Julio Bressane (Foto: Divulgação)

“CINEMA É UMA FUGA À MEDIOCRIDADE”
Por Rafaella Soares

Na semana mais importante para o cinema pernambucano – com a abertura do Festival Cine-PE nesta segunda (27) no Centro de Convenções, A Erva do Rato, do diretor Julio Bressane, estreou no Cinema da Fundação inspirando polêmica.

Com a presença do diretor, a sessão na última quinta-feira lotou os 197 assentos da sala, e alguns espectadores tomaram também os espaços no chão. Feito coerente para um realizador que tem suas primeiras incursões contemporâneas ao Cinema Novo, mantendo pequenos intervalos entre uma produção e outra, notadamente autorais.

A Erva do Rato é uma adaptação livre de dois contos de Machado de Assis: “A causa secreta” e “O esqueleto”. Bressane, no entanto, que já tinha incursado pelo universo do Bruxo em Brás Cubas (1985) não vê relação entre as duas obras: “Machado impregna, contamina. É o que acontece com a literatura e o cinema: Se você toca um belo corpo, você vibra” pontua.

Julio Bressane (Foto: Divulgação)

“O que é mais marcante no filme é o paralelo do homem com o bicho e o homem com o esqueleto, nossa forma final”. O filme tem uma única cena externa, no início. Um homem e uma mulher – que só conheceremos por “ele” e “ela”, observam túmulos distintos num cemitério. Lá, um acontecimento estapafúrdio une esses dois dentro do que parece um apartamento antigo, ainda que cenário e figurino passem uma atmosfera atemporal à história. Entre um chá e outro, eles revelam pouco de si e para nós.

Convivendo entre quatro paredes, a relação entre os dois não é exatamente de um casal. A monotonia emanada pelos protagonistas (Alessandra Negrini e Selton Melo) fica ainda mais exasperante na quase ausência de diálogos. Curioso observar que a entrada (recebida com bom humor – ou riso nervoso- pelo público) de um rato em cena, como agente catalisador de neurose entre os dois é a única ameaça da narrativa engrenar.

Julio Bressane (Foto: Divulgação)

Nem mesmo as sessões de fotografia, com nudez total, parecem apimentar a exibição. A fotografia, por sinal, é parte importante do longa. A parceria de Bressane e Walter Carvalho rendeu excelente resultado nesse aspecto. Sobre o amigo de longa data, Bressane diz: ”Walter é excepcional e cinema é isso, uma conversa entre algumas pessoas. Nós temos um canal, uma abertura mútua nesse sentido que facilita as coisas”.

Perguntado sobre a participação de Selton Melo, o diretor deixou aberta a possibilidade de um trabalho juntos .“Selton é concentrado, sensível, dedicado” elogia.

Tantos pré-requisitos bem azeitados (direção, roteiro, elenco, fotografia) e o resultado de A Erva do Rato não é dos melhores. Talvez teatralizado demais, ou muito escatológico. O fato é que o filme não desagrada por ser pouco palatável, mas por não explicitar a idéia central. Erotismo, neurose, atualização de mito, e muitas cenas que caberiam melhor no imaginário se dentro de um livro de Rubem Fonseca. Ou um conto de Machado.

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