IMAGINANDO MACHADO DE ASSIS
Autores da HQ Dom Casmurro contam sobre o desafio é adaptar obra-prima machadiana e ainda criar um produto original

Por Paulo Floro

Adaptações literárias para os quadrinhos não são mais novidade há muito tempo. O mercado editorial passou a utilizar esse formato como espécie de muleta, tanto que é difícil ganhar atenção do leitor no meio de tantas obras. Dito isto, chega às livrarias Dom Casmurro, assinado pelo escritor Felipe Greco e desenhada por Mario Cau. Lançada pela Devir, o álbum se destaca por trazer uma visão pessoal de uma das histórias mais conhecidas da ficção brasileira.

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Os autores passaram seis anos trabalhando no projeto e levaram para os quadrinhos uma re-invenção do livro que conta o conhecido triângulo amoroso entre Bento, Capitu e Escobar. Uma das soluções encontradas pelos autores foi não limitar o número de páginas, criando mais espaço para imaginar todo o enredo de Machado de Assis.

Cau e Greco ainda tiveram de passar pelo desafio de dar vida ao que Machado deixa apenas como algo subjetivo ao leitor, a exemplo do “olhos de ressaca”, de Capitu. “Muito da sutileza e do mistério que o Machado criou vêm do texto, da falta de imagens. Ele não costuma descrever muito o físico dos personagens. Mas é uma responsabilidade da qual não existe fuga: não daria para contar essa história sem dar ‘caras’ a eles”, disse o desenhista. A Revista O Grito! entrevistou os autores sobre o processo de criação do livro, um dos principais lançamentos nacionais nas HQs deste começo de ano.

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O GRITO!A obra Dom Casmurro, de Machado de Assis, já foi adaptada mais de uma vez para os quadrinhos. Vocês tentaram apostar em algo específico para se diferenciar?
FELIPE GRECO – Na verdade, nunca li adaptações do Machado para quadrinhos. Não sou um leitor de HQs, minha praia é a prosa, nem de cinema eu gosto muito. “Defeito” de formação, talvez. E olhe que meu pai foi projecionista no interior do Rio Grande do Sul. Quando pequeno, eu ia com ele para o trabalho e ficava na cabine de projeção, brincando com rolos de filmes velhos. Porém, na virada de 2006 para 2007, recebi o convite de uma amiga editora: “Vamos adaptar Dom Casmurro para quadrinhos?” Respondi: “Logo esse texto que me enfiaram goela abaixo na escola!”.

Bem, como gosto de ser desafiado, prometi pensar na proposta. Reli o original muitas vezes. Estudei cada detalhe (dentro e fora do livro, em obras de moda, comportamento e arquitetura de época). No fundo era um reencontro com algo que havia em mim, um bloqueio, certa antipatia pela prosa machadiana – não pelo texto, menos ainda pelo autor, mas por ter sido forçado a ler um livro que, para um pré-adolescente de 11 ou 12 anos… século 19… a história de um menino prometido para o altar etc. Tudo isso causava em mim um distanciamento. Semanas depois, voltei a ligar para minha amiga: “Está bem, aceito”. Mas, embora respeitando a trama original, disse a ela que buscaria um recorte mais noir… de um protoganista-narrador que age como se fosse um voyeur de si próprio. Ela aceitou. Fui em frente. O roteiro ficou enorme, pois cada quadrinho foi trabalhado com o máximo de detalhes.

Mario Cau – Nosso Dom Casmurro começou a ser produzido muito antes das outras adaptações, mas por causa do tempo que levei pra dar conta da arte, essas outras adaptações saíram antes. Existe sempre aquele receio em adaptar para HQ uma mídia que não tem imagens. Eu tenho certeza que nossa melhor escolha ao decidir seguir em frente com o projeto foi o de não limitar o número de páginas. Inclusive, conversando sempre com o Felipe, estendi e comprimi o roteiro onde achei mais conveniente, para potencializar a narrativa e dar um bom ritmo.

