VALE TUDO DE BARALDI
Por Matheus Moura

Marcio Baraldi é um dos mais conhecidos cartunista/tirista/quadrinhista do Brasil. É indiscutível! Esse homem não para, chega a ser estranho o tanto que ele produz. Não é à-toa que ganhou mais um Prêmio Ângelo Agostini, como melhor cartunista de 2008. A editora Opera Graphica, antes de encerrar as atividades lançou no mercado a coletânea Vale Tudo, em parceria com a editora Grrr!.

Em meio às correrias do dia-a-dia conseguimos fazê-lo se sentar em frente ao computador para responder as perguntas abaixo. Numa conversa franca e ampla, Baraldi abordou diversos assuntos, desde política, produção e mercado, à vida pessoal. Não deixem de conferir!

Quem é Márcio Baraldi?
O cartunista mais gato do Brasil! (risos) Um caboclo bacana demais, bróder de todo mundo, generoso, cheio de boa-vontade e de fé na Humanidade; otimista, trabalha que nem um doido, não sabe parar quieto um minuto, fica inventando sarna pra se coçar o tempo inteiro, adora a mulherada, xavecador de nascença, pintudão (sic), gostosão, nasceu pobrinho e proletário no ABC, hoje ‘tá’ sossegado, não suporta vagabundo e pilantra, não suporta gente falsa e traiçoeira, odeia mesquinharia e pobreza de espírito, ariano com ascendente touro, fala tudo na cara de quem quer que seja, não deve nada pra ninguém, nunca foi apadrinhado por ninguém – nem aceita ser -, nunca pediu patrocínio pra ninguém nem quer pedir, paga tudo do próprio bolso, nunca usou drogas nem vai usar, odeia cigarro, só bebe cerveja socialmente e raramente, adora quadrinhos de Super-heróis dos anos 60 e 70, adora desenho animado do mesmo período, adora os anos 80, adora rock de todas as épocas, adora abraçar e beijar todo mundo, adora falar besteira, adora Ziraldo, Maurício de Souza e Monteiro Lobato, odeia novela, adora filmes épicos-trash tipo “Hércules contra o Dragão de três cabeças”, começou a trabalhar aos 11 anos de idade e nunca mais parou, não sabe o que é ferias, não gosta de viajar, odeia avião, se dá bem com a criançada, adora cachorro, gostaria que o planeta inteiro fosse vegetariano, adora cantar no chuveiro e em qualquer lugar, já tocou em bandas de rock, já fez teatro, já grafitou, se formou em desenho mecânico e em Artes Plásticas, adora Jesus Cristo, Che Guevara, John Lennon e Raul Seixas, só vota no PT e no PC do B, nunca anulou voto, escreve, desenha e pinta sozinho todas as suas charges e quadrinhos, nunca teve ajudante –  provavelmente nunca terá -, adora conhecer gente, adora seu próprio trabalho e profissão,adora a si próprio, sempre foi seu melhor amigo, gosta de Marx e Kardec, e espiritualizado, nunca foi ateu nem nunca será, e como deu pra perceber, adora falar de si próprio e vender seu próprio trabalho!


Alaôr Kaholic, Érica, A Esotérica, Euriko e Ritalinda (Ilustração: Márcio Baraldi)

É, deu pra perceber mesmo. E esse seu lado “comercial” de estar sempre presente e fazer a diferença é outra característica que te marca, certo? Como desenvolveu essa veia?
Eu nasci numa família muito proletária la em Santo André, no ABC paulista. Sou filho de um casal de operários, meus pais se conheceram na fábrica Rhodia, onde trabalhavam. A gente não passava fome, mas tínhamos o mínimo pra viver. Com dez anos de idade eu já fazia pipas pra vender na feira, com 11 era flanelinha (depois descobri que foi o primeiro emprego do Ozzy Osbourne também) e trabalhava num boliche levantando os pinos que o povo derrubava. Hoje esse serviço e feito automaticamente pelas esteiras eletrônicas, mas na época eles usavam garotos pra fazer isso. Com 12 trabalhei numa lavanderia como entregador de roupas (depois descobri que foi o primeiro emprego do Lula também) e ainda entregava folhetos de uma escola de inglês nas casas. Enfim, era uma infância proletária, comecei a trabalhar bem cedo e nunca mais parei. Ao mesmo tempo estudava bastante e ia muito bem nas aulas, era um garoto extrovertido, palhaço e popular na escola. Detonava em português, educação artística e teatro. Era o rei das redações, dos desenhos e das micagens na classe! O dim-dim que eu ganhava, dava uma parte pra minha mãe e o resto eu comprava minhas coisas, inclusive meus gibis, lógico. Já era, de certa forma, independente nessa época, pois não precisava que meu pai me desse mesada ou gastasse grana comigo.

