Fábio Moon e Gabriel Bá
Fábio Moon e Gabriel Bá em Recife, durante o FIHQ

CONTADORES DE HISTÓRIAS
Por Paulo Floro

O quadrinho independente nacional finalmente encontrou um marco. A publicação, em formato de fanzine xerocado da série 10 Pãezinhos, merece figurar como episódio importante na história de nossa HQ. Fábio Moon e Gabriel Bá, irmãos quadrinhistas de São Paulo, criaram a série em 1997 e hoje são reconhecidos no mundo com suas histórias sobre cotidiano urbano e por vezes, surrealista. Este ano a série completa 10 anos.

Atualmente, Moon e Bá tocam diversos projetos nos Estados Unidos e foram reconhecidos pela crítica especializada, culminando na indicação para o Eisner Awards, o maior prêmio da indústria de quadrinhos norte-americana e o maior em relevância no mundo. Mas o sucesso não apareceu do nada. Após a faculdade, assinaram vários trabalhos para diversas publicações, a maioria ilustração, entre elas a revista Recreio, da editora Abril. Após militar na independência, os irmãos lançaram álbuns por editoras brasileiras, entre elas a Devir e a Ediouro/Agir e conquistaram prêmios HQ Mix. Sua trajetória é ímpar. Subverteram a fórmula de sucesso que consagrou nomes brasileiros lá fora, como Mike Deodato e Ed Benes ao lançarem um trabalho autoral longe de editoras grandes como Marvel e DC.

Entre os trabalhos recentes da dupla estão a adaptação do conto O Alienista, de Machado de Assis, a série Umbrella Academy, desenhada por Bá, com roteiros de Gerard Way, vocalista do My Chemical Romance e Casanova, com roteiros de Matt Fraction, desenhados por Moon. O GRITO! conversou com os irmãos durante o FIHQ – Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco, onde eles ministravam oficina.

The Umbrella Academy
Cena de Umbrella Academy, de Gabriel Bá e Gerard Way


Já afirmaram em entrevistas que muitos leitores no exterior não sabem que o artista que estão lendo é brasileiro, como Deodato, Ed Benes. Como é a relação com o público de fora? Eles reconhecem o trabalho de vocês como sendo de “artistas brasileiros”?

Fábio Moon: Nossos títulos por mais independentes que sejam estão relacionados à gente como artistas. Não só como o cara que vai desenhar, mas como pessoa. Eu vou comprar aquele gibi porque o Fábio que faz ou porque o Gabriel que faz. Então disso veio a curiosidade de saber quem é o Fábio e quem é o Gabriel. A primeira coisa que eles [os fãs americanos] descobrem é que somos gêmeos (risos), e a segunda coisa que somos brasileiros. Quando iniciamos um trabalho e aparecemos para divulgar, as pessoas vêem com curiosidade, “olha lá os gêmeos”. Além disso, usamos o cenário de São Paulo, do Brasil, tudo isso são características marcantes que diferenciam nosso trabalho. O importante é que tudo foi feito pela gente, não desenhamos o Homem-Aranha e sim criações nossas.

Qual o primeiro contato que tiveram com quadrinhos? Podem contar alguma história?
Gabriel Bá: Putz!, acho que foi Mônica. Depois conhecemos Disney e então Mad, e só então super-heróis. Dos super-herois, descobrimos quadrinhos europeus, mais ou menos na mesma época que descobrimos Chiclete Com Banana e Piratas do Tietê. Junto com Mad, os livrinhos que tínhamos eram livrinhos de tiras, Garfield, Calvin e Haroldo. Acompanhávamos super-heróis quando fomos buscar coisas mais longas. Foi quando apareceram as primeiras Graphic Novels. Naquela época a gente comprava tudo que caía na banca.

E o que influenciou na formação artística?
Gabriel: O que influenciou foi desenhar e ler de tudo. Testávamos tudo, copiávamos Spy VS Spy, Angeli, Larte, Glauco. Fazíamos nossa versão com o desenho do Glauco, do Angeli, do Garfield e de um monte de gente. Com o tempo desenhar era cada vez mais natural e percebemos que era preciso desenhar sem ficar olhando os outros, e assim criamos nosso estilo. Ler Jorge Amado na escola também nos influenciou muito. Um bando de jovens com problemas em Salvador, e como éramos jovens pensávamos: “putz podia ser eu”. Aquilo nos marcou muito. Toda história que a gente lia nos livros tentamos passar para os quadrinhos.

