Mimos: Escritor e desenhista, Aguiar posa ao lado de suas obras

MÚLTIPLO S/A
Por Paulo Floro

Para José Aguiar não bastou apenas ser um autor de histórias em quadrinhos. Uma pequena passeada pelo site oficial deste quadrinhista curitibano mostra sua versatilidade. Ilustração, roteiros, cartazes, tiras. Os estilos também são diversos. Dos traços estilizados ao clima soturno. Em entrevista a O Grito!, Aguiar comentou que não se trata de uma atitude deliberada. “A versatilidade é algo que o mercado de trabalho nos impõe. Eu nunca encontrei meios de me especializar num só segmento aqui no Brasil”, afirmou.

Seu novo álbum Quadrinhofilia é o que melhor demonstra esta característica do autor. Lançado pela editora HQM, trata-se de uma coleção de histórias feitas desde os anos 1990, onde encontramos uma impressionante variação de estilos e temas. Em todas elas, uma clara intenção de experimentar. “Eu encaro cada roteiro como um desafio que pede uma linguagem adequada”.

Viajando por algumas cidades pelo Brasil para lançar o livro, Aguiar, que também é professor e escritor comentou sobre a forma de distribuição de novos autores no país, seus projetos no teatro e hqs de terror.

Este é seu segundo álbum, e por uma nova editora. Como surgiu a idéia de fazê-lo? O que pode nos contar sobre o processo de construção do álbum, desde a concepção até o trabalho com a editora HQM?
Fazia um bom tempo que eu desejava concluir algumas HQs antigas e publicá-las numa única edição com algumas outras que gostava mas que poucos leitores tiveram acesso. Sem falar que boa parte eram completamente inéditas fora da minha gaveta. Mas eu sabia que, enquanto não publicasse alguns trabalhos maiores, dificilmente algum editor iria se interessar em lançar uma coletânea de um autor desconhecido.

Cheguei até mesmo a apresentar a idéia a uma editora, mas ela confirmou minha intuição, afirmando que não era hora. Em 2006 ganhei espaço para uma exposição solo no aniversário dos 24 anos da Gibiteca e organizei uma espécie de balanço de carreira chamado Quadrinhofilia. Essa exposição, indicada ao Troféu HQMIX ano passado, foi a primeira vez em que organizei meu material antigo e pude avaliar o que seria publicável ou não. Como eu estava há algum tempo em conversação com a (editora) HQM para participar de uma revista mix, levei a proposta e eles toparam de imediato.

Foram cerca de 05 meses restaurando arquivos, balonando, concluindo as HQs inacabadas, etc. Em paralelo segui com os trabalhos normais. Não fosse a ajuda do amigo Liber Paz, responsável pelo projeto gráfico, o livro teria demorado mais tempo ainda para sair.

Você está viajando algumas capitais para lançar o álbum, como está sendo a recepção?
Em especial graças aos ótimos releases que o livro tem recebido na internet, as pessoas tem se mostrado curiosas. Lançar numa cidade que não é a sua sempre é um processo imprevisível. Como estou construindo um público, fico na dependência de uma série de fatores logísticos e de divulgação para gerá-lo. Em Curitiba muita gente sempre compareceu, mas minha cidade é meu reduto. Nela sou conhecido. Em São Paulo e Rio e Niterói os lançamentos foram bons, melhores do que os de Folheteen, meu álbum anterior no ano passado. Sinal de que mais pessoas estão interessadas em me conhecer e ao meu trabalho. É um processo lento, mas gratificante. Sempre que posso, promovo um lançamento em outra localidade para agitar a cena local, os leitores e artistas. É um ótimo momento para fazer contatos e trocar experiências. No geral a resposta ao álbum me surpreeendeu. Eu não esperava que as resenhas fossem tão entusiasmadas. Não poderia estar mais contente.

Nosso maior desafio que temos a superar é convencer quem vende que somos sim um bom negócio

Para você qual o melhor método de divulgar e distribuir o trabalho. Te pergunto isso não ao seu trabalho especificamente, mas em relação a sua opinião sobre como o quadrinho brasileiro se articula para se tornar conhecido.
A internet é o melhor meio para divulgar. Seu custo é ínfimo e seu alcance incalculável. Foi através dela que publiquei na Europa. Um bom site, um release profissional e um mailing que vá até as pessoas que realmente podem se interessar em divulgar o que você faz são os primeiros passos. Eventos de lançamento são sempre ótimos meios de chamar a atenção da TV e mídias impressas. Esse corpo a corpo com o público é indispensável. Eu acredito que o autor não deve ficar recluso, atrás de uma prancheta. O retorno que você sente das pessoas é muito importante para guiar seu trabalho.
Quanto a distribuição, ela ainda é uma incógnita. Nosso calcanhar-de-aquiles. Eu já fiz lançamento onde os livros chegaram depois de mim. Felizmente chegaram, mas isso realmente não é bom. Muitas vezes o jornaleiro e o livreiro subestimam o autor e o apelo de seu trabalho, escondendo o livro para priorizar algo que ele supõe ter mais poder de venda. Esse é o maior desafio que temos a superar : convencer quem vende que somos sim um bom negócio.