O clima na minha família era muito ruim, ninguém se dava bem nem falava com ninguém. Álcool, brigas e cada um para o seu lado: essa era a rotina lá. Morávamos numa casa caindo aos pedaços. Tinha vergonha de levar os amigos ou namoradinhas lá. Os filhos dormiam todos espremidos num mesmo quarto. Meu sonho era crescer o mais rápido possível, pra sair dali e ter minha própria casa e independência! Prometi pra mim mesmo que ia trabalhar muito e sair daquela situação. Prometi também que nunca ia casar, nem ter filhos, nem ter outra família nunca mais. Cumpro essa promessa a risca até hoje! Passava o dia trabalhando e correndo atrás de mais oportunidades profissionais pra mim. Visitava agências de publicidade, deixava currículos tosquinhos com desenhos mais toscos ainda em todo lugar. Com uns 16 anos comecei como cartunista no Sindicato dos Químicos do ABC, passava o dia inteiro lá, à noite ia para o colégio técnico em Desenho Mecânico (estadual).

Construí uma carreira sólida no Sindicato dos Químicos, onde trabalho até hoje, e em zilhões de outros empregos que eu fui acumulando com o tempo. Paguei minha faculdade de Artes Plásticas e, com vinte e tantos anos, logo depois que minha mãe faleceu, derrubei aquela casa velha e ergui duas novas no lugar. Deixei tudo pra minha família e fui embora para São Paulo (capital), onde estabeleci minha Bat-Fortaleza (mistura de Bat-Caverna com Fortaleza da Solidão), onde fico bolando novos planos mirabolantes pra manter minha mente inquieta, minha pica ereta e o coração trancado.

Talvez por isso seu trabalho se tornou tão versátil. Desde revistas de heavy metal, passando por hip hop e até mesmo ufologia
Eu já nasci um bocado cara-de pau, mas a necessidade me fez perder as frescuras de vez, sacou? Encarar todo tipo de trabalho, pra todo tipo de público me tornou um profissional versátil, o que é muito importante, pois no Brasil um ilustrador tem que ser “pau pra toda obra” mesmo. Aqui e impossível o cara ser como o Jim Davis por exemplo, que consegue viver única e exclusivamente do seu personagem Garfield. Aqui o profissional tem que fazer tiras, quadrinhos, cartuns, charges políticas, ilustrações para produtos diversos, etc. É uma outra realidade, nosso mercado de quadrinhos e afins ainda e muito pequeno e frágil, ainda e uma quintandinha na esquina onde todo mundo se conhece, não um supermercado poderoso que gera emprego e renda para todo mundo. Eu como não podia me dar ao luxo de fazer quadrinhos por hobby e tinha necessidade de ganhar dim-dim urgente, tratei de ser um cara comercial o mais cedo possível.

A única coisa que nunca fiz, gracas a Deus, foi trabalhar para a Direitona. A única coisa que sempre falou tão alto quanto meu profissionalismo é minha ideologia. Tenho orgulho de ter vencido nessa profissão sem ter precisado trabalhar em jornais conservadores e reacionários. Nunca precisei elogiar políticos de direita ou xingar o Lula para agradar jornaleco nenhum! Hoje em dia a moçada é muuuuuuuito despolitizada, mas eu sou de uma geração em que ter ideologia era o mesmo que ter caráter. Enfim, o meu trabalho exige versatilidade e com certeza é bem mais do que fazer piadas engraçadinhas pra alegrar as pessoas.


