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Foto: Kiane Lobão/Divulgação.

No ano passado o quadrinista Felipe Nunes despontou como um dos destaques da nova geração de autores de quadrinhos no Brasil. O seu aclamado Klaus (Balão Editorial) tratava da adolescência e todas as dificuldades dessa fase da vida com sensibilidade e entrou na nossa lista de melhores de 2014. Neste ano ele venceu o HQ Mix na categoria melhor novo talento – desenhista. Com apenas 20 anos, a expectativa para seu novo trabalho segue em alta.

Nunes lança agora Dodô, HQ que mostra a relação de uma garotinha com um misterioso pássaro que aparece em sua casa. A obra já está à venda online e será lançada também no Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), que acontece em Belo Horizonte, em novembro. A HQ aborda temas bem delicados, como a separação dos pais e o abandono de crianças. “Quando vi que existia um espaço pra abordar um tema familiar difícil, fiquei ainda mais atraído com a história”, explica.

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Conversamos com Felipe Nunes sobre este seu novo trabalho, as dificuldades em trabalhar dentro do universo infantil e de como ele se vê dentro da atual fase da HQ autoral no Brasil. “Tem muita gente nova e com um potencial absurdo produzindo. Há 10 anos não tinha uma concorrência tão pesada.” Veja o papo:

O Grito! – Seu novo livro, Dodô, utiliza o universo infantil, mas a atmosfera é densa e quase melancólica. Como surgiu a ideia da HQ?
Felipe Nunes – Surgiu de uma maneira extremamente despretensiosa, quando estava na semana pós-CCXP pensando no que faria no ano seguinte. Daí só olhei pro quintal e imaginei como seria massa se surgisse um dinossauro das plantas. Costumo ter uma fissura em dinossauros e não é incomum pensar neles em vários momentos do dia em ocasiões diferentes, hahah. Desse ponto imaginei como seria massa pra uma criança encontrar um animal desse no quintal de casa. Desse ponto a ideia evoluiu bastante, a princípio imaginava tentar um livro infantil super despretensioso, mas a história foi crescendo dentro de minha cabeça e comecei a fazer conexões e cheguei nisso. Quando vi que existia um espaço pra abordar um tema familiar difícil, fiquei ainda mais atraído com a história. No Klaus eu já havia abordado relações familiares e achei interessante tentar tratar um outro tema que girasse em torno disso. O quadrinho acaba sendo melancólico, mesmo. Não sei te dizer o motivo ao certo, mas acho que não dá pra falar de separação de pais sendo fofo e simpático, fingindo que todo mundo ficou ótimo com tudo isso. No fundo, alguma parte vai se machucar com essas coisas.

O que Dodô tem de sua própria infância? Você buscou algum traço autobiográfico para construir a história de Laila? Ela se parece com você de alguma forma?
Dodô tem muito de mim. Muito mais que Klaus, eu acho. Sou filho único e também brincava muito sozinho, mas sempre achei isso muito divertido. Tive minha mãe e meus avós convivendo comigo durante minha infância e nunca fui uma criança triste e desapontada. O quadrinho tem vários elementos que vivi, mas de abordagens e proporções bem diferentes, acredito. Foi bem bom pra mim escrever sobre tudo isso porque a gente acaba matando alguma mágoa que tem quando a gente se extrai do problema e tenta enxergar tudo de um ponto de vista mais frio, me preocupando mais com o enredo do que com a temática em si. Da mesma maneira, acho que ela tem muito de mim, sim. Me preocupei muito em tentar não construir estereótipos MUITO grandes na história e acho que todas as reações e diálogos que Laila tem ali não restringem a história pra uma abordagem que só afete meninas. por exemplo.

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E mesmo assim, o quadrinho não fala só comigo, que vivi muitas coisas semelhantes, mas com muita gente da nossa geração. Esse é um outro ponto de inspiração bem forte, acredito. Em nossa geração é cada vez mais comum que pais se separem, que mães criem seus filhos sozinhas, que pais vivam bem mesmo separados, e isso ajuda bastante em o público se identificar mais com os dramas dos personagens que desenhei ali.

