A designer de Moda Gabi Monteiro, personagem do filme Cabelo Bom (RJ), esteve no Curta Taquary e falou conosco sobre o empoderamento estético, racismo e a cena contemporânea de cineastas e artistas negros no Brasil

Um dos conjuntos mais potentes entre as produções trazidas pelo 11º Curta Taquary, que aconteceu em Taquaritinga do Norte, agreste pernambucano, na última semana, foi composto por curtas-metragens produzidos por diretores e equipes de negros e negras, falando e tematizando suas próprias questões e lutas.

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Filmes como Ana, de Vitória Felipe (SP), Peripatético, de Jéssica Queiroz (SP), Braços Vazios (ES), de Daiana Rocha, e Cabelo Bom, de Claudia Alves e Swahili Vidal (RJ), mostraram potências de uma juventude que visa tomar para si um espaço tantas vezes relegado a diretores e diretoras brancas. Nesse cenário, o anseio de representatividade vai além da quantidade de atores e atrizes negras de um filme, por exemplo. A ideia é que a questão da negritude seja pensada desde o início, na pré-produção, no roteiro, na seleção de elenco até a reflexão sobre qual será o público dessas produções, passando pela estética, pela luz e pela montagem. Em Pernambuco, inclusive, dois filmes estão sendo produzidos nesse sentido: O Fio e A Noite Fria, por coletivos de estudantes negros e negras da UFPE.

A designer de moda Gabi Monteiro durante o Curta Taquary. (Foto: Juarez Ventura/Divulgação).

A designer de Moda Gabi Monteiro, uma das personagens do filme Cabelo Bom, que trata do empoderamento de jovens negras por meio da estética do cabelo, foi ao festival representando o filme e conversou comigo sobre o empoderamento estético e o cenário atual das produções de negros e negras não apenas no cinema, mas em outros contextos de produção de arte. Confira:

Revista O Grito!: Gabi, de um modo geral, o que me chamou atenção dentro do próprio festival foram filmes falando sobre questões de negritude, produzidos por pessoas negras, com essa discussão bastante pertinente. Principalmente alguns filmes da Mostra Competitiva Primeiros Passos, na qual estava Cabelo Bom, composta por diretores com seus primeiros trabalhos, e também na Mostra Competitiva Dália da Serra, que apresenta uma galera mais nova. Eu queria falar sobre esse tema e sobre o filme com você. Como foi sua experiência e sua participação no processo de produção do curta?
Gabi Monteiro/Cabelo Bom: Eu não conhecia a Cláudia nem o Swahili, que são os diretores do filme, mas eu e Cláudia estudamos na mesma faculdade, e ela me conhecia de nome, de me ver. Ela acompanhou o que passei em relação ao preconceito com o meu cabelo pelos professores em sala de aula. Foi nesse momento que as pessoas passaram a me conhecer, porque eu falei disso em público, fiz post no Facebook, saiu em jornal, fui no programa da Fátima Bernardes, e acabei recebendo a atenção, o olhar das pessoas, há uns três anos atrás. A ideia inicial do filme era fazer com “it girls” da periferia, que seriam as meninas que influenciam outras, com uma ligação com moda. Mas, no processo, eles viram que eu não me identificava com isso, nem as outras meninas; essa nomenclatura, particularmente, não corresponde a mim, porque é uma nomenclatura americana, europeia, e eu não me encaixo nesse código, nesse nome.

Então, a Cláudia chegou até mim, conversando, falou da proposta do filme. Houve um dia em que a gente conversou no celular por umas 4 horas, e foi quando contei minha vida toda e ela fez uma seleção do que seria interessante falar. Ela quem determinou mais quais seriam os assuntos abordados porque ela fez essa essa pesquisa antes e depois o outro diretor viu. Daí a gente foi para o set, que foi no meu atelier, no morro da Babilônia, no Leme. É lá onde minha família por parte de mãe toda cresceu; só que a gente mora na favela do lado, que é a Chapéu Mangueira que é um morro só, mas com duas favelas. Nós filmamos lá, porque eu sou designer e tenho esse espaço de trabalho. A gente fez meio dia, algumas horas de filmagem.