A maioria das adaptações literárias para quadrinhos sofre de uma limitação de páginas, e isso simplesmente inviabiliza um bom trabalho. Já vi várias que simplesmente matavam toda a poética e profundidade do original. Outro fator importante foi termos sempre em mente que essa é a NOSSA leitura de Dom Casmurro. Não propomos que seja a adaptação definitiva, e sim a nossa interpretação do que o Machado narrou.

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O projeto do livro – desde a concepção até este lançamento – durou seis anos. Como foi o processo de criação? Pode nos dar mais detalhes como você e Felipe Greco trabalhavam?
Greco – O Cau foi o último desenhista a entrar no projeto e o único que ficou. O roteiro já estava pronto quando ele apareceu. E o engraçado é que foi o Cau que não me deixou jogar todas as páginas no fogo. Insistiu. Acabou me fazendo acreditar que daria certo. Como disse, o roteiro era muito minucioso, rico em detalhes e sugestões de páginas. Mas combinamos que ele ficaria livre para sugerir mudanças visuais, também “dar a sua assinatura”. Ele é leitor de HQs, eu não. Comecei a ler mais depois que começamos a trabalhar em parceria. A diferença de idade também foi um fator positivo. Trabalhamos à distância. Creio que nos reunimos três ou quatro vezes, não mais que isso. Ele entendeu perfeitamente o que eu queria enquanto roteirista. Raras vezes precisei interferir na criação dele.

Cau – Foi uma boa experiência. Aprendi muito sobre o processo editorial, pesquisa, disciplina e etc. E desenhar o DC foi interessante, pois quando cheguei no projeto o roteiro estava pronto, e eu comecei a trabalhar oficiamente nas páginas atuais em janeiro de 2009. No começo eu enviava estudos de página, layouts e lápis pro Felipe aprovar, mas eventualmente meu ritmo ficou mais frenético e eu estava mais confiante. Acabava fazendo muitas páginas até o fim, e só depois mostrava pra ele. Acho que funcionou muito bem, eu tenho uma pegada mais voltada às histórias psicológicas, humanas, cotidianas. Gosto de explorar o sentimento dos personagens e suas sutilezas. Costumo dizer que um quadrinista funciona como a produção inteira de um filme: diretor, produtor, ator, cenografia, iluminação… Tudo isso fica nas mãos de um cara só. Então eu mergulhava no DC e confiava nos meus instintos e pesquisas.

O livro de Machado de Assis traz uma leitura que instiga muito a imaginação, sobretudo com as descrições de Capitu. Foi um desafio criar as feições dos personagens?
Greco – Antes de começar a produzir o roteiro, pesquisei “descrições” na obra. Era quase um “roteiro para escrever o roteiro”. Em Dom Casmurro não há muitas descrições de fisionomias, cenários etc. Quando o Cau fez os primeiros esboços, lembro que trocamos e-mails para acertar detalhes. Mas ele ficou livre para criar. Quando necessário, discutíamos novamente.

O desenhista Mario Cau (Divulgação)

O desenhista Mario Cau (Divulgação)

Cau – Foi um grande desafio. Talvez a maior responsabilidade dessa obra seja o cuidado com as feições e narrativa, para que a mensagem que passássemos com a HQ fosse o mais fiel possível à do Machado. Obviamente, só o fato de ter imagens já causa uma ruptura imensa. Muito da sutileza e do mistério que o Machado criou vêm do texto, da falta de imagens. Ele não costuma descrever muito o físico dos personagens. Sempre que um livro é adaptado para alguma mídia visual, você corre o risco de decepcionar os leitores, já que cada um costuma imaginar seus próprios “atores” interpretando os personagens. Mas é uma responsabilidade da qual não existe fuga: não daria para contar essa história sem dar “caras” a eles.

