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Fotos: Louise Vas.

O cantor e compositor pernambucano já pode se considerar um veterano da cena independente. Mas, como todo bom e inquieto artista, está sempre em busca de descobrir um caminho particular. Sua estreia solo é fruto dessas descobertas. O álbum Miocárdio agrega diversas referências e estilos acumulados e traz uma sonoridade cosmopolita com sabores nordestinos, italianos, latinos e africanos.

“Eu não gosto de me prender a gênero, então cada música é uma tentativa de propor novas conexões sonoras, procurando mostrar uma perspectiva diferente pra coisas que estão pulsando”, explica ele nesta entrevista para a Revista O Grito!. Parte da Bande Dessinée e produtor de diversos artistas, Barro começa a trabalhar a divulgação de Miocárdio. Ele é uma das atrações do No Ar Coquetel Molotov e segue também em turnê pelo Brasil. Em seguida, parte para a Itália (veja a agenda de apresentações).

Batemos um papo com Barro sobre o processo que o levou a essa nova fase, seus gostos por pinturas em fotografia, a relação com a Itália e os planos pro futuro. Dá-le.

Conhecemos você sobretudo pela Bande Dessinée (e alguns também pela Vermute, que era bem legal). Como surgiu a ideia de partir para a carreira solo, com nova proposta, novo nome artístico?
Foi um processo, que tem a ver com a maturidade como compositor, o fato de ter feito produções musicais pra outros artistas. Tudo isso foi me dando segurança e me mostrando aos poucos que poderia ser um caminho. Legal você falar da Vermute, porque esse disco mostra um pouco da minha trajetória pela vida mesmo. Toco desde os 14 anos e profissionalmente desde os 17, então já me envolvi em muitas histórias musicais diferentes. Quando veio a ideia de criar o solo, veio também a ideia de ter um nome que me apresentasse e representasse. Fui cortando lapidando e cheguei ao nome Barro. Neste processo, alguns amigos me ajudaram como Jam da Silva, Gui Amabis e Laurindo Feliciano que fez a capa do disco.

Como foi explorar novas sonoridades para esta estreia solo? Quais eram suas referências?
Pra mim é sempre complicado falar em referência, porque já toquei tanta coisa, já ouvi muito som. Recentemente descobri um aplicativo chamado Radioooo, e fiquei louco aqui, todo dia ouço música de país diferente, uma verdadeira babel mental. No meu disco acho que o principal é esse diálogo com a música pop global, a música brasileira, a minha ligação com a música nordestina e esse contexto pernambucano. Eu não gosto de me prender a gênero, então cada música é uma tentativa de propor novas conexões sonoras, procurando mostrar uma perspectiva diferente pra coisas que estão pulsando.

O disco tem a colaboração de produtores e músicos que já trabalharam com você, como Muta, Paes. Esse seu círculo de amigos acabou te ajudando a construir esse seu novo projeto, certo?
Foi fundamental produzir outros artistas, isso me ajudou a me apropriar dos meios de produção, entender o meu jeito de trabalho e pra onde queria ir, mesmo que seja um lugar de abismo, no sentido de não se saber precisamente onde se quer chegar. A ideia mental é sempre diferente do resultado sonoro concreto da música. Nesse disco trouxe meus amigos mais próximos, que já dividiam produções comigo, essa é a base da sonoridade do disco. Ricardo Fraga, Rogério Samico, William Paiva e Guilherme Assis. Tive essa sorte de ter esses amigos com grande talento, e que a gente divide várias afinidades musicais.

Ainda sobre o disco: a capa do single “Vai” e o próprio álbum Miocárdio fazem referências estéticas àquelas fotografias pintadas que eram bem comum na casa das famílias. Qual a proposta?
Laurindo Feliciano fez um trabalho incrível. Ele meio que é um alter ego visual da história. Achamos esse elemento das pinturas em cima das fotografias, algo que revelava muito do espírito do nordeste do Brasil, mas que se conectava também a arte da América latina. Fizemos as fotografias em Recife do meu rosto e da minha irmã e mandamos pra ele. Ele pintou em cima e conectou a técnica das pinturas sobre a fotografia com as ilustrações dele e o universo meio fantástico/surrealista dele. A arte me surpreendeu e virou um ponto forte do álbum que comunicou muito bem visualmente as coisas que queria dizer do ponto de vista sonora.

