Leo Lacca (Foto: Marcelo Lordello)

UM CINEMA SOB SILÊNCIO
Por Rafael Dias

“Um café irlandês, por favor”. A fauna cinéfila que circula pelos corredores do Cinema da Fundação, no Recife, corre o sério risco de se deparar com uma cena inusitada ao pedir um simples cafezinho. Do outro lado do balcão, bate ponto o cineasta e proprietário do café Castigliani Leonardo Lacca, que, enquanto não filma, dedica-se ao hobby de barista nas horas vagas. Prosaico e simples, ele atende ao público sem se deixar levar pela egotrip da qual se gabaria um jovem diretor deslumbrado.

Até teria motivo para se envaidecer. Seu último curta-metragem, Décimo Segundo, coleciona três prêmios na estante, um deles internacional. O primeiro foi no Festival de Brasília do ano passado, em que, apesar das controvérsias e vozes dissonantes, levou a importante láurea de melhor diretor. Depois, ganhou menção honrosa no Festival luso-brasileiro de Santa Maria da Feira, em Portugal. O mais recente foi o troféu de melhor ator para Irandhir Santos no 18º Cine Ceará, que faz uma atuação soberba, comedida e intensa, ao lado da também ótima Rita Carelli. Esta semana, saiu o anúncio da seleção do curta para o Festival de Cinema de Hamburgo (Alemanha), em julho. Ao público pernambucano, a chance de vê-lo é no Cine PE, que começa esta semana.

Cercado por muitas polêmicas, Décimo Segundo é um dos filmes mais maduros de Lacca, que começou a carreira de curta-metragista com Ventilador (2004), também exibido no Cine PE e vencedor de vários prêmios universitários. Envolto numa atmosfera de silêncio perturbador, a obra é um diálogo eloqüente e de extrema franqueza entre um casal que apresenta medos e intenções retesados. É um filme delicado, de nuances pinceladas levemente, para se ver com calma.

À Revista O Grito!, Lacca concedeu uma entrevista em que defende um cinema de imersão nos personagens e critica o glamour que cerca o mundo do cinema, cujos trechos reproduzimos abaixo.

O GRITO! – Tanto em Ventilador como em Décimo Segundo, há pouquíssimos diálogos ou total mudez. O silêncio é um elemento muito presente nos seus filmes?
Leonardo Lacca – Sim, muito. Porque acho que sou silencioso, na verdade. É muito da minha personalidade. E eu falo que sou menos silencioso que Tião, que é um parceiro meu. Mas, mesmo assim, dou muito valor ao silêncio nos diálogos e nas conversas no cinema. E é o que a gente não vê muito no cinema brasileiro, que é muito verborrágico. Apesar de que eu tenho grandes influências do cinema brasileiro nessa linha, o (Carlos) Reichenbach, por exemplo. Ele usa muitos diálogos, o que não me incomoda. Acho que tudo é questão de caber ou não.

Décimo Segundo lembra muito John Cassavetes, a maneira intimista de filmar o personagem, os close-ups…
Ninguém nunca tinha me falado isso. Tem a ver mesmo, pensando agora. Eu assisti a alguns filmes dele. Quando vi Uma Mulher Sob Influência em película, foi um choque. Cassavetes me influencia muito na questão de no filme, é impressionante como você entra na mente dos personagens. Você começa a entender, tem essa cumplicidade do espectador com o personagem. E essa questão também do que não é dito. Não tem o fluxo de consciência, você entra e começa a pensar no que o personagem está pensando. Isso me interessa muito.

A diferença talvez seja que, em um momento, a linearidade cassavetiana se quebra pelo impacto de um desvario. No seu curta não, predomina a apatia, o tédio. Você concorda?
Concordo. Fora Eisenstein, acho que nada (dos filmes que fiz) teve algo de muito impacto assim, que fosse histérico. Não no sentido ruim da coisa, alguma catarse assim. Realmente é uma coisa muito minha. Inclusive, tipo, sei lá, em Ventilador, por exemplo, um cara falou ‘meu irmão, por que você não colocou a mulher se masturbando?’…(risos). Mas, pra mim, isso não me interessa. O que mais me interessa são as entrelinhas. O que acontece e vem depois ou o que vai acontecer.

