Músico é uma novidades da cena pernambucana atual e lança seu trabalho de estreia

Fernandes, músico pernambucano de 26 anos, é uma das novidades da cena atual de Recife (que passa por uma renovação interessante, diga-se). Com uma mistura que transita entre as paisagens sonoras da tropicália e um groove instigante, Bonanza, seu trabalho de estreia impressiona pela proposta conceitual.

Se arriscar em um disco de estreia chama ainda mais atenção para Fernandes, que começou a carreira ainda em 2014 quando lançou o EP Sem Eira, Nem Beira. Desde então ele foi costurando o que seria esse primeiro álbum cheio, que conta com design de Neilton (artista plástico e integrante da Devotos).

A produção foi do próprio Fernandes e Jr. Tostoi, produtor musical carioca e guitarrista de Lenine e Vulgue Tostoi. O trabalho todo fala de empatia, de se colocar no lugar do outro, o que faz desse álbum algo bastante atual dado o contexto do país hoje, marcado por radicalismos, pouco diálogo. “O Bonanza traz muito essas questões de afetividade, ocupar espaços, ser porta voz de algo. Independente do posicionamento político, entender que o respeito e a empatia são pontos de partida pra construção de uma boa relação de convivência”, explica o músico.

A Revista O Grito! bateu um papo rápido com Fernandes, por e-mail.

Bonanza chega com uma proposta conceitual bem amarrada, o que é impressionante para um disco de estreia. Como foi a produção do disco, de onde você tirou inspiração?
Bonanza é o resultado de um processo de construção natural e espontâneo, uma busca por referências artísticas que permeassem caminhos que eu ainda não tinha tido a oportunidade de dialogar e vivenciar. O disco foi produzido entre o Recife e Rio de Janeiro e tem um apelo afetivo que norteia todo conceito sonoro e estético do álbum. Das relações entre as pessoas e da necessidade de se despir de convicções e se projetar no lugar do outro.

Em 2014 você lançou o EP “Sem Eira, nem Beira”. Agora, quatro anos depois chega o disco cheio. O que esses quatro anos representaram de evolução no seu trabalho?
O Bonanza é o reflexo de um período de transição, onde foi encerrado um ciclo e aberto outro, com caminhos para novas experiências. Foi um processo lento e delicado, de muita reflexão sobre o conceito do álbum junto a sensação de dar um salto para um outro momento. Nem maior, nem menor ao que tive com o EP, mas um processo que fosse totalmente diferente e me agregasse novas trocas.

Neilton Carvalho assina o projeto gráfico do disco. Acho massa quando a parte gráfica dialoga com a música. Pode nos contar mais do design do álbum?​
Sempre achei massa unir diversas formas de arte em um projeto. Expressões que podem se complementar mesmo tendo processos de construção diferente. Com Neilton houve uma identificação imediata. Trocamos várias ideias e chegamos juntos em um norte para o conceito gráfico do álbum. A partir disso deixei ele com total liberdade pra criar a sua visão sobre o universo do “Bonanza” e o resultado foi o elo perfeito entre mundos que se complementam. Dando significado e corpo ao conceito do disco.

Seu disco chega em um ano de muitos bons lançamentos em Pernambuco? Como percebe essa cena atual?
Sempre vão existir pessoas produzindo algo, em todas as vertentes da arte. Independente do momento ser favorável ou não ao artista. Pensar nisso me faz entender que há uma movimentação constante e que cada um tem seu formato de produzir seu trabalho. Nunca se produziu tanto conteúdo artístico como hoje no mundo. Como músico busco sempre estar aberto e atento a esse diálogo.

O momento político no Brasil, de muita instabilidade, mas também muitas lutas, é bastante percebido também nos trabalhos artísticos. Como isso te afeta?
Esse é um discurso e uma comunicação que se faz necessária. O Bonanza traz muito essas questões de afetividade, ocupar espaços, ser porta voz de algo. Independente do posicionamento político, entender que o respeito e a empatia são pontos de partida pra construção de uma boa relação de convivência. De utilizar a arte como fio condutor para conectar pessoas de um modo mais orgânico e sensorial.

Volta e meia você é apresentado como “o cantor e guitarrista”. Como é a sua relação com a guitarra? Lembra de quando começou seu ​​relacionamento com o instrumento?
Música sempre esteve presente no meu cotidiano. Sou autodidata. A guitarra foi um instrumento que naturalmente fluiu uma identificação. Houve uma busca por sonoridades e timbres que norteou minha prática de estudo. Tive várias vivencias dentro da música, tocando em banda marcial e acompanhando outros artistas. Foi importante pra construção da minha musicalidade. Me possibilitou ir para outros caminhos e entender como posso expressar minha identidade tocando em diferentes projetos musicais.

Que artistas mais te influenciaram? Qual a lembrança mais remota de querer trabalhar com música?
Nesse disco tive a oportunidade de trabalhar com várias pessoas que são importantes referências na construção da minha carreira artística e grandes incentivadores. Umas delas é o Jr Tostoi (Produtor musical, Vulgue Tostoi e Lenine), além de co-produzir o disco comigo, participou de todo o processo de construção, desde a gravação até a mixagem. É um misto de sensações de estar no estúdio gravando o disco com pessoas assim, passa muita coisa na mente. Como guitarrista foi um processo de desconstrução e aprendizado de um outro conceito sobre timbres e texturas sonoras. Sem dúvida me agregou muito musicalmente.

Quais os planos pós-Bonanza? ​
Vai rolar o show de Lançamento Oficial do Disco no dia 11 (Sexta) de Maio no Teatro Hermilo Borba Filho e estamos fechando uma tour do Bonanza por outras cidades no segundo semestre desse ano. Entender esse processo de lançamento como uma oportunidade de ocupar espaços e difundir uma mensagem que é maior que o próprio disco em si.

Depois da tempestade vem a Bonanza!

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