Uma das cenas do documentário Entre a Luz e a Sombra

ARTE LIBERTADORA DO CINEMA
Luciana Burlamaqui conta a aventura de fazer Entre A Luz e a Sombra, sobre dois rappers do Carandiru, que chega agora aos cinemas
Por André Azenha, colaboração para a Revista O Grito!, de São Paulo

Ônibus 174
(2002), O Prisioneiro da Grade de Ferro, Estamira (ambos de 2004), Sobreviventes – Os Filhos da Guerra de Canudos (2007). O que todos esses filmes têm em comum? Além do fato de serem documentários, são produções bastante premiadas e que de certa forma abordam o mesmo tema: a realidade social brasileira.

O primeiro mostra de forma visceral o verídico seqüestro de um ônibus no Rio de Janeiro e ganhou dez prêmios, inclusive em festivais de Havana e Munique; o segundo aborda com profundidade a vida dos detentos no Carandiru e foi destaque em festivais pelo Brasil; o terceiro, que arrebatou 14 prêmios (inclusive no Instituto Britânico de Filmes e nos festivais de Havana, Miami e Marselha), flagra de maneira chocante uma mulher que vive num aterro de lixo; e o último serviu para lembrar a sociedade da cidade que foi palco de uma das maiores barbáries da história brasileira.

Em alguns casos, o cinema documental no Brasil antecedeu ou foi contemporâneo de longas de ficção que abordaram os mesmos temas, como em Ônibus 174 e O Prisioneiro da Grade de Ferro, parentes respectivamente de Última Parada – 174 e Carandiru.

Assim como os filmes citados nesse texto, que denunciam problemas da realidade nacional, chega aos cinemas Entre a Luz e a Sombra (estreou em São Paulo apenas) documentário cuja trama acompanha a vida de três pessoas que se conheceram no Carandiru: a atriz Sophia Bisilliat e a dupla de rap 509-E formada por Dexter e Afro-X.

A diferença é que o longa começou a ser produzido mais de uma década e meia atrás. A relação entre os três protagonistas surgiu em 1999, quando Sophia desenvolvia o projeto Talentos Aprisionados no Carandiru e conheceu o trabalho dos rappers. Impressionada com a força das letras da dupla, arranjou uma gravadora para os dois, que lançaram o CD Provérbios 13. Para promover o álbum, a atriz conseguiu uma autorização judicial inédita para que Dexter e Afro-X pudessem divulgar o trabalho fora da prisão, contanto que retornassem ao presídio todos os dias.

As filmagens começaram no ano seguinte. A idéia inicial, que era filmar durante um mês, transformou-se numa produção que levou 16 anos para ganhar vida. E são momentos desse período que o espectador poderá assistir em quase duas horas e meia de projeção no cinema. Estão lá as saídas do 509-E para shows, tardes de autógrafo, entrevistas, encontros com adolescentes da antiga FEBEM, eventos beneficentes, e o reencontro com suas famílias e a realidade fora do presídio.

O filme, que teve pré-estréia mundial no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã, principal do gênero no planeta, é o debute na direção cinematográfica da jornalista, produtora televisiva e sócia da Zora Mídia (empresa especializada na produção de documentários e longas-metragens focados em temáticas humanistas), Luciana Burlamaqui, 39, que praticamente realizou a obra sozinha. Com uma câmera digital na mão, acompanhou durante sete anos a vida dos três personagens. Além de diretora, foi cinegrafista, roteirista e produtora.

Apesar da gravação “in loco”, Luciana considera que os protagonistas mantiveram-se à vontade diante da câmera. “Procuro não apenas gravar com eles, mas estar junto em todos os momentos possíveis, sem emitir opinião, mas participando do que fazem em situações das mais triviais, como a intimidade familiar, por exemplo; na mesa na hora do almoço, assistindo TV na sala, brincando com os filhos, e mesclo tudo isso com outras situações mais programadas, como shows, tarde de autógrafos, reuniões na gravadora. Essa convivência acaba por tornar a câmera parte da vida deles”, explica a diretora.

Em entrevista exclusiva a Revista O Grito!, Luciana narrou as dificuldades encontradas durante os 16 anos de produção, a qualidade dos documentários brasileiros, entre outros assuntos. Perguntada se a arte pode transformar a sociedade, ratificou o engajamento humanista de sua carreira, que ainda inclui a função de repórter especial na do livro Rota 66 A História da Polícia que Mata do jornalista Caco Barcellos, e trabalhos para as TVs Downtown Community Television Center (DCTV), PBS/Channel 13, e para a produtora inglesa Television Trust for The Enviroment. “A arte é libertadora, ela nos toca pelo sensorial, não necessariamente pelo intelecto. Acredito que as mudanças mais profundas acontecem quando nos tornamos sensíveis a algo que nos emociona e inquieta nossa alma, seja pela dor ou pelo afeto. Sem a arte, a sociedade corre o risco de murchar em seu próprio tédio automático da vida focada no consumo dos bens materiais”. Abaixo, a entrevista completa.