Quando comecei a criar o visual dos personagens, acabei confiando no visual que imaginava quando das primeiras vezes que li o livro. José Dias é uma homenagem ao visual do Dom Quixote. Capitu é uma colcha de retalhos… Cada parte dela vem de alguém diferente, alguma garota por quem eu já me apaixonei. Pensava: “se eu vou lidar com essa personagem, que é vista sob a ótica do Bento, eu preciso me apaixonar por ela”. Os olhos de ressaca, que descrição genial! Mas como transformar essa descrição numa imagem…?

Para compor o filho, Ezequiel, foi mais complicado. Como a história é contada pelo Bento, obviamente ele o veria com feições do amigo Escobar. Mas tentei colocar um pouco de cada um dos três no menino.

Veja um preview da HQ

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O que as pessoas ainda podem descobrir de mais interessante no escritor?
Felipe – Esse trabalho serviu para que eu revisitasse certas resistências em relação ao autor. Arte, para mim, é encontro. Você não pode forçar ninguém a gostar de algo, seja o que for (pintura, cinema, música etc.). Ao forçar a leitura de certas obras, por exemplo, “o tiro sai pela culatra”: em vez de novos leitores, você acaba criando inimigos dos livros. É preciso fazer bons convites. Professores que saibam encantar, não dar ordens. E isso é complicado. Comecei a me interessar por literatura quando descobri Jean Genet, por volta dos 20 anos. Daí, não parei. Li tudo do Genet e de outros mais. Por meio do Genet aconteceu meu encontro com a prosa, entende? Espero que nossa adaptação de Dom Casmurro também funcione como um bom convite para que leitores de quadrinhos sintam vontade de ler o texto original, nem que seja para falar mal da nossa adaptação. Certa vez a querida Tatiana Belinky me disse que adorava quando uma criança queria modificar o final de um livro seu. “É sinal de que aquele leitor se envolveu com a história, e que você, no mínimo, ‘mentiu’ bem para ele.” Também penso assim.

Cau – Eu leio desde sempre… Sempre fui obcecado por quadrinhos, mas com a escola e o incentivo da família, comecei a mergulhar, também, em livros. Confesso que só li Dom Casmurro no ensino médio, e na época não achei grande coisa. Não tinha maturidade nenhuma para entender a profundidade da história. Depois, li Memórias póstumas de Brás Cubas, e me deliciei com a narrativa e as maluquices dos personagens.

Machado foi um gênio. O jeito de escrever, sobre coisas comuns, mas temperadas com tantas outras sacadas narrativas, à frente do seu tempo… Especificamente sobre Dom Casmurro, ainda me fascina que ele nunca tenha dado uma resposta para a questão crucial da obra. E melhor do que isso, a história é narrada pelo próprio Bento, que é um homem difícil, ciumento, mimado. A opinião dele é distorcida, não é verdade absoluta. E isso tendencia o leitor a acreditar nele. É um autor de camadas, de sutilezas, de subtramas elaboradas, e sabia como usar recursos de texto pra criar experiências únicas.

Espero muito que nossa adaptação possa levar os leitores que não conhecem a obra do Machado a procurá-la e entendê-la.

Detalhe da edição capa dura da Devir (Reprodução)

Detalhe da edição capa dura da Devir (Reprodução)

Você fez parte do Quarto Mundo, que encerrou as atividades no ano passado. O fim foi recebido com tristeza por quem acompanhava o universo de quadrinhos independentes. Na sua opinião, o momento atual do mercado comporta iniciativas como o QM? Qual sua opinião sobre a dissolução do grupo?
Cau – O Quarto Mundo foi, para mim, uma experiência sensacional. Não só aprendi muito sobre a produção de quadrinhos independentes, como viajei com o coletivo a grandes eventos, e fiz muitos amigos, que guardo no coração até hoje. A iniciativa era muito nobre, muito inteligente, e ímpar para a época, quando coletivos de HQ independentes praticamente inexistiam. Mas era um modelo que foi se desgastando. Internamente o grupo continuava funcionando com uma premissa democrática, mas quem fazia a coisa acontecer mesmo eram alguns poucos membros… E quando estes não estavam disponíveis, a coisa parava de andar.

