VAMPIROS DO SUL
por Paulo Floro

O Rio Grande do Sul volta a surpreender com a nova sensação do underground de Porto Alegre, o Damn Laser Vampires. Formados pelo casal de ilustradores Ronaldo Selistre (vocal e guitarra) e Francis K (guitarra) e o baterista Michel Munhoz, a banda pratica um rock maldito que mistura rockabilly, polca e new wave.

O primeiro disco, lançado ano passado, incluia um fanzine feito pela própria banda, que também confeccionava os CD’s. A existência do DLV é baseada numa experiência estética que vai dos shows, passando pelo figurino até, é claro, as músicas. Esta originalidade conceitual é o principal diferencial da banda, que planeja relançar o disco Gotham Beggars Syndicate em breve.

O trio participou da trilha sonora do filme Ainda Oragontangos, de Gustavo Spolidoro, que será exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo este ano. O GRITO! conversou com o vocalista Ronaldo Selistre sobre quadrinhos, rock glam demoníaco e independência.

O GRITO! – Como foi a construção dos conceitos (sonoro, visual, temático) da banda?
Ronaldo Selistre – É uma tradução natural das nossas esquisitices pessoais. Nada na DLV foi “planejado” no sentido, digamos, corporativo; não tivemos uma intenção de direcionar coisa alguma – pelo menos nada relacionado ao visual ou à sonoridade. Se uma cor ou um símbolo está ali, numa ilustração, numa capa, é simplesmente porque nos agrada. Se fôssemos fãs de reggae, provavelmente ostentaríamos dreadlocks e camisetas amarelas. É identificação natural. Gostamos da idéia de sermos guiados por uma espontaneidade irresistível.

Vocês eram desenhistas de quadrinhos. Ainda acompanham a cena underground de HQ´s? O quanto isso foi importante para o surgimento da banda?
Da cena brasileira atual de quadrinhos independentes não conhecemos muito além do que está nos sites (como o Nona Arte, por exemplo). Não existe um mercado pras pessoas publicarem, e sim um monte de editores indecisos morrendo de medo de investir, por isso não acho que deveremos ver uma safra de novos talentos nas bancas tão cedo. Com um panorama desses você acaba conhecendo mais o que os estrangeiros produzem do que o que é feito no seu próprio país.

Dessa forma nós fomos fortemente influenciados (e eu digo num sentido musical também, num sentido amplo) por gente como o Daniel Clowes, os irmãos Hernandez, o Daniel Torres, o Charles Burns. É o nosso background, são os artistas que nos forneceram – e fornecem, sempre – a nossa matéria-prima.

Todo esse visual glam rock, demoníaco, como vocês são fora dos palcos? O que fazem?
Fora as missas negras, os banhos de sangue, as orgias? Se limpar com a Bíblia, e tal? Ah, fora isso somos normais. Trabalhamos, dormimos, vamos às festas. Escondemos nossos excessos, como quase todo mundo. Somos com certeza menos nocivos do que deveríamos, falando de costumes e padrões… mas não é algo com que a gente se comprometa.
Posso confessar que talvez não tenhamos um comportamento, digamos, inteiramente normal, mas acho que nada que ultrapasse muito o conceito de “pessoas livremente criativas”. Pergunte a qualquer um que nos conhece e… hmm, melhor não. Deixa pra lá.

E não vou nem vir com aquele papo de “oh, mas a música é mais importante”, porque pra nós o visual e o som têm igual importância

A Francis parece o vocalista do The Cramps. Como é a construção do visual de vocês?
Acho que você está determinado a descobrir alguma coisa (risos)… Estamos falando do figurino, certo?

A Francis adora brilho, tem um gosto por luzes vermelhas refletindo em paetê, essas coisas (risos). Acho que boa parte do apelo visual dos shows vem dela. O Michel e eu, como somos o “núcleo testosterônico” (risos) da banda, ficamos no preto-e-branco. No visual geral, preferimos valorizar sombras, luzes indiretas, não só porque isso fortalece a nossa identidade, mas porque sentimos falta desse jogo de cena. É uma parte integrante do que fazemos. E não vou nem vir com aquele papo de “oh, mas a música é mais importante”, porque pra nós o visual e o som têm igual importância.

Claro que, como se trata de uma banda de rock, o visual não fala por si só; mas isso na minha concepção não torna a música suficiente – ela é um elemento atraente num quadro. É a voz do monstro, mas o monstro tem uma cara, também. Tem uma cor, uma forma. Uma história. Esse é o ponto que nós defendemos como identidade.

Talvez seja aquele monte de “tiques” que você adquire tendo trabalhado com imagem por tanto tempo, especialmente com HQ – ou talvez seja essa inclinação que muitos cultivam por encarar o rock como algo mais influente e determinante na vida do que ele realmente deva ser; mas é o que somos, é o nosso modo de expressar.