Rap dez, Guerrilheiro da Guitarra, Maluco e Beleza (Ilustração: Márcio Baraldi)

Cite para nós quais trabalhos você desenvolve hoje; os que mais gosta de fazer e porquê
Eu faco o Roko-Loko na “Rock Brigade“, o Guerrilheiro da Guitarra na “Comando Rock“, os passarinhos Vapt e Vupt na “Espiritismo e Ciência“, o Ginho, o ET de Varginha, na “UFO“, o Tattoo Zinho na “Metalhead Tattoo“, Pérsio Piercing e Tati Tattoo na “Tatuagem Arte e Comportamento“, o Rap Dez na “Viração“,o Euriko e Ritalinda na “Folha Bancária“, Zé Ácido e Maria Vitamina no “Sindiquim“, Doutor Cicolo, na revista “DR!“,etc. Além disso, ainda faço as revistas Roadie Crew, Dynamite, Abusada, MAD, Jornal ABCD Maior, e jornais de muitos sindicatos pelo Brasil afora.
Gosto igualmente de todos os meus trabalhos, porque gracas a Deus, tenho o maior tesão e paixão pela minha profissão! Tudo o que faço nela me dá prazer e satisfação!

Com tantos personagens, já chegou a matar alguém como fez Angeli com a Rê Bordosa?
Não matei nenhum personagem porque não sou discípulo de Robert Crumb, que foi o primeiro cartunista a matar um personagem (o gato Fritz) e faturar em cima disso. Depois essa moda pegou nas Marvels e DCs da vida, virou um tal de mata e ressuscita heróis todo mês. Isso já virou um recurso manjado pra faturar uns trocados. Pra mim não tem sentido matar um personagem que esteja me dando algum lucro, pelo contrário, fortaleço cada vez mais eles pra me darem cada vez mais retorno e prosperidade. Já parei com vários personagens e séries pelos mais variados motivos: a revista onde ele saia fechou ou eu dei uma cansada dele mesmo ou não consegui mais tempo pra desenhá-lo, afinal eu sou um só e não tenho ajudante. Mas não mato jamais, deixo na gaveta que na hora certa ele pode voltar de boa. De qualquer forma, mesmo que porventura não volte mais, sempre dei o melhor de mim a todo instante, então o período que ele saiu foi muito legal e intenso. Por si só já valeu e muito! Praticamente todos as séries que eu fiz me deram retorno de público, o que quer dizer que elas cumpriram sua missão.


Vapt e Vupt, Ultravesti, Sabujo Vingador (Ilustração: Márcio Baraldi)

Como acha que os jovens hoje dia enxergam a política?

O mainstream hoje é absolutamente vazio, o discurso é o do “amor”, da diversão, de dançar a noite toda e dane-se o mundo, da dor de cotovelo, da paixão não correspondida, só isso, nada além disso. Isso emburrece e despolitiza as novas gerações. A moçada de hoje em dia é um troço engraçado, meio híbrido. São muito liberais, não têm bloqueios morais nem culpas nenhuma, transam super cedo, você vê dois meninos ou duas meninas namorando nas ruas de boa. Esse é o lado bonito dessa geração. O lado ruim e que que chegam aos 18 anos sem saber ler ou escrever direito. Saem das faculdades semi-analfabetos. Escrevendo num “internetês” horroroso. E o resultado dos 12 anos dos governos Collor e do PSDB acumulados ,que foi quando o Brasil entrou nessa rota da demolição da educação e de tudo mais. Quando entrou na Era do Neoliberalismo, da Privatização e do Sucateamento do Estado.

Aqui em São Paulo, o PSDB implantou a “aprovação automática”, que passa o aluno de ano tendo aprendido ou não. Sucatearam a Educação ao máximo, aqui tá cheio de escolas em que quem manda são os traficantes não os diretores. Aqui traficante ou alunos junkies matam diretores e professores. É um ponto que a gente nunca imaginou que fosse chegar, mas chegou. O Rio De Janeiro também virou o caos. A molecada só pensa em fumar maconha e namorar. Eu odeio maconha, cigarro, álcool e drogas em geral, mas entendo que a única solução pra desmontar essa indústria do tráfico e da violência é legalizar essa merda toda. Se o cigarro e o álcool podem, porque o resto não?