Fábio: Tem também o Sherlock Holmes, com suas historias de quebra cabeça. A gente ficava montando as peças e tentando desvendar o final.

Alguma história sobre encontros com ídolos dos quadrinhos?
Gabriel: Foi muito bom a primeira vez que a gente conversou com Frank Miller. Estávamos publicando um livro chamado Autobiografix, com histórias autobiográficas e tinha uma história dele no livro . Como a editora era a mesma [Dark Horse Comics], ela mostrou nosso trabalho pra ele. Quando conversamos, ele já tinha visto nosso trabalho, nossas historias. Então, não falou como se fosse fã, ele conversou conosco como se fosse igual e disse: “Pô, eu vi sua historia, aquilo ficou bem legal, aquilo funcionou, etc” e foi muito bom conversar com ele de igual para igual. Quando encontramos Jeff Smith, ele sempre pára pra conversar conosco, presta atenção no que mostramos, lembra nossos nomes. Por isso tratamos com a mesma seriedade as pessoas que estão começando.

Os quadrinhos vendidos em livrarias cresceram muito. O que acham desse comportamento recente do mercado brasileiro de HQ’s?
Gabriel: Eu não acho que há perda de público. Mudou um pouco o público, porque são publicações diferentes. São tipos diferentes de historias que buscam outro público, então acredito que isso amplia ainda mais o alcance que os quadrinhos podem ter.

Vocês ainda publicam revistas, mesmo com álbuns lançados por várias editoras em livrarias, certo?
Gabriel: A revista que fazemos é independente, não vão pras bancas. São vendidas apenas em lojas especializadas e são feitas em quantidades pequenas, geralmente mil exemplares. Então não estamos buscando outro público. Queremos atingir todo tipo de público, mas é um tipo diferente de trabalho que envolve outro tipo de produção, tem outro tipo de venda. Às vezes, decidimos não esperar concluir dez histórias curtas para lançar um livro, a gente faz uma revista naquele momento. É independente por causa disso.

O que andam acompanhando?
Gabriel: Estávamos lendo Bone, que acabou. Acompanhava Strangers In Paradise, acabou. Lobo Solitário, que também acabou (risos). Estamos lendo agora Samurai Executor e eu 100 Balas, só que a publicação tá complicada, já que eu lia os livros, e agora só sai em revistas [A Opera Graphica publicava a série em álbuns de luxo. Ao adquirir os direitos, a Pixel decidiu recomeçar a série lançando em bancas no formato de especiais]. Não temos comprado muitas revistas de linha, em série, só mesmo álbuns e especiais com histórias fechadas.

Como foi a sensação de receber a notícia da indicação ao Will Eisner?
Gabriel: Foi muito bom! Foi uma surpresa enorme. A gente conheceu outros artistas americanos, então, um dia antes da indicação, um desses artistas falou que recebeu um email da organização e nos dava parabéns pela indicação. Até então não sabíamos de nada. Pensamos: “ele recebeu um email e a gente não, então acho que não fomos indicados”. Na manhã seguinte, fomos ver a lista dos indicados já desanimados. Quando vimos nossos nomes em uma das indicações foi uma puta surpresa! Inacreditável. Até agora eu ainda não to acreditando.

Mas vocês já ganharam muitos prêmios aqui no Brasil.
Gabriel: É, aqui no Brasil a gente ganhou muito prêmio HQ Mix e Angelo Agostini. Acho que é pelo fato de sempre fazer coisas novas que resulta nessa valorização. E o publico reconhece o trabalho.

Meu Coração, Não Sei Por Quê.
As duas capas do álbum Meu Coração Nao Sei Porque. À direita, a segunda edição

Fala um pouco sobre Umbrella Academy.
Gabriel: O gibi foi pras bancas norte-americanas hoje, ainda não sei como foi a resposta do publico. Com relação ao falatório em torno do Gerard Way como roteirista, acredito que isso ajuda a criar uma expectativa muito grande para a série, sobretudo porque se espera muito dele, ao mesmo tempo em que se tem uma expectativa que seja uma decepção porque ele é músico. A história é legal e acho que vai surpreender muita gente.

O que acha da música do My Chemical Romance?
Gabriel: Eu não gosto muito não. Não é meu tipo de musica. É bem feita, mas não sou fã das temáticas das letras. Tem só uma música que achei legal, uma das últimas porque é a mais animadinha. E tem uma influência de rock que me agrada mais. As outras não gosto.