Como é um show de vocês? Quando outras cidades do país poderão conferir o show?
É um momento bem intenso. Gostamos de tocar muito alto. Adoramos as rodas punks, quando o clima esquenta e os sujeitos começam a voar, é ótimo. A gente mantém como linha característica que se trata de um show de rock, então nos concentramos nas músicas e em passá-las de modo que fiquem guardadas na memória daquelas pessoas. Não sei bem qual a expectativa de alguém que está indo ver um show nosso, se espera ver alguém cuspindo fogo, ou se masturbando com a guitarra ou sei lá; esse tipo de atuação a gente deixa pras bandas de arena (risos). Na verdade é uma performance de um trio de instrumentistas num ambiente teatral. Tocamos nossas polkas e psychobillies, mostramos algumas versões de Misfits, Toy Dolls, Johnny Cash.

Temos cada vez mais sido intimados a levar o show pra outros estados. Está mais próximo de acontecer, é o que eu posso dizer. Queremos poder viajar com o disco, e o momento do lançamento está chegando, então vai ser muito melhor.

Da esquerda para direita: Ronaldo Selistre (voval e guitarra), Michel Munhoz (bateria) e Francis K (guitarra)

Vocês trilham um caminho contrário ao de várias bandas que surgem no cenário independente. Como analisam a receptividade do trabalho de vocês fazendo um som tão incomum?
Essa pergunta tem várias respostas, mas elas passam por tantos fatores… pra mim a resposta que interessa é: as expressões autênticas recebem reconhecimento. Se por um lado existe todo um circo de gêneros e estilos se estapeando pela atenção das massas, por outro há um fluxo constante de criatividade que não vive das mesmas fórmulas, nem se alimenta (e nem depende) das mesmas regras. E seria muito fácil pra gente arquitetar uma aproximação de uma determinada tendência que tenha mais, digamos, aceitação, com o objetivo de sobreviver a um mercado; isso é livremente praticado e, quem sou eu pra criticar? O caso é que somos espontaneamente do contra. Na minha cabeça não existe muito espaço pra quem está certo ou quem está errado, a única medida de erro ou acerto é a satisfação pessoal. Neste exato momento estamos muito à vontade com a nossa bizarrice.

As influências são curiosas: punk, new wave, psychobilly e polka!
Pois é, e nada disso nos parece antagônico. É aí que os instintos berram, entende? Se você coloca em palavras, são gêneros que receberam nomeações, que precisaram ser definidos de modo racional; você sabe o que é a new wave, o que é o psychobilly, e por aí vai. Você ouviu antes, você leu sobre eles. E quando ouve falar que alguém mistura essas coisas, isso automaticamente parece não combinar, por causa daquela avalanche de símbolos que vem atrelada a cada um desses gêneros. Mas quando você ouve o resultado pronto, está tudo ali. E aí dá pra entender como é que o rock age nos centros nervosos, como é que o punk te dá aquela energia, aquela vontade de libertar o monstro. Polka pode ser punk, perfeitamente. Nós costumamos nos encarar como uma banda punk, isso pra nós é a coluna vertebral.

Como foi a participação no filme do Gustavo Spolidoro?
Foi muito, muito divertido. Fomos indicados pelo Rafael Ferretti (que é diretor de cinema, de publicidade e também de videoclipes), que tinha visto shows nossos no Mosh. Recriamos uma música da Atahualpa Y Us Panqui e uma dos Cascavelletes (“Morte Por Tesão”), e ainda tivemos incluídas “Graveyard Polka” e “House of The Flying Bottles” (que é uma polka que rola inteirinha nos créditos finais). O Spolidoro é exímio conhecedor de punk, não só da música, mas da cultura, da mitologia do punk, e essa visão transparece no trabalho dele. Em junho assistimos o filme em Porto Alegre, numa sessão privada para a equipe, e ficamos boquiabertos… ok, não se pode dizer que eu sou a pessoa mais imparcial pra falar desse filme, estamos afetivamente ligados a ele. Mas você reconhece um cult quando vê. Ficamos sabendo que ele vai passar na Mostra Internacional de Cinema de SP, em outubro, e no Festival do Rio, ainda este mês.

Neste exato momento estamos muito à vontade com a nossa bizarrice

Planos para lançamento do primeiro CD de vocês? O fanzine virá novamente encartado?
O zine impresso parou de ser produzido. Ele virou meio que uma peça rara, não imaginávamos que ainda se estivesse falando sobre ele. O motivo de termos parado de produzi-lo foi de ordem prática, mesmo. Era um zine de vinte páginas, com todas as letras do disco, a impressão era bem decente e por isso ele não saía muito barato, o que fatalmente se refletiria cedo ou tarde no preço do disco independente – e isso a gente não queria. Paralelo a isso, o nosso equipamento começou a fazer cópias defeituosas do disco, o que nos obrigava a substituir as cópias que tinham sido compradas… foi então que procuramos um selo pra fazer essa mão e encontramos a Pisces. Nessa nova edição não há planos de incorporar o zine, porque o trabalho gráfico do disco inclui as letras, também. O encarte, assim como o zine, foi feito pela Francis.

Qual o projeto a longo prazo do Damn Laser Vampires?
Desaparecer numa nuvem de fumaça, um dia, quando não estivermos mais nos divertindo.

Mas não há pressa… antes, bem antes, teremos novidades – posso dizer que algumas delas estão ligadas a vídeo. Estamos com idéias que não vão nos deixar em paz enquanto não as atendermos, é um inferno

Contato:
Site: Damnlaservampires.com
Myspace: Myspace.com/damnlaservampires
Fotolog: Fotolog.com/dlvampires

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