É complicado lidar com grupos muito grandes. No último ano, algumas tentativas de renovar, revitalizar mesmo o coletivo foram tentadas. Inclusive uma proposta minha, para um álbum com HQs inéditas das nossas séries, que no final não foi pra frente. Esse mesmo projeto acabou migrando pro Petisco e virou nosso bem-sucedido projeto no Catarse.

Hoje, vemos vários coletivos, autores se unindo em eventos, publicações, sites, etc. com resultados muito bons, e geralmente sem um “estatuto” interno.

Fiquei chateado com a dissolução do grupo, mas eu mesmo estava em crise, pensando se sairia ou não. Tenho certeza que fiz muito pelo coletivo e sou gato a tudo que ele fez por mim. Se hoje eu sou quem sou, o QM tem grande “culpa” por isso. As amizades permanecem, as parcerias também. Mas era hora de se reinventar e seguir em frente, buscando novos desafios.

Você planeja relançar títulos antigos, como Pieces, Burocratia, etc? Existem planos para novas HQs autorais?
Cau – Ainda não. A primeira edição da Pieces, lançada em 2009, está praticamente esgotada. Terei alguns exemplares guardados pro FIQ. As outras, ainda tenho bastante, e não faz muito sentido pra mim relançá-las agora. Talvez daqui uns anos, uma coletânea.

Tenho várias ideias, entre elas uma nova edição de Pieces. Mas quero ir com calma, pensando muito bem em cada projeto pra ter um ótimo resultado. É complicado quando existem muitas ideias, e pouco tempo pra realizá-las… Meu próximo compromisso é a versão impressa de Terapia [N.E.: Webcomic que fez sucesso ano passado e entrou na lista de melhores HQs de 2012 de O Grito!.]

O que você gosta de ler de quadrinhos? Quem te inspira?
Cau – Eu leio quase tudo! Colecionava HQ desde criança. Meu gosto foi mudando, claro, conforme ia conhecendo mais autores. Atualmente eu leio mais graphic novels e webcomics. As HQs de banca, especialmente de super-heróis, não me chamam mais a atenção… Sou muito mais interessado no quadrinho autoral, bem escrito, bem desenhado, expressivo, inteligente. Acompanho o trabalho de muitos autores, mas as maiores influências e inspirações vêm dos trabalhos de Fábio Moon, Gabriel Bá, Will Eisner, Craig Thompson, Rafael Albuquerque, David Mack, Darwyn Cooke, Jeff Smith, Adrian Tomine, Stuart Immonen, Laerte… São tantos autores! Como costumo falar pros meus alunos, a gente acaba criando uma grande sopa de influências, misturada à nossa vivência, cujo resultado influencia nosso trabalho.

Qual a lembrança mais remota de querer trabalhar como autor de quadrinhos?
Cau – Desde muito novo eu desenhava e criava historinhas, capas, personagens. E tive a sorte de ter pais que me apoiaram e incentivaram nesse objetivo. Acho que era uma visão inocente mesmo, e quando descobri mais sobre como é produzir uma revista de verdade, senti que não era tão fácil. Foi lá pela 5ª série, eu criava HQs de super-heróis com amigos e fui numa gráfica pra perguntar como era pra imprimir aquelas HQs. Foi um balde de água fria, mas ao mesmo tempo, aprendizado. Naquela época não deu certo. Vários anos depois, lá estava eu entrando na Front, e depois no Quarto Mundo.

DOM CASMURRO
Felipe Greco (texto) e Mario Cau (arte)
Editora: Devir Livraria, 2013
232 pági­nas em preto e branco
Preço: R$ 56 (brochura) e R$ 65 (capa-dura)

Serviço
Lançamento em São Paulo
Sábado, 23 de fevereiro, às 15h30 na Livraria Martins Fontes.

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