Emilio Fraia (Foto: Divulgação)

POR UM MUNDO VIVO E PULSANTE
Por Rafael Dias

Jornalista e escritor de fama razoável na blogosfera, Emilio Fraia é apontado como um das apostas da literatura contemporânea. Nascido em 1982, esse paulistano publicava contos no finado zine literário on line Givago, do qual foi editor por seis anos. Escreveu várias reportagens como repórter e editor de literatura da revista Trip. Hoje colabora para a revista Piauí. Mas nunca havia publicado um livro, estréia que se concretizou este ano. E que estréia. Na última Flip, encerrada esta semana, Fraia lançou O Verão do Chibo (Alfaguara/Objetiva), escrito a quatro mãos com Vanessa Bárbara, editora do almanaque virtual A Hortaliça.

Não é a primeira vez que Emilio Fraia participa da Flip. Em 2004, junto com Vanessa Bárbara, fez parte da oficina de para jovens autores conduzida por Milton Hatoum. A idéia de escrever o livro veio no ano seguinte. Com fortes elementos de sondagem psicológica, O Verão do Chibo une mistério e fantasia em uma história sobre um menino que, num verão atípico, percebe todos seus amigos desaparecerem. Pela narrativa poética, o livro remete a O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger. “…(É) a história de um mundo em que a imaginação tenta resistir frente a figuras mortas e empalhadas”, diz Fraia. Leia abaixo a entrevista concedida pelo autor por e-mail, logo após voltar de Parati.

Como foi na Flip? O glamour e os holofotes que geralmente cercam as festas literárias e desvirtuam do debate literário em si o incomodam?
Em 2004, eu fiquei num albergue cuja televisão (coletiva) ficava 24h ligada em um programa sobre o acasalamento de emas. Ou seja, voltar a Flip na condição de convidado foi um avanço supreendente. Mas quando o assunto é literatura, me sinto mais à vontade no meu quarto, escrevendo, respondendo às perguntas por e-mail. Ao vivo, principalmente quando não se tem muito tempo, as palavras diminuem tudo o que é importante. As coisas importantes ficam esturricadas e caem (para o lado esquerdo, ploft). Em debates ou entrevistas ao vivo, o corpo nos prende a um certo estilo – que é inescapável. E existe a expectativa. Se esperarmos “literatura em si”, encontros literários podem ser angustiantes. Mas essa é justamente uma das razões que me fazem amar a Flip (além de Parati ser uma cidade muito charmosa). O Bioy Casares dizia que a vida é uma coisa, a literatura é outra. Embora a frase seja meio tola (a literatura nasce de vivências muito íntimas e guarda vínculos imensos com a história e o real), ela cai muito bem para eventos literários. É ótimo ver os autores de perto, escutá-los, vê-los falando, gesticulando. Mas a literatura está nos livros. Parece óbvio, mas saber disso nos deixa muito livres pra poder curtir a festa, encontrar os amigos e tropeçar sem limites pelas pedras.


Emilio Fraia e Vanessa Bárbara (Foto: Divulgação)

Escrever a quatro mãos multiplica a “polifonia” do texto, ou subtrai a solidão e as incertezas da escrita?

O Henry James tem um conto, “Os amigos dos amigos”, em que um homem e uma mulher nunca se encontram. Os amigos tentam apresentá-los, mas tudo falha. Quando um entra, o outro sai. Escrever em dupla é mais ou menos assim. Cenas e personagens nascem quando um dos dois tira uma soneca, e é preciso tentar entender o outro – o que nem sempre é fácil. Encontramos o tom no decorrer das páginas, quando o nosso narrador (o caçula da história) decidiu falar com a gente. A partir daí, fomos escrevendo sem rumo, sem discutir o enredo – e fazíamos sempre por e-mail, sozinhos, sem saber no que aquilo ia dar. Em uma das cartas, o Flaubert escreveu: “nosso coração não serve senão para sentir o coração alheio”. Embora o livro tenha sido escrito em dupla, nossa preocupação mesmo era tentar recriar a sensibilidade deste nosso narrador muito específico. Acho divertido tentar encontrar, a partir de certos procedimentos de composição, um estilo que possa combinar com um narrador. Não tenho a menor vontade, por exemplo, de ter um estilo tão particular que não me permita fazer isso. Cada história pede um jeito de narrar. Nesse sentido, a escrita em dupla não poderia chamar a atenção sobre si, queríamos que o leitor se concentrasse única e exclusivamente no mundo que importa, que é o dos nossos personagens, o Chibo, Cabelo & Cia.
Resolva este nó: o novo escritor não se faz ler pelos seus leitores ou são os leitores que não os lêem?
Um livro só existe quando é lido. E a literatura são sempre modos de ler (o Roberto Schwarz, que é um leitor e tanto, mostrou isso na abertura da Flip, quando falou sobre como as leituras de Dom Casmurro mudaram com o passar do tempo). Todos querem ser lidos, claro. Quando se lança um livro há as entrevistas, as resenhas. Se as pessoas gostam, elas comentam com as outras. Não dá pra fazer muito mais do que isso. E acho que está bom.

O Verão do Chibo tem uma história intrigante: um garoto que, entretido em brincadeiras, percebe o sumiço de todos ao redor. A metáfora tem alguma ligação com o cotidiano? Como nasceu o argumento do enredo?
A gente pensou em fazer uma história que começasse com um tiroteio de balas de goma. Daí achamos que só uma criança poderia narrar (de forma confiável) um tiroteio de balas de goma. Partimos também de uma idéia de que as coisas mais importantes são sempre as mais difíceis de se expressar. O livro foi evoluindo e começou a ser também uma história de morte, a história de um mundo em que a imaginação tenta resistir frente a um exército de figuras e sentimentos mortos e empalhados.

Que autores (livros) põe em sua prateleira mais acessível?
Os contos do (Juan Carlos) Onetti, principalmente o “Esbjerg, na costa”; o Gordon Pym, do (Edgar Allan) Poe; todo (Gustave) Flaubert; Os filhotes, do (Mário) Vargas Llosa; Palmeiras selvagens, do (William) Faulkner, que eu li na praia; o (Julio) Cortázar, que escreveu as coisas mais bonitas; (J.D.) Salinger; (Adolfo) Bioy Casares; o Robinson Crusoé; a Ilha do tesouro; os poemas do Drummond; a Carmen, do (Prosper) Mérimée; as histórias do Calvin e do Haroldo; um manual sobre construção de casas na árvore; e o livro Você tem muito o que aprender, Charlie Brown!

Pensa em retomar o projeto de fazer um e-zine? Quais seus planos?
Meu plano agora é jogar futebol com os meus amigos na quinta-feira.

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