Até o perfil dos criminosos mudou. Quando eu era garoto a maioria dos bandidos eram caras maduros, vagabundos de carteirinha, malacos experientes. Hoje não, fiz um trabalho no Cadeião de Santo André e pensei que estava na FEBEM, 90% dos presos hoje tem entre dezoito e vinte e tantos anos. O cara começa como aviãozinho aos dez anos e vira chefão do tráfico com 20 anos de idade! Absurdo, não? Hoje em dia e assim. Os canalhas neoliberais destruíram a inocência e o futuro dessa molecada! A mídia também não ajuda, só deseduca e distorce ainda mais os valores dessa moçada. As novelas e programas só tem maldade, violência e sacanagem. Falando assim eu até pareço um velho de 600 anos, mas o pior é que a realidade é essa mesmo. As coisas desbarrancaram muito rápido. O Brasil só teve três presidentes que prestaram: o Getúlio, o Juscelino e agora o Lula, o João Goulart não teve oportunidade de governar, foi enxotado pelos milicos a mando dos EUA, esse mesmo que está desmoronando finalmente, pra pagar seus pecados impagáveis. Então, o Lula está fazendo um ótimo governo, mas para o Brasil recuperar todo o prejuízo que lhe deram nesses 500 anos de roubada, ainda vai demorar um tempo. Queira Deus que as pessoas nunca mais coloquem o PSDB ou coisa que o valha no governo brasileiro. As gerações futuras agradecem!


Mix Mouse, Turma dos Químicos, Roko-Loko e Adrina-Lina e Tattoo Zinho (Ilustração: Márcio Baraldi)

E que trabalho foi esse na cadeia? Quando foi?
Foi há alguns anos atrás. Eu fui lá na cadeia com dois jornalistas de uma ONG de prevenção a AIDS nas cadeias. Entramos nas celas, conversamos bastante com os presos para saber qual a rotina deles e o nível de informação sobre a AIDS. Com essas infos eu fiz uma cartilha em quadrinhos voltada para os presos, com a linguagem, as gírias deles, e as situações típicas da cadeia: visita íntima, visita de prostitutas, sexo com os travestis ou entre homens (os presídios geralmente tem uma ala só para travestis e homossexuais), compartilhamento de prestobarbas e giletes, etc. O mais legal é que um dos presos, um rapazinho novo, desenhava muito bem e nós dividimos os desenhos da cartilha. Ele fez uma parte e eu outra. A grana que eu ganhei com esse trabalho, dividi com ele também.

Depositei metade na conta da família dele, pois lá dentro não entra grana. Lá dim-dim é cigarro, que eu levei um monte de pacotes pra eles de presente. Lá dentro, por ironia, ainda encontrei o filho de um broder meu. Moleque novo, classe-média, sempre teve tudo na vida. Viciado em crack, virou assaltante, trocou tiro com a policia, foi baleado, sobreviveu e foi em cana. A famosa “Juventude perdida”!…

Sabe o que aconteceu com esse desenhista?
Não. Nunca mais vi o rapaz, mas acho que a essa altura ele já cumpriu a pena dele. Faz muito tempo que eu não vou pra Santo André. Na cadeia eu só fiz essa cartilha, mas fiz zilhões de outras em que precisei visitar hospitais, favelas, mutirões habitacionais, cortiços, fabricas, etc, para conhecer os lugares e fazer os desenhos e cenários. Rotina de cartunista e essa mesmo. Como diria o Miltão: “Todo artista tem que ir aonde o povo esta!”.