Mais de 10 anos produzindo o filme. Nesse período, quais foram as maiores dificuldades para realizar a obra?
Foram sete anos de gravação e nove de produção. A maior dificuldade foi finalizá-la. Tanto pelo ponto de vista financeiro, conseguir recursos para isso, como pela questão técnica, já que o trabalho de montagem durou dois anos e meio. Além disso, um momento difícil foi tomar a decisão de que a história a ser contada acabava ali. Ainda que a vida dos personagens continuasse, o filme precisava de um fim. Chegamos a um fim “sem fim”. Foi o que tentamos fazer. Deixar um final mais aberto.

Por tratar-se de um filme em parte sobre o universo carcerário, você encontrou preconceito nesse caminho para conseguir concluir o projeto e lançá-lo?
Diretamente não. Mas o tema é difícil, pois já foi muito falado no Brasil, mas não há como saber as razões pelas quais ele não foi contemplado em tantos editais que entramos ao longo desses anos. Calculo que nos inscrevemos em mais de trinta concursos públicos para finalização do filme, dos quais 70% deles foram no Brasil. No total, fomos contemplados em apenas dois: o Jan Vrijman Fund na Holanda e um edital de finalização do Ministério da Cultura em convênio com a Petrobras. Tivemos que correr atrás de mais apoio diretamente com as empresas que investem em cultura. É difícil convencer que o filme não é centrado na retórica da violência e que transcende o tema prisional.

Quais foram os cuidados, já que as gravações acompanharam a dupla praticamente em tempo integral, para que os dois não perdessem a naturalidade diante da câmera?
Acho que isso tem a ver com o jeito de gravar e interagir com os personagens. Procuro não apenas gravar com eles, mas estar junto em todos os momentos possíveis, sem emitir opinião, mas participando do que fazem em situações das mais triviais, como a intimidade familiar, por exemplo; na mesa na hora do almoço, assistindo TV na sala, brincando com os filhos, e mesclo tudo isso com outras situações mais programadas, como shows, tarde de autógrafos, reuniões na gravadora. Essa convivência acaba por tornar a câmera parte da vida deles. Eles sabem que não estou lá para entrevistá-los e sim para conhecê-los. Eu e a câmera nos tornamos um único ser.

Você considera o Brasil atualmente como referência no cinema documental, tendo em vista ótimos flmes como “Estamira”, “Ônibus 174” e “Sobreviventes – Os Filhos da Guerra de Canudos”?
O Brasil ganha cada vez mais espaço nos festivais internacionais com seus documentários de temáticas sociais e humanistas. Apesar de representar um espectro pequeno dentro do universo mundial de filmes desse gênero, sempre um bom documentário brasileiro nesta temática é convidado ou selecionado para os principais festivais estrangeiros e, frequentemente, com muitas premiações. O “Entre a Luz e a Sombra” esteve no principal deles, o IDFA, o Festival Internacional de Documentários de Amsterdã, onde fez sua primeira pré-estréia mundial e foi muito bem recebido pelo público. Apesar da duração de duas horas e meia, a sala estava lotada até o final da exibição e houve um debate caloroso após a sessão. O interesse do público pelo assunto me parece existir por uma necessidade em compreender melhor a violência no Brasil. Não pelo seu aspecto espetacular, mas pelo o que a circunda.

Aliás, coincidentemente ou não, todos os filmes citados na pergunta anterior retratam de alguma forma problemas sociais no país. Numa nação de grandes disparidades sociais como o Brasil, é necessário que os veículos culturais e artísticos busquem ter alguma função social?
Sou suspeita para falar, pois sou focada em temáticas sociais nos meus trabalhos, mas não há como ignorar a desigualdade social gritante em que vivemos. Os números falam por si. Segundo o IBGE, o Brasil tem dois milhões de ricos para 70 milhões de pobres e miseráveis. Se esquecermos as estatísticas, basta andarmos pela cidade. Alguns dias atrás estive em Paraisópolis, a segunda maior favela de São Paulo, rodeada por mansões e edifícios de luxo, para uma pré-estréia do filme. Ao deixarmos a comunidade, em poucos minutos, os casebres de uma rua da favela foram substituídos pelos suntuosos edifícios do Morumbi. Como ignorar tudo isso? É constrangedor viver em um país com esse cenário. Vivemos juntos e somos responsáveis por nossa realidade coletiva. Chega de olharmos apenas para nosso próprio umbigo.

Até que ponto a arte, e aqui no caso o cinema, pode transformar a sociedade?
A arte é libertadora, ela nos toca pelo sensorial, não necessariamente pelo intelecto. Acredito que as mudanças mais profundas acontecem quando nos tornamos sensíveis a algo que nos emociona e inquieta nossa alma, seja pela dor ou pelo afeto. Sem a arte, a sociedade corre o risco de murchar em seu próprio tédio automático da vida focada no consumo dos bens materiais. O cinema é mágico, pois nos transporta para um universo de possibilidades, que muitas vezes apenas vaga em nossa imaginação. Ele nos dá a chance de viver e experimentar outras realidades.

André Azenha é jornalista

Sem mais artigos