Foto: Leco de Souza/Divulgação.

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EXPLOSÃO SONORA DE RAÍZES AFRICANAS
Banda instrumental Bixiga 70 lança novo disco no Recife e homenageia os ancestrais

A banda paulista Bixiga 70 sempre teve como meta fazer uma música festiva, alegre e que botasse todos para dançar. Ao longo de três álbuns homônimos ficou bem claro que conseguiram o feito, mas foram ainda além. Se transformaram no maior nome brasileiro do afrobeat, gênero que congrega diversos ritmos e referências africanas em uma explosão sonora.

“Nós mesmos nunca nos sentimos um banda de afrobeat pra valer. O que sempre nos atraiu foi a ideia de misturar vários elementos musicais tentando chegar num tipo de música que soasse verdadeiro”, diz o percussionista Cuca Ferreira, um dos dez integrantes do super grupo. A banda faz show no Recife esta sexta (15), no Baile Perfumado, ao lado do pernambucano Lira, que também está lançando disco novo.

Os ingressos ainda estão à venda.

Em conversa com a Revista O Grito!, o Bixiga 70 comentou o sucesso da banda, que hoje realiza turnês nacionais e internacional com sua música instrumental. “Sucesso pra gente é conseguir manter a banda ativa, produzindo, viajando fazendo shows pelo Brasil e pelo mundo”, conta Cuca. “Uma banda instrumental de 10 pessoas no palco não é obviamente o caminho mais fácil para se ter sucesso”.

O novo disco Bixiga 70 já está disponível na internet. O novo trabalho foi produzido pela big band no estúdio Traquitana, casa do Bixiga 70, mixado por Victor Rice e masterizado pelo produtor francês Grant Phabao, do coletivo Paris DJs. Veja abaixo nossa conversa com Cuca Ferreira.

Este é o primeiro disco da banda concebido inteiramente em um estúdio. Como foi o processo de gravação do álbum?
Foi a primeira vez em que fizemos tudo coletivamente, desde a composição até o arranjo final. Tínhamos acabado de voltar de uma tour em que tocamos na Bélgica, França, Alemanha e Marrocos, onde conhecemos e trocamos informações com muitos músicos. Estávamos num momento muito fértil, com muitas ideias novas e muito entrosados pela sequência de shows. Entramos os 10 no estúdio, sem nada pré-definido, olhamos um pro outro e começamos a tocar. Foram várias semanas, todos os dias, pelo menos umas 8 horas por dia. Levantamos umas 20 ideias musicais, que com o processo se transformaram nas 9 músicas do álbum.

Desde o primeiro disco, em 2011, vocês exploram o afrobeat. Chegou até a se tornar uma espécie de rótulo no som de vocês. Como esse estilo dialogou com os outros ritmos que vocês exploram nesse álbum?
Nós mesmos nunca nos sentimos um banda de afrobeat pra valer. O que sempre nos atraiu foi a ideia de misturar vários elementos musicais tentando chegar num tipo de música que soasse verdadeiro; o próprio afrobeat é um híbrido de percussão afro, com guitarras funkeadas e melodias de afro-jazz, ou seja, tem essa característica da mistura. No nosso caso, nossa música reflete a mistura da história musical dos 10 integrantes da banda, que tem em comum a ligação com a música negra nas suas mais diversas vertentes. Candomblé, reggae, dub, funk, jazz, música Malinké, manguebeat, dentre tantos outros, cada um de nós tem sua história ligada a alguns desses estilos. Essa combinação que faz nosso som.

Foto: Leco de Souza/Divulgação.

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Vocês se tornaram expoentes da música instrumental brasileira, em um patamar nunca antes alcançado por outros nomes que atuaram nessa área. Como a banda lida com o sucesso?
Sucesso pra gente é conseguir manter a banda ativa, produzindo, viajando fazendo shows pelo Brasil e pelo mundo. Uma banda instrumental de 10 pessoas no palco não é obviamente o caminho mais fácil para se ter sucesso… E é muito difícil de se viabilizar.

Quanto à questão da música instrumental, desde o começo a gente queria um som que fizesse o público dançar, sem ficar restrito ao público do que se convencionou chamar de “música instrumental brasileira”. Talvez esse seja o nosso maior sucesso: conseguir atingir um público que goste de vários tipos de música, e que na sua maioria não frequenta shows de música instrumental. Acho que no final das contas, o fato do nosso som não ter cantor é secundário, o que também é uma grande vitória. Com o tempo percebemos que nos encaixamos numa linhagem com várias outras bandas que conseguiram cruzar essa fronteira, várias ainda muito ativas. Pra lembrar de algumas: Black Rio, Sossega Leão, Metalurgia, Funk Como Le Gusta, etc.