Outros autores já disseram ser desafiador escrever personagens crianças. É mesmo mais difícil criar histórias protagonizadas pelos pequenos?
Não sei, Paulo. Gosto desse desafio de trabalhar com personagens que não tem controle sobre suas ações. Crianças são muito dependentes dos pais e isso sempre dificulta os desejos delas. Ela não sai de casa sozinha, ela não pode tomar banho sozinha, ela pode querer fazer algo – mas a chance dos pais não permitirem é grande. A personalidade delas é construída com essas aceitações e frustrações e isso é muito, muito atraente pra se trabalhar, no meu ponto de vista. Acho que o Dodô tem bastante disso. A Laila é uma boia que flutua nesse oceano caótico da casa dela. Ela pode tentar reagir e assumir as rédeas disso, mas é impossível, já que não tem controle nenhum sobre nada. Então são focos diferentes e é uma maneira menos utópica de abordar personagens. Mesmo assim, não me vejo fazendo crianças a vida toda. Acho interessante lançar duas histórias com crianças na sequência e talvez ainda faça mais algumas ao longo do meu trabalho, e isso, ao meu ver, ajuda a construir um público com essa continuidade, abordagens semelhantes. propostas parecidas e etc. Mesmo assim, acaba sendo um limite e uma barreira de conforto.

Cena de Klaus, que revelou Felipe Nunes. (Divulgação).

Cena de Klaus, que revelou Felipe Nunes. (Divulgação).

Você costuma ler livros e HQs infantis? O que tem de mais interessante nessas produções?
Cara, vou te dizer que leio muito pouco. Acho bem interessante de tentar fazer um dia algo voltado diretamente pra esse público.

Em relação ao processo de produção, o que mudou entre Klaus e Dodô?
Muita coisa, Paulo. No Klaus, eu tinha o roteiro todo pronto, redigido como uma peça de teatro, quando fui desenhar. Meu desenho se construiu a partir daqueles trechos de ação-fala-ação e, como quando escrevi não tinha uma linha de desenho que conseguisse segurar a história, meu desenho evoluiu o suficiente pra contar aquela história. No Dodô eu já tinha um repertório visual muito maior e foi muito complicado tentar escrever o roteiro dessa maneira. Lembro de estar na quarta ou quinta página e parar com tudo, já que as descrições visuais ficavam cada vez maiores e só me confundiam mais. Desse ponto decidi tentar um roteiro direto nos thumbnails (um recurso que o Craig Thompson e o Jeff Smith, dois amores da minha vida, usam bastante) e isso solucionou muitos problemas e só acrescentou no meu trabalho. Me ajudou a pensar no ritmo dos quadros, na virada de página, na composição página a página, e isso melhorou muito a história. Tenho um orgulho muito maior dessas coisinhas fundamentais de quadrinhos agora no Dodô do que no Klaus, por exemplo. De resto, continuo no pincel com nanquim.

Klaus fez sucesso e te alçou a um dos destaques da nova geração de quadrinhistas brasileiros? Como você lida com a atenção que recebe no meio?
Puxa, Paulo, obrigado pelo elogio. Eu não sei dizer o que leva as pessoas a acharem isso, mas a partir do momento em que se faz uma história que muita gente gosta e vê potencial a gente acaba caindo nessas classificações. Eu fico bem preocupado em construir um público, em atingir mais gente, em captar mais leitores e tudo mais. Acho maravilhoso o barulho que o Klaus fez porque ajuda a ter mais gente com olhos pro meu trabalho e acredito que isso seja fundamental pra consolidar um nome no mercado. Preciso é continuar fazendo e melhorando sempre pra poder merecer isso tudo.

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Por que a decisão de lançar Dodô independente depois da boa recepção de Klaus com a Balão?
Foi pela experiência num geral. Pra tentar ver o que acontece com o livro cuidando dele em minha mão, fazendo a divulgação, indo aos eventos, abastecendo as lojas. A Balão fez um trabalho incrível e fico extremamente agradecido com o cuidado e o carinho do Guilherme, da Natália e da Flávia, mas isso não descarta eu querer trabalhar de diversas maneiras. Fazer quadrinhos por editora, fazer quadrinhos independentes, fazer quadrinho digital, o importante mesmo é fazer quadrinhos.

