SERES SENSÍVEIS, OS VEGETAIS
Banda Me & The Plant formado por um músico e uma planta lança disco com influência de folk, psicodelia e Mutantes

Por Juliana Simon

Em 1973, os cientistas Peter Tompkins e Christopher Bird lançavam o best-seller A Vida Secreta das Plantas, que explicava os vegetais como seres sensíveis. Em algum outro ano, ouvia-se que conversar com samambaias fazia com que elas crescessem mais fortes e frondosas. Hoje, uma planta faz música e lança disco.

Me & The Plant é o músico Vitor Patalano e “plant” é mesmo uma planta, com vaso, clorofila e muito a dizer. Sob esse mote psicodélico, revela-se um trabalho de peso. The Romantics Journeys of Pollen não é um disco para botar no player e esquecer. Cada faixa é carregada de uma sonoridade diferente – mesmo que quase todas remetam ao folk. As cordas ganham destaque com levadas fortes. Influenciado por Mutantes, Renato Russo e Cássia Eller, rock britânico, folk e psicodelia, Vitor acredita no poder de um violão de aço. “Acho o nylon melhor para fazer ‘cooper’ do que para fazer som. Corda tem que sangrar”, diz.

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O álbum foi idealizado em uma viagem a Ushuaia, na Patagônia argentina. Com amigos – o músico Juan Pablo Gariglio e o diretor e ilustrador Chini – Vitor se isolou, compôs e gravou 20 demos. “Penso que foi fundamental deixar a minha terra para encontrar as minhas raízes”, afirma.

Com a co-produção de Kassin e a participação de Gabriel Bubu, da banda Do Amor, Rodrigo Barba, do Los Hermanos, e Marcos Lobato, do Rappa, a gravação das 13 músicas foi feita em quatro dias e cada uma foi lapidada dia-a-dia pelo “Me”. Sobre a escolha da “dupla” e do nome, Vitor filosofa: “Tem um pouco de xamanismo nisso aí. Um apreço pela psicodelia. Um longo isolamento compartilhado. Música é comunhão. As plantas estão na origem de todas as cerimônias religiosas, e música é a minha religião.”

Sobre as letras serem em inglês, o músico é direto. “Em primeiro lugar é uma questão de semântica. O inglês é a língua mais musical do planeta. Em inglês muitas palavras soam aquilo que significam. Em segundo lugar, é uma opção estética; o fato de ser rock -ou algo do gênero – urge o inglês, pra mim. Em terceiro lugar, o inglês é uma opção pessoal: meu bisavô, maestro, era inglês, e eu já morei nos EUA e na Inglaterra, o que gera em mim uma afinidade imediata com a língua inglesa. Há um viés ecológico, que deve ser comunicado da forma mais universal possível. Mas, digressões à parte, o português é uma língua linda”.

E a planta? “Ela é uma excelente ouvinte”, diz Vitor. Mais do que isso, a planta mostra mais desenvoltura e humor do que muitos no mundo da música. Inclusive, em entrevistas: “Muita gente acha que eu só forneço as drogas para a banda, e eu acho isso tão clichê. Eu toco. Eu faço música. Claro que você não vai me ver fazendo ‘mosh’ na plateia, mas não sou decorativa, não”.

“Tranquila, na minha. De alma verde e corpo maduro”, como ela mesma se define, é fã do zumbido de abelhas, “Plant” tem participação ativa na dupla. “No álbum, a faixa ‘Cutoff’ é composição minha. Sobre um amor que me foi arrancado”, afirma.

Saibam os mais céticos que a viagem tem mesmo base científica. Nos anos 1960, Cleve Backster – um especialista em detectores de mentiras na CIA – fez experimentos de biocomunicação. Não entendeu o que tem isso com a música? A planta te explica. “Todo ser vivo emite frequências, inclusive as plantas, e essas frequências podem ser medidas por sensores específicos para controlar parâmetros musicais em instrumentos, usando protocolos musicais como midi e “open sound control”. Parece grego, eu sei, mas o que eu quero dizer é que a ‘língua’ das plantas pode ser traduzida musicalmente”.

Em 2011, a dupla abriu os shows de Marcelo Camelo no Circo Voador e o do Metronomy, no Popload Festival. Mas será em 2012 a grande chance de ver homem e planta juntos no palco e nas telinhas, com a promessa de dois clipes – das ótimas faixas “Death Cheating Tuna Cowboys” e “Cordillera Girl” – ainda em janeiro. A agenda de shows ainda não está fechada, mas a presença da plantinha já está garantida. “Sim, claro. Adoro aquelas luzes todas”. Umas buscam sol, essa quer mais os holofotes.

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* Juliana Simon é jornalista e escreve sobre música na Revista O Grito! Leia mais textos dela.

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