QUANDO A SENSIBILIDADE NÃO É MONOPÓLIO DE UM SEXO

Mulheres comuns trabalham, cuidam dos filhos, são fiéis aos maridos e resignam, ainda hoje, a cuidar da casa nos finais de semana. A libanesa Joumana Haddad não é uma mulher como essas outras tão comuns. Ela trava uma constante luta contra os estereótipos que o Ocidente criou acerca da mulher árabe (resignada e relegada à ineficiência). Sem aceitar a repressão do Alcoorão, ela defende o fim da unanimidade, de que não é preciso parecer um homem para empunhar o emblema da feminilidade.

Poeta,escritora, jornalista e feminista. É nessa amálgama que cabe Joumana. E é justamente por ter nascido e por viver num país onde as mulheres são reprimidas e ignoradas que ela tem uma relação peculiar com sua cultura. Mas para ela a luta pela igualdade entre os sexos é “um combate para ser feito todos os dias e em todos lugares”. Além de, também, dar aulas de italiano, falar sete línguas e editar uma revista (censurada em muitos países) cujo tema central é falar sobre os tabus relacionados à sexualidade, ela ainda tem tempo para cultivar toda sua feminilidade e beleza.

Por Fernando de Albuquerque e Valentine Herold

Como você  vê a mulher brasileira e seu papel político e social ?
Eu nunca fui ao Brasil e este ano vou pela primeira vez. Estou muito empolgada para descobrir esse País e essas pessoas que eu gosto desde sempre. Tenho certeza que temos muito em comum: a paxão, o humanismo, espontaneidade, mas também a necessidade de combater o sistema patriarcal.

Qual será o impacto, na sua opinião, de Eu matei Sheharazade- Confissões de Uma Árabe Enfurecida [seu mais novo livro, que sai pela Record] no Brasil?
Espero realmente poder contribuir com meu modesto testemunho para o esclarecimento das muitas questões sobre as mulheres no mundo árabe, mas também as mulheres no geral. E que eu possa combater alguns dos estereótipos absurdos e generelizadores que nos são dados.

Você  acha que existe alguma sociedade na qual a mulher é completamente livre e sabe lidar com essa liberdade?
Ainda não. Onde eu vou, mesmo nos países que avançaram muito em relação à igualdade entre homens e mulheres, sempre existem pontos de disparidades e uma discriminação latente. É um combate a ser feito e refeito todo dia e em todo lugar.

Eu não estou convencida que as mulheres sejam necessariamente mais sensíveis ou mais “humanas” que os homens

Você tem vontade de também atingir o público masculino e fazer com que ele mude sua visão das mulheres?
Claro, pois eu acredito em uma mudança que só é possível em conjunto, com plena cumplicidade entre homens e mulheres. Não deve existir separatismos.

Na sua opinião, a mulher árabe tem mesmo vontade de mudar ou ela está acomodada no seu papel de mulher submissa e reprimida?
Existem os dois modelos, infelizmente. Claro que tem as mulheres que são como eu e que lutam para as coisas mudarem, mas também tem as que são cúmplices contra elas mesmas e que estão envolvidas no jogo da auto vitimização.

Você defende a mulher liberal e independente, mas também a feminilidade. Como você lida com isso no dia a dia?
Não aceitando a chantagem que tentam fazer comigo no cotidiano. Também não aceitando escolher entre minha inteligência e meu corpo, entre minha força e minha feminilidade.

O que você pensa destas mulheres que, em pleno século 21, escolhem ser “mulheres objetos” e simples símbolos sexuais?
Para mim elas não são diferentes das mulheres que usam a burca e dizem que é escolha delas. Elas aceitam ser submissas aos valores de um sistema patriarcal que quer eliminá-las e falta respeito à sua identidade feminina. São as duas faces da mesma moeda, a da falta de dignidade.

Qual é sua relação com o Líbano e a cultura libanesa?
Tenho uma relação um tanto problemática com meu país natal, pois só vi dele, desde de minha infância, violência, guerra, morte e medo. Me perguntam muitas vezes por que eu não me mudo para outro lugar. Na verdade o motivo da minha insistência em viver aqui não resulta das coisas que me agradam, mas daquelas que não me agradam e que eu gostaria de contribuir para mudar. Me faltaria credibilidade se eu criticasse de fora.

Na sua opinião, as qualidades que diferem as mulheres dos homens, como a sensibilidade e o lado um pouco mais “humano”, as ajudam ou prejudicam na política?

Eu não estou convencida que as mulheres sejam necessariamente mais sensíveis ou mais “humanas” que os homens. Nosso nível de sensibilidade não tem nada a ver com nosso sexo, e eu acho que essas pretendidas qualidades que são atribuídas às mulheres nem sempre podem ser aplicadas. Somos todos ser humanos, e é isso que nos qualifica, além do fato da nossa constituição biológica. Os valores humanos não são monopólio de um sexo.

Você  acha que intimida os homens?
Muitos homens já me confessaram que eu os intimido. Outros não me falam mas é evidente em relação ao comportamento deles comigo. Francamente, eu não tenho pena deles. É o único jeito de lidar com um homem que se sente ameaçado pela minha força ou minha inteligência ou liberdade.

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