No 40º Festival de Cinema de Brasília, em novembro passado, Décimo Segundo levantou polêmica ao receber uma saraivada de vaias e, logo depois, pedidos de bis. Naquela noite, você disse que gostou das reações. Por quê?
Antes de falar que gostei muito, a princípio fiquei muito receoso. Era a primeira exibição do filme, não sabia o que esperar. Primeiro concordei com o público, depois, vendo as pessoas defendendo o filme, você pensa em muita coisa, começa a refletir melhor. Foi bom porque gerou polêmica. De uma certa forma, foi posto em pauta o motivo. As vaias, na verdade, foram bem sintomáticas do que está acontecendo no imaginário audiovisual das pessoas, num festival que costumava ser extremamente politizado, em que as pessoas tinham opiniões embasadas. Mas eu senti que as vaias foram algo tipo muito infantil. Diziam que o filme era lento. Isso pra mim soa como um elogio. Lento é uma coisa ruim? Lento não pode? É lógico que na verdade isso foi bom. Virou uma questão que vai além do filme. Não foi uma vaia pro filme, foi uma vaia para uma linguagem cinematográfica que propõe algo que não é aquele bombardeio de TV, de cinema e teledramaturgia. Uma novela pra ter uma cena silenciosa, por exemplo, é quase impossível.

Décimo Segundo (Foto: Filipe Oliveira) e Eisenstein (Foto: Ernesto de Carvalho)
Décimo Segundo (Foto: Filipe Oliveira) e Eisenstein (Foto: Ernesto de Carvalho)

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Você ganhou vários prêmios com seu último curta, mas se mantém sem estrelismos, atendendo em um café, é acessível às pessoas. Você não gosta da pose de superstar?
Na verdade, tipo, eu não faço cinema pra isso. Faço como meio de expressão. Também não sou daquele tipo de pessoa ‘cinema acima de tudo’. Claro que sou um apaixonado por cinema, mas não sou cego. E essa questão do glamour, acho que aqui no Recife o CINE PE pregou muito isso e atrelou muito uma coisa na outra. Tipo, reproduziu o que Gramado reproduziu, o que o Oscar reproduziu. Isso é muito provinciano. Termina que as pessoas acabam criando uma distância enorme entre realizador e público. A questão da simplicidade é da minha personalidade mesmo. Não gosto de mudar, me adaptar nesse sentido. Acho que você tem que saber lidar com algumas coisas, senão você se perde.

Acho que o que falta na gente é um diálogo maior. As pessoas são fechadas, se conhecem, mas não dialogam. Não há um diálogo latente

Irandhir Santos fez o curta bem antes de ser reconhecido pelo seu trabalho na minissérie de tevê A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna (2007). Como é trabalhar com ele?
Irandhir é impressionante. Ele tem um caderninho de anotações que faz pra cada produção, para a caracterização do personagem. É como se fosse um memorial. Tipo, dá uma densidade ao personagem. Mas isso é um detalhe. Acho que o filme tem uma força porque tem muita coisa extra, como se fosse um recorte. Qualquer coisa em cinema é um recorte. Quando você busca o que está fora, o que está dentro se densifica. Irandhir, como ator e em relação ao personagem, buscou muito o que tava fora para o personagem. Pra você ter uma idéia, ele chegou a compor uma música para o filme. Eu sei de relatos de quando ele fez Amigos de Risco (de Daniel Bandeira), que foi uma doação total. Ele se entrega. Acho muito bonito isso.

A nova geração de cineastas brasileiros se queixa, com freqüência, de pouco espaço. Você vê isso também?
Existe nitidamente um choque que é normal entre as gerações entre o pessoal mais old school e o agora. Mas vejo que o choque se estende por uma questão ideológica maior, de como enxergar o cinema. Dizem, por exemplo, que vídeo não é cinema. Isso é, na verdade, algo que beira o inconsciente. Como se a valorização do seu trabalho só ocorresse se você usasse película, trocasse chassi…Acredito que cinema é o processo também, mas não é uma coisa só. Mas acho que o que falta na gente é um diálogo maior. Todo mundo é muito acessível, até o pessoal mais velho é acessível. Não existe uma linguagem que domina o cinema. Acho que há um peso também sobre o cinema de Pernambuco, quando não existe um cinema “pernambucano”. E acho que falta um diálogo, algo que vi muito no Cine Ceará. Lá o pessoal é muito unido, percebi isso. Não sei se é uma visão muita estrangeira e maravilhada da história. Há um movimento em prol de um novo olhar cinematográfico. Existe generosidade lá, e aqui também, mas as pessoas são fechadas, se conhecem, mas não dialogam. Não há um diálogo latente.

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