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“Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar tudo que meu inconsciente me grita”, explicava Mário de Andrade em “prefácio interessantíssimo” para seu livro Pauliceia Desvairada. Resultado dessa mesma impulsão, a banda Boogarins lançou seu segundo álbum, Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos (StereoMono, 2015), que, não por acaso, dá o nome do autor a uma de suas faixas. Com direito a impulso internacional via streaming no site do New York Times, não é de hoje que o grupo tem chamado à atenção no exterior, onde foram descobertos, inclusive.

Embora preserve a característica lisergia da estreia, Manual constrói uma paisagem sonora mais afetiva, com elementos de bossa nova e uma pitada a menos do vocal atmosférico de antes. As letras contemplativas denotam certo amadurecimento pessoal, musicadas com guitarras limpas, nostálgicas e sintetizadores ora fragmentados. Se antes a sinestesia nos fazia experimentar uma explosão de cores, agora nos encoraja a sentir o tempo e serve de plano de fundo para as tardes de sol ou viagens pelo universo onírico de “A História Sem Fim”.

Quanto à banda, a bateria não descarrega. Após rechear o currículo durante os últimos dois anos com a passagem por palcos da Europa e América do Norte, integrar a line-up de festivais de renome como o South by Southwest, no Texas, Primavera Sound, em Barcelona, Lollapalooza Brasil, Abril Pro Rock, Popload, entre outros, isso tudo no primeiro disco, eles nem bem esperaram o lançamento do segundo para repetir a rodada de emoção além-continente.

E após dezenove apresentações pela Europa, encerradas na última quinta-feira (19), os integrantes desembarcam em solo pátrio para, em Pernambuco, abrir o show do canadense Mac DeMarco, dia 28 de novembro, às 22h, no Clube Atlântico de Olinda. Os ingressos podem ser adquiridos aqui.

Pra aumentar a expectativa, conversamos com o guitarrista e vocalista Benke Ferraz sobre o sucesso repentino do grupo e o recente lançamento.

A Boogarins integra a lista de nomes nacionais que fisgaram o mercado fonográfico internacional, tanto que acaba de voltar de sua segunda turnê pela Europa. A que isso se deve?
Esse “fisgar” foi algo totalmente inesperado para a banda. Quando decidimos lançar aquelas primeiras seis músicas que tínhamos [do EP As Plantas Que Curam] mandamos para o máximo de sites e selos que conseguimos. Qualquer um que deixasse o e-mail para contato no seu site a gente tentou alcançar, e acabou rolando o contato da Other Music. Foi aí que fizemos duas turnês longas no ano passado e elas refletiram de forma muito positiva fora e no Brasil.

E o que vocês estão achando dessa repercussão?
Dois anos atrás não tínhamos 0,1% da inserção e do reconhecimento que temos como músicos hoje. Tudo mudou, mas nossa relação enquanto banda e como pensamos a música que fazemos segue a mesma. Não tem megalomania ou qualquer tipo de situação imposta por causa “do tamanho que temos ou queremos ter”.

Da dupla que produzia um som num formato lo-fi para o quarteto com currículo internacional, o quanto vocês mudaram?
Assim que começamos a tocar ao vivo, mesmo na época da tour do As Plantas, a banda virou outra coisa. A influência da cozinha [baixo e bateria] foi determinante para o rumo da sonoridade que temos ao vivo e o novo disco é basicamente o registro desse momento especifico da banda. Hoje com Ynaiã [baterista e ex-Macaco Bong] a coisa já desenvolveu pra outro lado e com certeza quando gravarmos outro disco ele soará bem diferente do anterior.

Boogarins. Foto: Divulgação/OtherMusic.

Boogarins. Foto: Divulgação/OtherMusic.

O que podem nos contar da experiência de cantar em português fora do Brasil?
Não conseguiríamos fazer de outro jeito. É incrível que as pessoas gostem e deem valor ao que fazemos de forma natural, mas, claro que, depois de tocar bastante em países que não entendem sua língua, quando chegamos a lugares onde as pessoas cantam às músicas a emoção é forte.

Conceitualmente, Manual parece um disco mais sóbrio e até espiritual. O que ele significa e quando começou a ser planejado?
Acho que gostamos mais de fazer as coisas e procurar o sentido pra elas num momento pós-criação. Com certeza ele soa mais sóbrio e consistente que o As Plantas, pois já foi gravado num ambiente de estúdio e com uma banda que já havia arranjado a maioria das canções para toca-las em shows.

Tudo mudou, mas nossa relação enquanto banda e como pensamos a música que fazemos segue a mesma.

Por que uma das faixas leva o nome do escritor Mário de Andrade?
Nessa coisa que falei do sentido pós-criação já inventamos mil justificativas legais envolvendo o nacionalismo e antropofagia (risos). Em Portugal, fomos entrevistados por um cara que nos perguntou a mesma coisa e nos contou ter conhecido e começado a ler Mário de Andrade por causa da música, mas a verdade é que só demos esse nome por causa de uma piada com o livro Os Cocos, onde ele faz um registro comentado de ritmos musicais brasileiros.

É comum apontarem a semelhança e possível influência do grupo com bandas como Os Mutantes, Pink Floyd e Tame Impala. Vocês concordam? Tem alguma outra banda que influencia o que vocês fazem?
Gostamos muito de todas essas bandas, mas vemos poucos traços do som deles no que fazemos – principalmente dos Mutantes. Acho que só é uma referência para os gringos e para quem não é ligado no rock com influências sessentistas. Os principais nomes que nos influenciaram, nos deram gás pra começar a escrever e gravar como fizemos foram Lê Almeida e Jupiter Maçã.

Vocês tem mais alguma novidade em vista?
Estamos tocando sem parar. Ano que vem tem mais turnê fora. Ainda tem clipe de música pra sair e esperamos ter o terceiro disco pronto o mais rápido possível.

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