O que vocês ouvem?
Um pouco de tudo. Cartola, Strokes, Lily Allen, Chico Buarque. Ouvimos também muita musica clássica porque é mais calma e não interfere tanto. É bom pra relaxar, e não nos envolvemos com a letra. Quando pensamos na letra, não prestamos atenção no trabalho.

Ei ia perguntar justamente isso. Vocês escutam música enquanto trabalham?
Gabriel: Não muito. Quando trabalhamos juntos sempre estamos conversando, dando opinião no trabalho do outro e pra isso a gente tem que parar a música. Não dá pra trabalhar de walk man também por causa disso. Toca muito telefone lá no estúdio então a gente tem que parar o tempo todo pra atender. São esses motivos que não escutamos muita música pra trabalhar.

Mesmo sendo uma adaptação literária, O Alienista tem muito do estilo pessoal de vocês. Como foi a construção do álbum?
Gabriel: No caso do Alienista a história era muito legal e já estava muito bem resolvida. Só mudamos um pouco a ordem em que as coisas aconteciam. Nossa influência e nossa marca em cima da história ficou mesmo na diagramação e no jeito de contar a história. Tínhamos muito pano pra manga. Adaptamos um conto que tinha umas 20 paginas e ficou uma historia de 60. O texto original era bom, não era um português arcaico ininteligível, então deu para usar o texto no original, mudando pouca coisa. Machado de Assis é um cara que narra muito, descreve muito as coisas e a gente tinha que ter uma fala de vez em quando. Muito do que era descrito a gente mostrou em imagens. Então nosso estilo foi importante nisso: saber o que podia transformar em imagem e saber aproveitar o texto ao máximo.

Qual o futuro do quadrinho nacional?
Gabriel: Não faço a menor idéia. Mas acredito que teremos mais quadrinhistas, estamos numa boa fase, com mais gente que tá dando a cara pra bater sem se importar muito com “ah não vai dar pra ganhar dinheiro, vamos fazer outras coisas entao”. Temos também uma variedade muito grande de quadrinhos estrangeiros sendo publicado aqui, então as pessoas vêem que existe outro tipo de quadrinhos e que é possível fazer, criar e produzir coisas diferentes. Vem mais coisas por aí, mas vai crescendo aos pouquinhos. Não vejo nenhum milagre acontecendo num espaço curto de tempo.

Novidades sobre os dez anos de 10 Pãezinhos?
Gabriel: Estamos produzindo segundas edições de todos os livros que já estavam esgotados (Meu Coração, Não Sei Porque, O Girassol e a Lua, Crítica), todos com uma capa nova, menos o Crítica. Vamos fazer uma edição especial com as historias curtas que tinham nos fanzines porque são histórias que quase ninguém viu. Eram só umas cem cópias e apenas amigos da faculdade compraram. Vai servir para mostrar que tudo começa pequeno e ruim e vai evoluindo com o tempo. Também vai servir para mostrar nossas influências e o que aconteceu na nossa vida naquela época e como isso refletiu no nosso trabalho. O livro deve ficar pronto em outubro ou novembro.

Já conheci pessoas que não costumam ler quadrinhos, mas curtem o trabalho de vocês. Nesses mais de 10 anos, conseguiram traçar um perfil de seus leitores?
Gabriel: Não muito. Quando a gente cria algum quadrinho, pensamos muito no publico que não lê quadrinhos, por que o mais importante pra gente mesmo é a historia. Pensamos em quem não está acostumado com a linguagem. E contamos histórias que gostamos de ler em livro, ver em filmes e qualquer pessoa possa se identificar.

Estúdio de Moon E Bá
Local de trabalho de Moon e Bá, no estúdio dos dois em São Paulo

COMICS DO CORAÇÃO
Os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá escolhem os melhores autores de quadrinhos americanos

JEFF SMITH
Criador de Bone
“Ele fez as coisas do jeito dele e conseguiu seu público. Mostrou que tem como produzir de forma independente”

TERRY MOORE
Autor de Estranhos no Paraíso
“Depois de muito ralar, Moore só faz quadrinhos. E isso é incrível, viver com sua forma independente de produção.”

WILL EISNER
Criador de Spirit e autor de Avenida Dropsie
“Ele fazia o Spirit e então decidiu fazer coisas mais sérias, que abordassem os subúrbios, a pobreza. Criou o termo romance gráfico, é um gênio”

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