Leonardo Sette (Foto: Cristiana Vasconcelos)
Foto: Cristiana Vasconcelos

TARKOVSKI E GLAUBER NA TERRA DO SOL
Por Rafael Dias

Cineasta, crítico e militante do cinema contemporâneo, Leonardo Sette faz parte de uma novíssima geração que vem, gradualmente, se apossando de um lugar ao sol no latifúndio do audiovisual brasileiro. Seu nome, ultimamente, vem pairando pelos principais festivais de cinema brasileiros sob comentários de surpresa e curiosidade pelo seu curta-metragem Ocidente, exibido no Festival de Tiradentes (MG) em janeiro e há alguns dias no Festival É Tudo Verdade e no Cine Ceará. O trabalho de estréia do diretor pernambucano também foi selecionado para a mostra competitiva de curtas do Cine PE – Festival do Audiovisual, com sessão marcada para o próximo dia 1º de maio.

Com exclusividade para O Grito!, Sette fez uma exibição prévia do curta em um apartamento no 11º andar na Rua da Aurora (Centro do Recife), de frente a uma vista estonteante do rio Capibaribe e da cidade-anfíbia sob o lusco-fusco do pôr-do-sol. Apesar do pouco tempo disponível para entrevista (logo depois pegaria seu vôo para Fortaleza para participar do Cine Ceará), Leonardo não desperdiçou chance: chamou de “acomodada” a crítica de cinema feita pela mídia impressa e refutou o rótulo de cinema experimental. Também não escondeu o orgulho ao comentar o tempo em que morou na França e suas referências estéticas, que vão de Tarkovski e Glauber Rocha.

Filmado em maio do ano passado, com base em imagens gravadas a partir de uma janela de trem, Ocidente guarda ecos da estética tarkovskiana e da nouvelle vague francesa. Em apenas sete minutos, vemos um plano estático de um casal de idosos em uma cabine, absortos na leitura e em si mesmos. A tela, que parece vazia em significados, se espraia em várias cores, luzes e sentidos pelo zooms e manipulações de câmera. É um filme extremamente minimalista em termo convencionais, mas que causa um impacto latente. É como uma levitação de Tarkovski, que permite apreender do real a atmosfera do sonho e do desejo mais íntimo. Deixa uma impressão de que falta algum fecho, uma amarra no final, mas é um filme sugestivo e bonito, com finas camadas poéticas.


Ocidente, curta de Sette que estará no Cine PE 2008 (Foto: Divulgação)

Acompanhe abaixo alguns trechos da entrevista concedida pelo diretor do curta.

O GRITO! – Ocidente parece propor uma desmaterialização da cultura ocidental para atingir uma transcendência “oriental”. É essa a idéia do filme?
Leonardo Sette – Não, não necessariamente há essa ponte com o Oriente. O que faço é um exercício de alienação do Ocidente, construir um fragmento, um recorte do olhar “alienado” na vida. Como as pessoas vivem, amam, envelhecem, são alheios a todos os significados, e é lindo. A idéia era também que o filme não se amarrasse a uma interpretação. Não é necessária a leitura que tive.

Você gosta de experimentar em seus filmes?
Não. (Ocidente) não é um filme experimental. É um filme como outro qualquer, como um que tem roteiro, diálogos e tudo. É muito arriscado classificá-lo como experimental. Adoro muitos filmes que são considerados experimentais. O termo ‘vanguardista’ acho menos perigoso, significa que algo está à frente, mas continua sendo… O rótulo é muito arriscado, pega variações de uma linguagem que saem do padrão de cinema hegemônico e varre para debaixo do tapete. O que me motiva a fazer filmes é a minha formação cinefílica. Impulsionar o cinema pra frente, sempre com inquietude. Mas não me veto a possibilidade um dia de fazer um filme mais clássico.

Por que você resolveu ir à França estudar cinema, se você já tinha um bom estoque técnico no mercado de audiovisual do Brasil?
Eu sentia um vazio de cultura cinematográfica. Fazia parte de uma lista de discussão de cinema, em que participava o pessoal que depois fundaria a Contracampo, Cinética, Paisá… E eles falavam de filmes de Taiwan, de outros diretores…mas eu não tinha a menor idéia. Não tinha e-mule na época, nada disso. Mesmo que existisse, minha relação é com a sala de cinema, sem essa coisa dogmática. Passei quatro anos em Paris, só vendo filme, contando cada euro. Trabalhava num albergue como recepcionista, mas estava na (Universidade de) Sorbonne, fazendo o curso de história do cinema. Nem me interessava muito, faltava aula para assistir filmes. Ia ao circuito de exibição, tinha carteira da Cinemateca Francesa, pagava dez euros por mês. Ia às salas independentes de Quartier Latin, ao centro Pompidou, ao Forum des Images…Assistia a três filmes por dia. Pude ver filmes clássicos, mudos, em 35 mm. Foi muito forte a experiência.

