INSTITUIÇÃO INDIE FAMILIAR
Por Paulo Floro

Foi com o vinil azul de Sex, Rockets and Filth Songs, do Mechanics, que a Monstro Discos iniciava sua jornada no rock independente brasileiro. Caminho que seguiu reto e com êxitos notórios na música e nas artes daqueles que vivem a fazer algo à margem da indústria. Em 2008, ao completar 10 anos, a gravadora conta com nomes importantes do cenário indie nacional: Lucy and The Popsonics, Vamoz!, Pata de Elefante, Violins, só para citar alguns.

Criada em Goiania, a Monstro é responsável por grande parte das descobertas musicais que movimentam a cena.BR. Seu projeto é investir nessas bandas, com turnê, produção, promoção. Tudo para tornar viável um mercado independente sustentável e de qualidade. Este método de trabalho quase paternal fez com que muitos artistas e bandas de seu cast conseguissem destaques importantes na imprensa e junto ao público.

Além de selo, a Monstro produz festas e eventos. Seus dois festivais estão entre os mais importantes do país, o Bananada – que este ano também completa 10 anos e o Goiana Noise. Sem falar que são os principais agitadores culturais da cena rocker de Goiania. O Grito! bateu um papo com quem começou toda a história, Márcio Jr., o mesmo que há 10 anos lançou o vinil azul de sua banda, o Mechanics.

O GRITO – O lucro e a propriedade são temas muito discutidos na cena independente atualmente. 10 anos depois, como a Monstro se posiciona atualmente?
MÁRCIO JR. – Do mesmo modo de sempre: respeitando a obra e a individualidade de cada artista. Nossa premissa original permanece a mesma: queremos ajudar a construir uma cena que seja alternativa ao mainstream. Mas queremos que essa cena seja profissional e auto-sustentável. Queremos ocupar espaço e abrir mercados, de forma honesta, conseqüente e responsável. Nós existimos em contraposição a um modelo de indústria fonográfica que demostra claros sinais de falência. E repetirmos no meio independente as práticas dessa indústria seria um tiro no pé.

Os discos lançados já começaram a ter lucro? Como funciona a cadeia de produção de vocês?
Sim, os discos dão lucro. Agora, é preciso enxergar tudo em perspectiva. Os discos dão lucro, pra nós e para as bandas. Mas temos que ter em mente que lidamos com baixas tiragens. Ou seja, é impossível ficar rico ou ganhar muito dinheiro com isso. E nem é esta a intenção primordial. O que pretendemos é dar voz a artistas que acreditamos como relevantes e fazer com que eles continuem produzindo, tocando e criando sem obeder à lógica do mercado vigente. O processo funciona mais ou menos assim: nos interessamos por uma banda, fazemos contato (ou ela mesmo nos procura) e começamos a trabalhar com ela. Os moldes deste trabalho varia de banda pra banda, mas o mais importante de tudo é que trabalhamos em parceria com as bandas. Nós vestimos a camisa da banda e ela veste a camisa da Monstro.

Na lista de bandas do selo, existem nomes importantes para o rock nacional. Como funciona o processo de prospecção de descoberta de bandas?
Estamos sempre atentos ao que está rolando no cenário musical brasileiro. Aí, quando encontramos uma banda que se encaixa no perfil da Monstro, tentamos trazê-la para o nosso cast. A idéia é sempre procurarmos bandas ousadas, criativas, cujo trabalho não obedeça às cartilhas das majors. A Monstro, assim como outros selos, quer resgatar a noção de autoralidade na música. Queremos que o artista seja dono do próprio nariz e não fique correndo atrás do sucesso fácil. Até porquê isso é uma ingenuidade assombrosa e não vai acontecer pra mais ninguém.

Queremos ajudar a construir uma cena que seja alternativa ao mainstream. Mas queremos que essa cena seja profissional e auto-sustentável

Nos falem sobre o cotidiano da Monstro, o trabalho, as atividades.
O cotidiano da Monstro? Não sei. Nunca vou ao escritório! (risos) A verdade é que trabalhamos nisso 24 horas por dia. As demandas são incessantes e estamos sempre envolvidos com algo: uma banda, um disco, um festival, uma prensagem, uma palestra, uma relação comercial, uma disputa política… Tudo isso faz parte do nosso cotidiano. E te garanto: a correria é gigantesca. Nossas mulheres e filhos que o digam.

A idéia de criar um festival surgiu de que? Da necessidade de fomentar a cena indie? Das bandas? Como foram as primeiras edições e como está hoje?
A idéia do Goiânia Noise é anterior ao nascimento da Monstro. Eu e o Leo Bigode, influenciados pelos novos ares do rock brasileiro do início dos anos 90, cismamos que tínhamos que colocar Goiânia pra dialogar com o resto do país. Hoje, 14 anos depois, as coisas cresceram consideravelmente. Ou seja, não estávamos errados em nossa maluquice e posicionamentos.


Lucy and The Popsonics fez shows na Europa e EUA em sua última turnê

Nos EUA e Europa existem vários os selos independentes. No Brasil, podemos contabilizar poucos casos de sucesso como a Monstro e a Senhor F. Por outro lado, existem vários festivais indies. O que podemos analisar do mercado e do público a partir disso?
Acho que existem vários selos e festivais de respeito no país. O modo que encontramos para trabalhar é usar uma abordagem que atinge todas as frentes. Somos selo e produtora. Ou seja, lançamos o disco, produzimos o show e por aí vai. Esta foi a maneira possível para realizarmos nosso trabalho sem ter que fazer qualquer tipo de concessão. Se atuamos em toda a cadeia produtiva, temos maior autonomia naquilo que fazemos. Uma das coisas que acho mais complexas é o surgimento de aventureiros ou deslumbrados neste ramo. O que quero dizer é que a cena que pretendemos construir tem que ser sólida. E isso só se faz com calma, cuidado e profissionalismo. Vez por outra entre um novo selo no mercado, prometendo um monte de coisas pras bandas. Coisas que são inviáveis. Daí, depois de algum tempo, o selo tem que fechar suas portas. O prejuízo disso pra quem realmente trabalha no mercado é muito sério, pois gera uma espécie de inflação que não corresponde à realidade que tanto lutamos pra transformar. Quantos selos existem há dez anos no Brasil?

Qual a relação do selo com as bandas?
Aquela que eu já disse: a de uma parceria sólida e transparente. Não existe aquela idéia da gravadora que é a patroa do negócio e o artista pop star sendo explorado. Nada disso. Somos, digamos, farinha do mesmo saco. Os objetivos da Monstro são os mesmo das bandas: criar um mercado que seja capaz de nos absorver, que possibilite a uma banda desenvolver sua obra a longo prazo. Isso só é possível dentro dessa idéia de parceria que desenvolvemos.

Vez por outra entre um novo selo prometendo um monte de coisas inviáveis para as bandas. Depois de algum tempo, tem que fechar as portas. O prejuízo disso pra quem realmente trabalha no mercado é muito sério

Como é a relação com a mídia independente? Ainda existe um desejo de se criar uma rede de informação das diversas cenas independentes do país?
A mídia independente é um dos pilares de nossa cadeia produtiva. Dar vazão àquilo que produzimos é algo central pra gente. Uma vez que somos excluídos do universo radiofônico nacional em função do jabá, nos resta encontrar outras formas de divulgar nosso trabalho.

Quais metas têm para um futuro não muito distante?
Continuar, com passos firmes e calculados, a construir esse tal mercado independente que tanto sonhamos. Ainda está longe, mas infinitamente mais perto do que há dez anos atrás, quando botamos a Monstro no mundo.

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