Parte da coleção de moda assinada por Gabi Monteiro. Fotos por Shai Andrade.

O filme é sobre esse empoderamento estético, principalmente com o cabelo, mas que também vai além disso. A partir de que momento você começou a perceber isso? Foi, de fato, na faculdade? Quando você pegou e disse “Ah, agora eu tenho que assumir essa estética!”?
Então, nós, em um sistema social, crescemos com alguém falando o que temos que fazer, em que temos que nos encaixar, o que é bom pra nós. E, na maior parte das vezes, não nos olhamos, não olhamos para dentro de nós mesmos e não tentamos entender o que é melhor, ou qual é o padrão e a caixa em que a gente deve se encaixar. Porque, de certa forma, nós vamos sempre nos encaixar em um padrão. Não tem como. Se nós vivemos em sociedade, então vamos tentar encontrar nossos pares.

Eu comecei a usar o cabelo crespo pouco antes de 2009, assim cheio, como está no filme. E aí, naquele período, ainda não era muito comum ter mulheres negras com cabelo natural. Na verdade, só assumi meu cabelo porque eu fiz um curso de modelo e o cara falou assim: “Para você trabalhar, você vai ter que usar seu cabelo natural”. Eu nunca trabalhei mesmo como modelo, e acabou sendo um momento em que eu mudei, que acabou respingando em todo o resto da minha vida. Antes disso, meu pai conversava comigo, apontava “Ah, nesse comercial, não tem nenhum negro!”, essas coisas, mas eu nunca havia refletido muito sobre. Antes do que houve, a faculdade, para mim, era um lugar seguro.

Eu havia ganhado um concurso de estilo na PUC do Rio, na Gávea, que é um lugar muito elitizado. A nata da colonização carioca, da aristocracia está ali, e eles dão muita bolsa e tem muitos alunos que, de fato, não tem grana para pagar R$ 5.000,00 por mês na faculdade. Pela localização, é um lugar em que, quem é periférico, quem não convive naquela área, se sente muito acuado. Mas, como eu cresci em uma favela da Zona Sul, sempre transitei e vivi nessa disparidade de estar na favela e depois descer para um lugar com um dos IPTU’s mais caros do Brasil. E isso é uma loucura, é muito histérico, é uma loucura para mim, mas eu consegui sobreviver até agora! Então, quem não convive, quem mora mais afastado dessas zonas que concentram a grana, chega lá e se sente muito assustado.

Mais uma imagem da coleção de Gabi Monteiro. (Shai Andrade/Divulgação).

Quando eu cheguei lá e ganhei esse concurso, em um desfile no meio da faculdade com a galera gritando meu nome, eu estava me achando o máximo. Tanto que comecei fazendo um ano de Cinema e, depois, mudei para Moda, porque eu ganhei autoconfiança para conseguir mudar – eu queria mesmo trabalhar com figurino, não queria ser diretora, realizadora, e não fazia sentido fazer Cinema. Eu era muito bem aceita, de certa forma, na faculdade. Mas, quando essas professoras falaram do meu cabelo, isso foi meio assim: “Caralho, não adianta ficar aqui, estudando esse jeito eurocêntrico de fazer moda se, no final, o mercado mesmo não vai me aceitar!”.

Daí, comecei a pesquisar coisas que acabariam influenciando mais no meu trabalho e na minha fala, é aí que eu começo a querer pesquisar e entender como foi o processo de colonização. Por que as pessoas estavam tão incomodadas com meu cabelo? E não apenas as professoras, mas também na rua, as pessoas gritando, falando para pentear o cabelo, para mudar o cabelo, para cortar. Eu quis começar a querer entender, porque não adiantava eu ficar com raiva, não ia resolver nada. Quando as professoras falaram isso, eu repeti, e ia repetir com elas, fazer de novo a mesma matéria com as mesmas professoras.