Acho arriscado classificar Ocidente como experimental. Prefiro o termo “vanguardista”, acho menos perigoso

Que cineastas você conheceu nessa época e são importantes hoje em sua formação?
Em Paris, foram muitos cineastas. Um que posso dizer que é muito importante é Tarkovski. Mas só falar dele seria pouco. Tem também (Carl Theodor) Dreyer, (Stan) Brakhage, Godard…O centro Pompidou fez uma retrospectiva integral da obra de Godard, com mais de cem filmes. Antonioni também, e outros cineastas desconhecidos que eu vi na Cinemateca, mas não lembro os nomes agora. Me marcou muito forte também a obra de Glauber Rocha, mas isso foi antes, em outro período. Ele tem uma trajetória incrível.

De uma maneira geral, os festivais de cinema brasileiro são abertos à novíssima geração de curta-metragistas e cineastas, sobretudo à produção pernambucana, que ultimamente vem passando por uma boa fase?
Pernambuco continua na moda. As pessoas têm grande respeito pelo o que vem de Pernambuco. Isso é fato. Agora tirando o fato de ser de Pernambuco, esse cinema mais aventureiro, entre aspas, digamos – um cinema mais inquieto, preocupado com o cinema de hoje, de 2008, de 2010 – no (festival) É Tudo Verdade, por exemplo, não encontrei muita receptividade. Lá (em São Paulo), senti menos apetite, menos interesse e mais… acomodação. E isso me surpreendeu, porque talvez eu tivesse uma outra idéia. A seleção do (Cine Ceará) de Fortaleza me interessa muito. Meu curta estreou no Festival de Tiradentes. Foi muito bom, lá você não vê holofote e tapete vermelho, as pessoas estão mais interessadas em discutir os filmes, há uma crítica nova no Brasil atrelada, um compromisso com o cinema e só o cinema. Agora os outros festivais eu não sei.

O seu trabalho como crítico de cinema da revista Cinética influencia, de alguma forma, no seu modo de fazer filmes?
Vou escrever agora também para a Filmes Polvo. É de um pessoal de Minas, uma revista bem interessante, com uma equipe de sete redatores, uma galera jovem. Não, (o trabalho de crítico) é um extravasamento da minha criação. É uma coisa natural. Não consigo dissociar. É claro que uma coisa alimenta a outra. Pra mim, é um prolongamento. De certa forma, eu já tava fazendo isso na França, via muitos filmes, só que não escrevia. Quando passei a escrever, foi uma coisa natural.

Leonardo Sette (Foto: Cristiana Vasconcelos)
Foto: Cristiana Vasconcelos

Para você, o que vem a ser uma boa crítica? Que aspectos um crítico deveria se ater ao analisar um filme?
Confesso que nunca parei pra pensar nisso. Acho que o aspecto principal seria a atenção, o interesse. Não partir de nenhum a priori. Nem pra elogiar ou falar mal do filme. É preciso observar o trabalho e, a partir daí, não se privar de destruir nem botar o filme lá no céu. Não acho que o crítico tem que ser bonzinho nem cordial. Acho que o crítico tem que ter uma liberdade para se posicionar, atacar, militar. O que eu não gosto é de desatenção, ou quando há um ataque pessoal àquele filme. Agora é uma atividade extremamente delicada, saber mapear as principais questões.

No geral, a crítica da mídia impressa é uma crítica acomodada, pouco interessada nessa aventura do cinema contemporâneo

Você gosta da crítica de cinema que é feita hoje na web?
A melhor crítica de cinema no Brasil, não tenho dúvida, é feita na internet. Eu acho que a crítica feita na Cinética, Contracampo, Paisá, Cinequanon, Filmes Polvo é a crítica mais apaixonada, entusiasmada. É uma crítica vigorosa, inquieta. Não concordo com todos os textos, nem os da minha revista; naturalmente discordo de alguns posicionamentos. Mas essa crítica que vem sendo feita hoje é a que está interessada no cinema de hoje e do futuro. Ainda tem pessoas muito boas que escrevem na mídia impressa, Kleber (Mendonça Filho, do Jornal do Commercio/PE e site Cinemascópio) é um deles. Mas no geral, é uma crítica acomodada, pouco interessada nessa aventura do cinema contemporâneo.

Está em fase de implantação um curso superior de cinema na UFPE. Você acha fundamental a formação acadêmica na carreira de um cineasta?
Não acho fundamental. Basta pegar como exemplo cineastas brilhantes que nunca passaram pela faculdade. Mas também não acho que quem vai para Academia esteja fadado a ser um cineasta medíocre. Além do mais, o curso não serviria apenas para formar cineastas, mas também críticos, montadores, pesquisadores etc. Acho ótima a idéia. Se fosse na minha época, faria esse curso, teria feito vestibular pra ele.

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