Recentemente você teve dois livros publicados pela extinta Opera Graphica, Vale-Tudo, uma coletânea de seus antigos trabalhos e Roko-Loko e Adrina-Lina – Born To Be WildFala um pouco desses trabalhos
Eu lancei SEIS livros pela Ópera Graphica! Três do Roko-Loko, um do Tattoo Zinho, Humortífero e agora o Vale-Tudo. Todos são coletâneas de séries minhas ou de algum período da minha carreira. O Roko-Loko completou agora em janeiro, 13 anos de publicação na revista Rock Brigade, virou também camiseta, vídeo-game, DVD e dois bonecos bacanas. Agora em 2009 vou lançar o quarto livro dele ,”HEY HO, LETS GO!“.O Sidney Gusman está fazendo um dos prefácios. Vou lançá-lo no fim do ano junto com a segunda edição do Prêmio Bigorna.

Já o Vale-Tudo é pra fazer as pazes com minha adolescência revoltada. Acho que tem muita gente que conhece meus personagens atuais e que nem imagina as HQs que eu fiz no começo da carreira, bem turbulentas, querendo socar o mundo inteiro. Eu era muito inconformado com o mundo e com a vida. Essa HQs definiram a ideologia e a forma do trabalho que eu faço hoje. E são muito legais, críticas, fortes e atemporais. Toda a personalidade do Baraldão já está lá!

Há também a novidade do seu selo chamado Grrr..! (Gibi Raivoso, Radical e Revolucionário) Porque um selo? Ele irá publicar só Márcio Baraldi?
Eu só criei o selo “GRRR!…” porque a Ópera fechou. O meu livro, um Fantasma e um Príncipe Valente foram os últimos lançamentos deles. A saideira. Depois de dez anos de incalculáveis serviços para o Quadrinho Nacional e mundial, o Franco [da Rosa] e o Carlos [Mann] decidiram encerrar o expediente. Agora eles vão se dedicar apenas as revistas comerciais para terceiros. Eu vou continuar produzindo meus livros pela empresa do Carlos, a Mercado Editorial, mas agora os livros levarão meu próprio selo. O “GRRR!…” vai servir só para isso, não vai ser uma editora comercial nem vou publicar mais ninguém. E apenas o próprio selo do Baraldao para lançar seus próprios livros.

O que podemos esperar para 2009, além do próximo Roko Loko?
Espero, no meu humilde otimismo, que o Obama suspenda o vergonhoso embargo a Cuba e faça Israel tirar as patas sujas e covardes da Palestina. Espero que o Bush contraia mal de Azheimer como o Reagan e passe o resto da vida babando e cagando nas calças. Espero que as pessoas parem de dar dinheiro para essas igrejas picaretas e gastem esse dim-dim investindo mais na própria educação. Espero que os idiotas que gastaram bilhões construindo bombas e mísseis, morram todos, e seus substitutos passem a investir essa grana na cura da Aids, do câncer e da hepatite C. Espero que a ONU deixe de ser uma cambada de bonecos inúteis e finalmente ajudem a África a sair dessa miséria e fome seculares. E sobretudo, espero que a população brasileira não seja mal-agradecida com o Lula e o ótimo governo que o PT está fazendo e jamais eleja o PSDB ou tranqueira similar novamente como fizeram na cidade de São Paulo.

Você mencionou o Troféu Bigorna, idealizado por você e pelo Eloyr Pacheco (editor do site Bigorna.net). Porque criar mais essa premiação no Brasil? Houve críticas dizendo que o troféu funciona como um prêmio de consolação aos ganhadores.
Eu também ouvi/li alguns idiotas sem competência para bosta nenhuma falarem que o prêmio foi concedido para autores “coitados”, mas veja bem, isso é uma democracia e cada um pensa e fala o que quiser e o que tiver inteligência para dizer. Esses inúteis que tanto xingam e reclamam não chegaram a lugar nenhum! Nem nunca chegarão. Com base num tesão pela HQ nacional, convenci meu chefe Eloyr a lançarmos o Prêmio Bigorna. Desenhei a figura do prêmio (o Homem-Bigorna), procurei uma metalúrgica, fizemos a forma, fundimos o prêmio em bronze e paguei tudo do meu bolso. Não temos patrocínio nenhum. Para mim é uma honra premiar gênios como Colonnese, Cláudio Seto e Rodolfo Zalla, e artistas sensíveis e corajosos como Latuf, Henrique Magalhães e Luiz Augusto, entre outros. São artistas maravilhosos, que têm uma longa folha de serviços prestados ao quadrinho nacional e ainda não tinham sido devidamente premiados. Dois prêmios era pouco. O cenário da HQ nacional cresceu muito nos últimos dez anos! Hoje são dezenas de artistas maravilhosos estabelecidos no mercado internacional, desenhando para editoras americanas. Artistas nacionais já estão ganhando prêmios internacionais importantes como os gêmeos Gabriel e Fábio, por exemplo. Todo dia aparece um rapazinho novo fazendo uma revista independente muito bem feitinha, graças a popularização dos PC’s.