Pelo seu site, podemos perceber uma grande versatilidade sua enquanto artista. Até que ponto você utiliza seu lado autoral para fazer trabalho como ilustrações, mapas, etc.?
É engraçado, mas a versatilidade é algo que o mercado de trabalho nos impõe. Eu nunca encontrei meios de me especializar num só segmento aqui no Brasil. Na Europa meu portfólio deixava as pessoas ainda mais desconcertadas, pois lá é possível escolher uma linha de trabalho bem específica. Aqui, infelizmente temos que trabalhar com o que há disponível, sejam livros didáticos, publicidade, animação… Isso é ruim por um lado, pois pode descaracterizar seu trabalho por torná-lo um generalista. Mas também pode nos impedir de ficar bitolados. Pelo menos no meu caso me impulsiona a sempre buscar informação e experimentar. Me reinventar sempre que possível. Mas sendo realista, o lado artista só sobressai quando o cliente permite. Infelizmente, comercialmente falando, um ilustrador é visto como um executor autômato. Mas tenho os quadrinhos para me expressar e experimentar de fato. E eles tem cada vez mais me aberto (mesmo fora deles) outras possibilidades de trabalhos prazerosos e realmente interessantes.

Você acompanha o mercado de quadrinhos brasileiro? O que pode destacar na cena de HQs independentes?
Sim, eu sou viciado em quadrinhos. Sei que há muitos autores que não lêem. Mas eu sempre os colecionei. Super-heróis, séries italianas, eróticos, infantis… Creio que, por ser essa a minha profissão ideal, tenho a obrigação de saber o que anda acontecendo nos mercados de lá e daqui. Atualmente ando acompanhando com muito interesse o trabalho dos artistas agregados no selo Quarto Mundo. Café Espacial, O Contínuo e as minhas conterrâneas Avenida e Quadrinhopóle tem se mostrado num processo de amadurecimento que há muito eu esperava no quadrinho independente. Não são mais fanzines experimentais, são trabalhos cada vez mais ousados. Tem também a Graffitti e o pessoal que está lançando pela Desiderata vindos da Mosh, os rapazes que acabaram de lançar A Casa do Lado também pela HQM, André Diniz, Antonio Eder… Tem muita gente boa. Desculpem se deixo de lado alguns nomes!

Não adiantar simplesmente converter um livro em quadrinhos. É preciso “quadrinizá-lo” de fato. Criar algo com valor também por ser quadrinhos, não simplesmente porque pegou emprestado o prestígio de uma obra e autor consagrado

Você também está ligado a Graphic, uma peça que teve boa repercussão e até ganhou prêmios. O que achou do resultado desse intercâmbio de mídias?
Acho necessário e inevitável. Se eu quero crescer como artista de quadrinhos não posso me limitar a eles. Tenho que ter contato com outras linguagens. Atualmente os quadrinhos estão absorvendo outros elementos e se ramificando para outras mídias. Graphic está naquele segmento de trabalhos prazerosos e desafiadores que mencionei antes. No começo assustou um pouco pela liberdade, pois fui chamado pelo diretor Paulo Biscaia (que considero um dos maiores nomes do teatro atual) enquanto o processo não estava pronto. É mais comum encomendarem um série de ilustrações e pronto. Não chamar você para contribuir criativamente com um projeto. E olha que não fui o único artista gráfico envolvido.

Felizmente fiquei encarregado de ser o alter-ego bidimensional do personagem Artie (um desenhista de quadrinhos frustrado que hoje desenha manuais de instrução) e defini o projeto gráfico do espetáculo. Graphic é por natureza uma mistura de linguagens, reinventando a do próprio teatro: além dos quadrinhos há projeções, música e dança. O teatro feito pela cia Vigor Mortis é para entorpecer os sentidos. Infelizmente, após dois anos de sucesso, Graphic acaba de sair do repertório do grupo. Mas nem por isso vai desaparecer. Junto com o Biscaia estou elaborando dois projetos unindo teatro e HQ: Vigor Mortis Comics, que irão expandir o universo dos espetáculos da cia. Também estamos escrevendo juntos uma peça com o título provisório de “Catacumba”, que homenageia as antigas revistas de terror como Kripta e Calafrio numa história passada na ditadura militar.

