funcionaram num registo pop e como um todo.

Como compara o novo trabalho com os álbuns anteriores?
Sinto que este álbum não é muito diferente dos anteriores. Nem acho que hajam saltos estilísticos muito significativos nos discos do Old Jerusalem. E a verdade é que isso me agrada bastante. Pessoalmente, gosto da consistência e de ambientes coerentes, em que cada desenvolvimento se faz com sentido. Este trabalho, em termos de produção, é mais despido do que os anteriores, tem um ambiente folk de câmara e os outros discos apontavam mais para a pop-indie. Nesse sentido é diferente. Mas, ao nível de composição e de orientação lírica e estética, não me parece que seja até muito distinto das primeiras demos deste projecto.

Pedro Salgado é jornalista português. Escreve sobre a cena pop de Portugal para a Revista O Grito! É autor do blog A Hards Day’s Night

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