Então o Prêmio Bigorna veio para somar, para encorpar ainda mais esse exército nessa batalha do reconhecimento da HQ Nacional. Só que é um prêmio com personalidade própria. Eu não vou fazer um prêmio para copiar outros prêmios. Temos nossos próprios critérios, nossa própria visão do mercado e nossa própria maneira de fazer as coisas. Não vamos premiar as mesmíssimas pessoas que os outros prêmios estão condecorando senão vai ficar tudo igual e aí um terceiro prêmio não acrescentaria nada. O Bigorna é diferente e todo mundo adorou, já na primeira edição.


A banda Ecos Falsos nas mãos do Márcio Baraldi

Como você vê o mercado de quadrinhos no Brasil?
Aqui em São Paulo a cena está muito boa, com todo mundo produzindo boas obras, a milhão, um lançamento atrás do outro. Livrarias como a Comix e a HQ Mix estão dando espaço direto para a galera fazer lançamentos e muito auê! Têm três programas de TV que cobrem tudo e deram um gás poderoso pra cena. Aumentou bastante o numero de sites e blogs que também cobrem tudo, entrevistam todo mundo e dão um show de profissionalismo, tratando os autores do Oiapoque ao Chui com muito respeito e consideração. Agora são três prêmios importantes para valorizar ainda mais os autores brasileiros.

Todo autor tem um blog onde expõe seu trabalho e troca ideia com outros autores. A internet virou uma grande galeria de arte virtual. A MAD está numa nova fase maravilhosa, totalmente reciclada e muito mais variada, dando espaço para muitos cartunistas criativos. O Quarto Mundo foi uma ideia muito bacana dessa moçada e é um grande exemplo de união e profissionalismo pra todo mundo. Os cartunistas novinhos e os mestres veteranos estão sempre juntos, numa verdadeira confraternização de gerações. É uma nova realidade, a cena tem muito mais infraestrutura do que a dez anos atrás, então todo mundo está animado e fica estimulado a produzir cada vez mais e melhor. É um caminho sem volta!

Esse negócio de dizer que as grandes editoras não investem no quadrinho nacional eu acho que já era, porquê nunca rolou e acho que nem vai rolar. Daqui pra frente a tendência são as publicações impressas irem escasseando e todo mundo migrar pra internet, pro digital. Muitas revistas que eu colaborava viraram sites ou revistas digitais. Mesmo na Europa os álbuns de quadrinhos lá não devem ter tiragens extraordinárias, devem ser tiragens modestas. Nos EUA também, não existe mais esse negócio de um gibi vender 500 mil copias. São todas tiragens modestas e a Marvel e a DC fazem os gibis com uma estética cada vez mais próxima dos filmes, desenhos parecendo fotos, personagens com jeito de atores num filme, linguagem de cinema, nem parece mais um gibi, parece mais uma fotonovela. Os gibis lá hoje são pra “prender” a atenção do leitor entre um filme e outro. Enquanto não sai o novo filme o leitor vai vendo um “filme” no gibi, sacou? Aqueles gibis da Silver e Bronze Age, que eu cresci lendo, com jeito e fórmula de gibis mesmo, não existem mais. Com a revolução nos efeitos especiais e o barateamento da tecnologia, o futuro são os filmes, as animações e a internet.

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