NOSTALGIA FRENÉTICA
Com uma capacidade inata de escrever canções que refletem a contingência das relações humanas aliada a uma teatralidade multifacetada, português David Fonseca traz seu pop ao Brasil

Por Pedro Salgado
Colaboração para a Revista O Grito!, em Lisboa

“As minhas canções têm muitos elementos do passado, falam de olhar para trás, mas, por outro lado, têm o reverso da medalha e essa ideia meio louca de fugir do cantautor, da guitarra acústica e de agitar um pouco as coisas em cima do palco”. A forma encontrada por David Fonseca para definir a sua música liga-se ao existencialismo moderado pela relatividade das emoções humanas que habita as suas canções.

Já tinha sido assim com a banda Silence 4 que liderou durante cinco anos e que alcançou a quíntupla platina em território português com o disco Silence Becomes It, muito por culpa da música “Borrow” e de uma cover de “A Little Respect” do Erasure. Com o fim do grupo, o músico de Leiria iniciou uma carreira solo em 2003, tocando praticamente todos os instrumentos no primeiro disco solo Sing Me Something New.

Do álbum de estreia recordam-se a balada épica, abordando um desarmante amor não correspondido: “Someone That Cannot Love” e, principalmente, a grande pérola do disco, “The 80´s”, símbolo do gosto pela música dos anos 80 traduzida numa faixa eletrizante e muito dançável com um refrão que grudou: “Dance, dance, dance like I was sixteen”.

Um ano depois, David Fonseca emprestou a voz e pôs à prova o seu cunho multi-instrumentista no projeto “Humanos”, numa parceria com Hélder Gonçalves e Manuela Azevedo dos Clã, e do fadista Camané, recuperando com sucesso algumas músicas não editadas do mítico cantor pop António Variações.

Com a edição de Our Hearts Will Beat as One o antigo vocalista do Silence 4 alcançaria o primeiro lugar do top de vendas português através de hits como “Who are U” e a balada em dueto com Rita Redshoes: “Hold Still”. Tão ou mais importante do que esse feito seria a nomeação, pela terceira vez, do original clipe da faixa título para o MTV European Music Awards, em 2006.

O passo seguinte, Dreams In Colour, mostrou que o músico de Leiria poderia conferir mais vivacidade à sua escrita de canções. Percorrendo o disco descobria-se uma pop colorida e vívida expressa na faixa romântica a meio gás, “Kiss Me, Oh Kiss Me”, uma inteligente construção à medida da sua voz grave, “Superstars II” (primeiro clipe dirigido por Fonseca), a revisitação elegante do clássico de Elton John, “Rocket Man”, e a fenomenal “This Wind, Temptation”.

Saboreando a platina de Dreams In Colour, David Fonseca tocou em Atenas para o lançamento da MTV grega, em 2008. No mesmo ano, o disco obteria edição em Espanha, Itália e Grécia, o seu DVD 12.04.08 Coliseu Dreams In Colour Live repetiria o sucesso da edição discográfica e assinaria boas atuações como abertura da banda Keane em Espanha.

Between Waves, de 2009, é o seu mais recente trabalho e traduz a maturidade composicional do músico de Leiria, revelando vivências iniciadas no sucesso, animado pelas cordas, de “A Cry 4 Love”, na comoção latente de “U Know Who I Am” e desdobrando-se na pop contagiante de “Stop 4 a Minute”. Se as canções são a parte de do êxito de David Fonseca, os seus shows não são menos irresistíveis e memoráveis.

O mesmo homem que atuou três vezes consecutivas no Festival South by Southwest, em Austin, no Texas, e fez quatro apresentações na Espanha é o responsável por performances de teatralidade e pura interação com o público como na recente “U Know Who I Am – One man, a thousand instruments and a Polaroid camera”, em que as suas histórias da adolescência acompanham o desfilar de hits e temas menos conhecidos, numa postura de ‘one man band’, onde um palco parcamente iluminado com lâmpadas suspensas é habitado por um piano e fotos Polaroid de várias sessões.

Brasil e novidades
A presença do multifacetado artista português no Brasil não se resumirá ao show de 2 de Outubro no palco Sunset do Rock In Rio. Pelo contrário, já em Agosto David Fonseca iniciará diversas atividades promocionais que incluirão entrevistas para imprensa (“Rolling Stone” e “Folha de São Paulo”), rádio e televisão (“TV Globo News” e “Mix TV”), no Rio e em São Paulo, e algumas atuações na TV.

Paralelamente, será editada a 12 de Setembro uma edição exclusiva do CD Between Waves para o mercado brasileiro, incluindo as 11 músicas originais do disco e cinco faixas extra retiradas dos álbuns anteriores: “Someone that Cannot Love”, “The 80’s”, “Who are u?”, “Superstars II” e “Kiss Me, Oh Kiss Me”. Em formato digital, será disponibilizada toda a discografia.