Como é o processo de pesquisa para compor as músicas do disco?
No caso desse disco, boa parte da pesquisa acabou acontecendo na nossa viagem, quando passamos pelo Marrocos. Fizemos um intercâmbio musical com grandes artistas locais, que nos ensinaram muito. Compramos alguns instrumentos por lá também. Há músicas no disco onde essa influência é muito clara. Fora isso, somos em 10, todos tocando com um monte de gente diferente, somos conectados com vários dj’s, então estamos sempre ouvindo e trocando informações. Ou seja, a pesquisa faz parte da vida dos 10, e a banda acaba sendo um epicentro de troca de informações musicais.

A inovação na música é um tema ainda pouco discutido, ao menos abertamente. Existe uma busca consciente em encontrar novos caminhos no que diz respeito ao instrumental?
Acho que no nosso caso a gente está sempre se provocando e se desafiando para tentar fazer algo novo, que nunca tentamos. Há músicas nesse disco que já soam bem diferentes do que gravamos anteriormente, e talvez apontem para um caminho que vamos explorar nos próximos trabalhos. O Bixiga70 existe há menos de 5 anos, nosso som ainda está em formação, não sabemos onde vai chegar. E talvez nunca “chegue”, porque a gente sempre quer tentar algo diferente no próximo.

O disco trata de raízes de cada um e é dedicado aos ancestrais. De que forma esse álbum se conecta com essa ancestralidade?
Esse é o nosso trabalho mais coletivo. Cada um dos 10 participou ativamente da criação dos grooves, das melodias, dos mapas, dos arranjos. Acho que é o trabalho no qual os 10 mais colocaram a alma pra fora na hora de tocar. Por isso as raízes de cada um estão mais presentes. Além disso, todos estudam e escutam muita música, temos total consciência que nosso som só existe por conta de tanta coisa que já foi feita antes de nós. Essa dedicatória tenta refletir esse respeito.

O bairro que batiza a banda ainda segue como influência no trabalho de vocês? Como é a relação de vocês com São Paulo hoje?
O bairro do Bixiga, no centro de SP, faz parte da história da banda, que nasceu e vive até hoje no estúdio Traquitana, que fica no número 70 da rua 13 de maio, principal rua do bairro. É o bairro que historicamente recebeu as grandes ondas migratórias que continuam formando a cidade de SP, primeiro com ex-escravos no fim do século 19 (até hoje ainda é realizada uma missa afro no bairro), depois italianos, nordestinos, e mais recentemente bolivianos e nigerianos. Ou seja, as principais matrizes do nosso som. Todo ano realizamos o dia do grafiti no bixiga, um festival de rua em que o prédio do nosso estúdio e quase todas os imóveis em volta são pintados de branco para receberem grafitis novos, enquanto vários artistas se apresentam em um palco na rua. Portanto o Bixiga70 tem uma ligação muito forte com o bairro, que vai além da nossa percepção. E com a cidade não é muito diferente. São Paulo é uma cidade muito conflituosa, agressiva, por vezes opressora, mas que tem uma cena cultural muito vibrante, que permite e oferece manifestações das mais diversas. Essa tensão, esse conflito, obviamente influencia muito nosso som também.

Como é a relação da banda com o Recife/Olinda? Em “Mil Vidas” ouvimos uma clara influência das raízes nordestinas.
A gente sempre foi muito influenciado pela cena cultural da cidade, particularmente do que foi criado e produzido a partir dos anos 90. Acho que a importância do Recife para a cultura brasileira é de certo modo subestimada pelo resto do Brasil. E não me refiro só à música, porque o melhor cinema do Brasil é feito em Recife há pelo menos uns 10 anos. Fizemos shows em Recife que realmente mudaram a vida do Bixiga 70, como o do Rec Beat em 2012, ou o do Porto Musical em 2013, que nos levou à primeira tour pela Europa. Pra gente, tocar aí é sempre foda, a gente sente uma relação muito próxima com o público e com os músicos da cidade, e por isso sentimos também uma grande responsabilidade. É sempre aquela sensação de jogar uma final de campeonato.

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