Como anda o coletivo Loki? Que importância ele teve (ou tem) na sua carreira como artista?
Cara, a Loki morreu, né? hahahah. Foi um momento bem importante pra nós que começamos todos na mesma época, praticamente (Pedro Cobiaco, João Montanaro, Jopa Moraes, Calvin Voichicoski, Matheus Aguiar, Nicole Koutsantonis) e essa ideia do Pedro foi meio que uma reunião disso tudo. Antes da Loki a gente tinha vários projetos coletivos entre nós e a revista foi bem massa pro nosso momento. Serviu pra compilar um pouquinho de cada um e mostrar pro mercado. Mesmo assim, o momento passou. Alguns pararam com os quadrinhos e alguns continuam. Ainda sou muito próximo de muitos deles.

Como autor queria saber como você enxerga o momento do mercado de quadrinhos? O que ainda pode melhorar?
Acho que tem muita coisa pra melhorar, mesmo. O momento é maravilhoso, tem muita gente fazendo e muita gente correndo atrás. Mesmo assim, ainda sinto que falta uma dedicação maior dos artistas, em vários aspectos. Regularidade, progressão, autopromoção, distribuição. Tem muita coisa que é motivo de reclamação recorrente e que só vai ser consertada quando os artistas se mobilizarem pra mudar. Mesmo assim, fico muito animado em pensar que cada ano surge um evento novo, com público cru e sedento e que isso ajuda a estabelecer uma mini-rota pra levar os livros e expandir. A CCXP, por exemplo, ajudou demais a provocar um rebuliço nas pessoas que só era gerado em ano de FIQ (bienal). Agora, se todo mundo tiver um novo lançamento, vai poder ser vendido na CCXP, bancar a gráfica e tirar um troco. É um negócio muito doido, cara. Com o mínimo de esforço na divulgação o quadrinho já aparece mais que os outros. Acho que o nível melhorou muito também. Tem muita gente nova e com um potencial absurdo produzindo, e isso faz com que a gente queira correr atrás pra melhorar e melhorar. Acredito que há 10 anos não tinha uma concorrência tão pesada.

Qual a sua formação como quadrinista, o que costumava ler, o que te inspirou a desenhar?
Quando era criança lia bastante gibi. Bastante Turma da Mônica, Asterix, uns Níquel Náuseas que, por algum motivo, meus tios tiveram e vieram pra mim. Ainda via muito desenho da Disney também, desses classicões, e bastante desenho na TV. Isso tudo me ajudou a formar um repertório massa e uma vontade de contar histórias visualmente. Minha mãe é professora de artes e sempre investiu muito no potencial que tinha com isso. Isso tudo me instigou bastante a desenhar desenhar e desenhar. Gostava demais.

Autorretrato.

Autorretrato.

Gostaria que você buscasse na memória a lembrança mais antiga de querer trabalhar com quadrinhos.
Cara, não lembro se eu entendia que dava pra trabalhar com isso, mas lembro de fazer muitos quadrinhos quando era menor. Talvez desde uns quatro-cinco anos, fazia historinhas de uma página. Inventava personagens, especificava as relações deles e tudo mais. Só fui pensar em realmente transformar isso em profissão quando tinha uns 14-15 anos (que foi quando comecei a trabalhar e correr atrás disso).

Quais os seus próximos projetos pós-Dodô? O que você já está preparando?
Existe um projeto com o Célio Cecare que inscrevemos no ProAc e ficou entre os suplentes e tudo indica que irei desenhá-lo ano que vem. Mesmo assim, ainda tenho guardada a história dos cachorros empresários que contei no Quadrinhos Pra Barbados (e que continua feliz e engavetada) e estou em mais um projeto pra ser só desenhista. E estou anotando mais algumas ideiazinhas pra desenvolver algo sozinho, algo que não quero parar de fazer, mas que em 2016 vai brilhar menos (mas como sou lindo a minha estrela não se apaga). Beijão.

Mais do trabalho de Nunes: nunera.tumblr.com.

Abaixo um preview de Dodô. Compre aqui.

Foto: Divulgação.

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