Falando em adaptações, o que acha das adaptações que as editoras tanto apostam no mercado de HQs daqui? Já recebeu algum convite?
Eu as acho necessárias. Uma boa história deve transitar entre mídias. Ser revista, reinterpretada. É uma forma dela se popularizar. Se a adaptação for bem utilizada, falando-se especialmente em escolas, elas servem de ponte para a obra original, que deve também ser conhecida. É um filão que deve ser explorado, mas com cuidado. Não adiantar simplesmente converter um livro em quadrinhos. É preciso “quadrinizá-lo” de fato. Criar algo com valor também por ser quadrinhos, não simplesmente porque pegou emprestado o prestígio de uma obra e autor consagrado. Eu já fui sondado duas vezes para esse tipo de trabalho. A primeira foi através de um roteirista francês que queira criar uma versão de O Alienista, de Machado de Assis. Mas o projeto não andou pois ele estava preso a outros projetos. Ano passado André Diniz me convidou para desenhar Cândido, de Voltaire, mas tive que declinar do convite devido ao prazo e por já estar desenhando A Guerra de Canudos, também escrita por ele. Esse álbum por sinal, deve ser publicado ainda este ano pela Escala Educacional. Enfim, ainda aguardo um convite de alguma editora para realizar um projeto nessa área. Editores, se estiverem lendo esta entrevista, estou aberto a propostas.

Sobre seu estilo, você também se mostra elástico no traço, já que Folheteen tem um estilo bem estilizado. Em Quadrinhofilia, você é ainda mais eclético. É uma característica sua não se focar num único modo de desenhar?
Minha característica pessoal é um traço anguloso, estilizado. Talvez ele seja uma revolta natural dos anos em que me sustentei desenhando personagens fofos e redondinhos. Mas não tenho certeza. Se você analisar Quadrinhofilia, vai encontrar muitos elementos comuns em todas as histórias independentemente do traço final de cada uma. Mas o que mais garante a diversidade do livro é o fato de que ele foi ilustrado em épocas diferentes.
É quase um catálogo de estilos que domino, ao mesmo tempo em que dá uma geral na evolução de meu trabalho: A HQ “Triste Fim de João é Maria” é de 1996, já “Catarrinho de Amor” foi ilustrada em dezembro passado. Mas isso acontece também porque eu encaro cada roteiro como um desafio que pede uma linguagem adequada. As HQs que citei ficariam terríveis no traço utilizado em “O Gabinete do Dr. Caligari”, por exemplo.

Uma coisa que digo a meu alunos na Gibiteca de Curitiba é que o desenho segue a mesma lógica. A mesma estrutura, que é coberta por uma maquiagem ou outra. Eu nunca consegui, nem quis que eles desenhassem como eu. Acho que entender o que é o desenho é o que dá a um artista flexibilidade para adaptar a aparência externa do trabalho.

Como serão os livros sobre arte-educação que você escreve em parceria com sua esposa? Pode nos dizer mais detalhes?
Esse é um projeto que infelizmente está parado. Nele usamos os quadrinhos como recurso para explorar questões complexas como “O que é Arte ?” e acrescentar humor para tornar o conteúdo mais interessante e próximo da vivência dos alunos. O material foi escrito voltado aos estudantes do ensino médio. Infelizmente a editora que bancou o projeto encerrou temporariamente suas atividades no segmento e os livros, mesmo prontos, acabaram não sendo editados. Agora estamos prospectando com outras editoras.

No que você está trabalhando?
Fora os projetos com a Vigor Mortis citados, sigo tocando os trabalhos de ilustrador, ministrando aulas na Gibiteca de Curitiba e escrevendo vários álbuns: a continuação de Folheteen, álbum publicado pela Devir ano passado, Pensão João, adaptando uma de minhas tiras de humor para o formato de álbum e Coisas de Adornar Paredes, uma nova coletânea de HQs curtas. Outro projeto que não é bem quadrinho, mas está em andamento é Reisetagebuch – Uma Viagem Ilustrada Pela Alemanha, onde narro minhas impressões sobre aquele país onde residi duas vezes. O projeto renderá uma exposição no segundo semestre e também um livro, inspirado nos que são publicados pela Editora Casa 21. A “História Quadrinhos em Outras Bandas ( Desenhadas )” presente em Quadrinhofilia é um prelúdio desse projeto. Há também uma galeria com as primeiras ilustrações do projeto em meu site e um blog. Além dessas coisas todas, estou sempre em busca de novos trabalhos, seja aqui ou no exterior.

Mais novidades de José Aguiar no blog oficial: www.joseaguiar.com.br/blog.

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