Finalmente, o músico fará shows entre 4 e 8 de Outubro com passagens por São Paulo (Estúdio SP), Porto Alegre (Opinião), e aguardam-se confirmações de locais para shows no Recife, Belo Horizonte, Curitiba e/ou Brasilia. O regresso a Lisboa do cantor português está previsto para Maio de 2012. Sobre a sua participação no Rock In Rio 2011 do Rio de Janeiro e diversos aspectos relacionados com a sua carreira David Fonseca falou com a Revista O Grito! , em Lisboa.
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Como surgiu o convite para tocar no Rock In Rio 2011 do Rio de Janeiro ?
As coisas foram acontecendo ao longo dos anos, não era a primeira vez que tínhamos um contato para poder atuar, mas principalmente na versão lisboeta do evento. Por um número imenso de condicionantes acabamos por nunca lá estar, razões de calendário, ou lançar um disco. Finalmente, quando aqui chegamos acabaram por se cruzar uma série de ideias que o Zé Ricardo da organização do Rock In Rio, e especificamente o palco Sunset, tinha sobre o que pretendia fazer nesta edição. Ele falou comigo e perguntou-me se eu estaria disponível para uma colaboração com a banda espanhola The Monomes. E eu achei que seria uma incrível oportunidade de pisar o solo brasileiro com a minha música, uma espécie de porta maravilhosa e foi um convite que imediatamente aceitei.

Quais são as suas expectativas para essa atuação?
Vou tentar fazer o melhor espetáculo que conseguir. É uma ideia presente em todos os meus concertos. Ao longo de todos estes anos em que faço música em Portugal tenho tido por diversas vezes, e por várias formas, um feedback muito positivo do Brasil. Nem consigo calcular quantas vezes me disseram para eu fazer shows lá. Por isso eu espero que muitas dessas pessoas, que me foram dizendo coisas positivas, estejam presentes nesse evento e nas minhas outras datas brasileiras. A expectativa é só de curiosidade, porque não sei o que esperar, mas depois da segunda ou terceira atuação já terei uma ideia mais aproximada.

Qual é o seu conhecimento da nova cena musical brasileira?
Não tenho uma ideia muito clara sobre os novos valores musicais. Os artistas brasileiros com que me sinto mais ligado são a Marisa Monte, Caetano Veloso e o Chico Buarque um pouco também. A minha ligação à cena brasileira atual não é forte porque não tenho muito contato com ela quanto gostaria, mas se houver oportunidade de conhecer melhor o que se passa será in loco, nas visitas que irei fazer, e aí ficarei com uma ideia melhor das novas vozes e talentos emergentes, e julgo que devem ser imensos, porque o Brasil é um país muito musical com coisas incríveis para apresentar.

Uma das suas canções mais emblemáticas é “The 80´s”. Compôs a música numa ótica revivalista ou houve mais alguma ideia associada?
O tema foi escrito depois de uma noite numa discoteca de Lisboa em que só passava música dos anos 80. Lembro-me de sair de lá e pensar que existiam muitas coisas a funcionar na música desse período e eram algo curiosas, possuindo tiques e ganchos comuns entre si. Pensei que seria curioso falar, num tema, sobre essa década, porque foi a fase em que eu descobri a minha paixão pela música e onde vivi a minha adolescência (na passagem dos anos 80 para os 90). Era interessante escrever uma faixa que falasse da sensação de descoberta que senti na altura. É um pouco revivalista, mas como sinto uma grande paixão por esse período achei que não tinha mal nenhum.

A sua música evoluiu muito ao longo dos anos. Como a relaciona agora comparativamente com o trabalho no Silence 4?
Algo distante. Sinto que a forma como a minha banda começou era muito diferente da forma como trabalho hoje. Para já, porque havia uma certa inocência à volta daquilo. Quando começámos o Silence 4 estávamos muito longe de pensar que faríamos da música profissão e de perceber o que significava estar em palco. Tudo surgiu sem nenhuma experiência ou entender o que viria a seguir. O que eu fazia na altura era produto de um começo e as canções do grupo foram escritas por mim quando tinha 18, 19 ou 20 anos e depois transportadas para o conjunto. Hoje sou uma pessoa muito diferente dessa quase adolescência musical, as canções são diferentes e o que me move são outros factores. A única coisa que eu retive é a ideia da novidade: a paixão pelo local de ensaio e as primeiras vezes que toco as músicas e as gravo. É sempre importante não perder o espírito de criança que mexe nos botões para ver como funciona a máquina. De resto, houve muita coisa que mudou como fruto da experiência.

Para quando está previsto um novo trabalho seu?
Costumo dizer, e é totalmente verdade, que quando acabo um disco já estou a trabalhar no próximo. Este ano não será seguramente porque fiz uma digressão muito longa e fiz outra turnê solo no meio desta, em Portugal e em Espanha. Provavelmente só irei pegar em novo material em 2012. Não gosto muito de planear as coisas, uma vez que isso tira a espontaneidade à criação. De qualquer modo, editando o novo trabalho para o ano quebrarei a minha tradição de lançar um disco de dois em dois anos.

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