O disco tem uma sonoridade muito cosmopolita, e também pop, ao mesmo tempo traz muito de referência nordestina, sem falar do sotaque. Qual o seu bojo de influência para as composições?
As influências são múltiplas, mas nesse ponto da música nordestina bebi muito disso, no berço e nas minhas buscas pessoais. Cresci ouvindo Jackson do pandeiro, Gonzaga, Fagner, Alceu Valença, Geral Azevedo, Xangai, Amelinha, Elba, Elomar, Banda de Pau e Corda, Quinteto Violado, então tudo isso está no meu DNA, quase que por osmose. Depois fui buscar tanta coisa, toquei rabeca, viajei pra vivenciar sambadas, de cavalo-marinho, de coco, de maracatu, toquei pé-de-serra e ao mesmo tempo vivenciando esse contexto de Olinda-Recife dos anos 2000 pra cá. Tudo isso está aí no meu som, mais ou menos evidente, mas se olhar bem está tudo lá. Diante disso tudo, me sinto muito fruto desse meio. Essa genealogia que vai de Gonzaga, Passando por Dominguinhos, Alceu, Lenine, Chico Science, Otto, Siba, Cordel, Santa Massa, Mombojó são muito forte na minha formação e me inspiraram muito. Pra mim é importante afirmar as coisas que são naturais pra mim e que eu enxergo com um potencial tremendo de contribuição para a renovação da música pop do mundo. Sobre os sotaque, é o charme, pai. ;)

E esse lance italiano? Como se deu esse intercâmbio com o selo da Itália e a participação da Serena Altavilla?
Eu morei na Itália dez anos atrás. É a língua que eu falo melhor, compunha umas coisas em italiano. Mas, ficou uma coisa íntima, pros amigos mesmo que falava por e-mail. Em 2014 dei uma entrevista pra uma rádio de lá, apresentando “Perdizes” da Bande Dessinée. O radialista que também é um grande músico, Toco, ficou em contato, acompanhando o que fazia. Dois anos depois mandei as demos do disco, e ele curtiu e me convidou pra fazer a divulgação do álbum na Itália. A partir dessa ideia, pensamos em fazer uma versão de “Vai” em italiano para lançar nas rádios conectando a Serena Altavilla, que é uma cantora fabulosa.

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As outras participações – Juçara Marçal e Lisa Moore – trazem muito da personalidade das cantoras nas faixas. O disco tem letras em francês, português, inglês e espanhol (ao lado da colombiana Catalina García, do Monsieur Periné). Sua carreira sempre foi marcada por esses intercâmbios linguísticos. O que isso significa pra você e sua música?
Eu faço isso há uns dez anos, com o tempo fui achando um caminho, um jeito de fazer e também misturando com o português. Isso pra mim tem dois pontos, um é o lance de explorar a diversidade de sons do mundo, a partir dos idiomas e poder conectar sensações que vem com as palavras. O outro lance é a chance de isso ser pontes de diálogos com outras culturas, e as cantoras representaram isso. Juçara representa essa coisa da linha afro-brasileira conectando a francofonia africana, pensando mais Congo do que paris. Catalina trouxe esse lance latino-americano que é muito importante pra mim, afirmando a força dessa compreensão latina e seu olhar feminino nesse processo. Lisa Moore do Bloog and Glass pra mim é essa ótica mais nórdica, dos lugares menos solares, essa delicadeza nas vozes, nas camadas de sons. Serena é o link com a tradição vocal da Itália, de mina, das trilhas de morricone, do ie-ie-ie italiano, foi lindo esse encontro, que surgiu meio no final, e deu esse novo olhar pra música “Vai”.

Quais seus planos para um futuro não muito distante? Sei que tem shows de Barro, mas a Bande Dessinée também segue em boa fase né?
O plano é não ter muito plano. O artista depende muito da aceitação das pessoas e do interesse que o disco gera. Tentei fazer o melhor disco que pude, e trazer algo verdadeiro e sincero pras pessoas. Estou muito feliz com a agenda que pintou, vou fazer quatro shows de lançamento, em lugares especiais pra mim, Circo Voador, Sesc Pompeia, Energisa em João Pessoa e no Coquetel Molotov, em SP e Recife com participação de Juçara Marçal. Várias coisas dessas eu não planejei, nem sonhei, foram surgindo. Então já saquei que o melhor é fazer o trabalho e deixar a coisa ir tomando forma. Fim de outubro, viajo pra Itália pra fazer promoção do disco e alguns pocket shows durante duas semanas. Tudo isso já é meio realização de sonhos, então to bem relax, de aproveitar cada show desse, e cada vivência dessa. Minha vontade é de rodar ao máximo o Brasil com o disco, estamos nessa função agora, e espero poder chegar em mais lugares. Com a Dessinée, a gente vai organizando a agenda pra poder fazer tudo, sempre foi assim, porque somos seis, e a galera é bem unida pra isso, de se ajudar em todas situações. Então vamo nessa, de peito aberto, que o Miocárdio cabe muita gente.

Veja abaixo com exclusividade o making of do disco ao lado de Juçara Marçal.

E aqui o disco na íntegra. Você também pode ouvir pelo Spotify e Deezer.

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