Aí, eu comecei a querer dar uma mudada. Esse momento de ferida não foi fácil, e foi bem complicado pela exposição que aconteceu; foi ruim e bom mesmo tempo, porque eu consegui criar também uma rede de amizades de mulheres que me apoiava. Porque, na época, as pessoas não falavam muito sobre isso em rede social, e eu consegui encontrar pessoas que pensavam como eu. Lembro que, na época, quando eu fiz o post falando dessa fala das professoras em sala de aula no Facebook, logo depois uma amiga me ligou preocupada, dizendo: “Olha, Gabi, eu acho melhor você tirar o post porque isso pode ser um problema, porque você está falando o nome da faculdade, o nome das professoras”. Isso porque a PUC do Rio é super conceituada e, no final, fui eu que abri o processo contra a faculdade. Mas há esse medo mesmo de falar dos problemas, e eu acho que, de tudo, o que eu tirei foi o de sempre seguir minha intuição.

Foi ou menos o que eu falei no início: a gente nasce, parece que tem um caminho que falam que é bom para nós, mas não nos ouvimos. Essa questão do cabelo é a ponta desse iceberg da minha estética, porque eu só consigo me manifestar esteticamente de forma que me contemple quando estou realmente conectada comigo. Isso não passa só pela estética, passa também pela minha fala, pelo meu modo de lidar com as pessoas, o modo como eu me apresento profissionalmente. O racismo é uma diferenciação estética. Está tudo ligado e, ao mesmo tempo, as pessoas não se ligam que estão, na verdade, entrando numa caixa e não percebem.

Como eu tinha falado, no festival, houve vários filmes de produtores e produtoras, de diretoras e diretores negros, e me parece que está rolando uma onda, não apenas de diretores, mas de produtores, fotógrafos negros falando e pensando essa representatividade para além da porcentagem de atores de um determinado filme, mas problematizando o filme desde o início, sobre, por exemplo, que luz usar para a pele negra. Você tem percebido isso? Você tem acompanhado essa onda?

Com certeza! No meu campo, a Moda, eu tenha visto alguns últimos trabalhos. Eu comecei a pesquisar a questão da colonização e da ocupação de uma parte do Rio, a Zona Portuária, por meio do mercado de escravos. Daí fiz uma coleção abordando essa questão a partir de uma análise de quadros do [Jean-Baptiste] Debret e do [Johann Moritz] Rugendas, e fotos também de africanos escravizados, em relação com alguns lugares que ninguém sabe da história do Rio, mas que são ícones e que tem tudo a ver e explicam muito do desenvolvimento da cidade. Nessa coleção [Vale Longo], por exemplo, eu tenho uma equipe só de pessoas negras, com mulheres negras e homens gays negros.

No cinema, principalmente depois do Kabela, da Yasmin [Thayná], foi que eu passei a acompanhar. Eu a conheci antes da estreia; nesse processo da faculdade, e ela foi uma das pessoas que eu conheci, me aproximei e que faz parte dessa rede de apoio de que eu falei. Quando vi o filme no Odeon, foi uma catarse; eu não conseguia parar de chorar e todo mundo estava chorando, e eu conheci os atores… Foi uma coisa… sabe quando você se vê e você se vê ali? Eu sei que foi um filme pelo qual ela trabalhou pra caralho, ela teve que refilmar coisas porque foi roubado parte dos equipamentos. Foi uma luta, mas ela conseguiu fazer aquilo com aquele grupo.

Eu acho que, da minha geração, o Kabela, nesse sentido, é um divisor de águas de linguagem. Eu sei que tiveram outras mulheres negras antes disso, eu percebo que tem também a Safira [Moreira, diretora do filme Travessia], que também é do Rio e tem família na Bahia, que agora está com mais um filme e acabou de ir para Portugal. No Rio, está tendo uma cena, tem um filme recente só de produtores negros, têm o Encontro de Cinema Negro, etc. Eu acho que, por conta do acesso à Universidade, por conta dos programas do governo Lula, as pessoas estão tendo acesso e estão conseguindo se organizar de fato para os projetos acontecerem. Então acho que isso tudo é um reflexo desse momento.

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