REVELAÇÕES SOLO

Bê Formiga tornou-se conhecida com a banda Rádio de Outono, que trouxe um tom de dream-pop para o indie brasileiro dos anos 00. Mas, no fundo, ninguém a conhece de fato. É o que ela deixa explícito nessa nova fase em que estreia seu primeiro trabalho solo. A Mulher No Fim do Mundo chega para contar mais dessa artista que começou querendo criar um novo Balão Mágico, mas que hoje tem Vespertine de Björk como mantra e gosta de Vitor Ramil.

O novo disco começou a ser gravado em 2009, ainda com o Rádio de Outono, mas logo percebeu-se que aquilo tinha uma proposta mais autoral e particular à Barbara. Com produção de Leo D, o álbum trata de feminilidade, mas sem feminismo. E é também a revelação de algo desconhecido da cantora. “Uma paixão intensa por mim mesma! Eu precisava destruir o mundo que eu criei e mantive durante tanto tempo, pra aceitar o que aparecia pra mim”. Também produtora cultural, da festa Superingosto, Bê conversou com a Revista O Grito! sobre o novo momento.

MP3 | Bê Formiga “Te Dar O Céu”

Por Paulo Floro | Foto por Caio Vinícius

Você afirmou estar mais feminina neste disco. O que mudou no seu modo de compor desde que seguiu em carreira solo?
Não vejo a mudança necessariamente no modo de compor, mas na forma de ver o mundo, de sentir, de pensar, acreditar e de valorizar coisas novas e abandonar outras que perderam o sentido. Antes, a necessidade de me afirmar para o mundo queria seguir padrões sociais “masculinos” e agressivos. Passei a perceber que as qualidades femininas, a sensibilidade de captar e de criar são de igual importância e força [nada de feminismos]. O mundo está começando perceber isso aos poucos. No fim das contas, foi um processo de aceitação de mim mesma.

Quais suas influências neste trabalho? Para quem você “reza” quando começa a tocar?
A cada dia que passa percebo o quanto as influências são diversas e o quanto é difícil perceber como as coisas entram em nós através das experiências e sensações que vivenciamos. Hoje eu “rezo” pro universo, pra que eu possa canalizar todas essas sensações de crescimento e mudança em formato de arte.

Sou tatuada pelas sensações trazidas por coisas como Spike Jonze, Portishead, Vitor Ramil, Frente, Björk, Adriana Calcanhotto, Tarantino, Radiohead, Andre Courrèges, Erykah Badu, Nick Cave, Tainá azeredo, Grizzly Bear, Metric, Blondie, Marion Zimmer Bradley, Feist, Melk Zda.

Muita gente ainda se lembra da Rádio de Outono, que conseguiu uma boa repercussão, tocando em festivais, aparecendo na TV. Mas muita gente não sabe o motivo de terem parado. O que aconteceu?
Chegou um momento em que todos precisaram buscar caminhos alternativos de vida [uma realidade para o músico independente, né?] e com essas novas experiências surgiram novas necessidades, estéticas inclusive. Nesse ponto, percebemos que cada um precisava seguir seu caminho só, pelo menos por enquanto. Nunca ouve uma ruptura, apenas um stand by que não se sabe se reversível.

Como é trabalhar sozinha, em carreira solo depois de se firmar com uma banda? Acredito que deve existir o lado bom e ruim.
Como todas as coisas, né? O ruim é não ter mais aquele trabalho de equipe. Claro que os meninos que tocam comigo ajudam em tudo o que podem, mas o comprometimento nunca pode ser o mesmo. O bom é não depender de ninguém para tomar decisões e poder refletir inteiramente você no seu trabalho. É poder se conhecer, se aceitar, se permitir mudar eternamente. Hoje eu tenho um disco intimista, amanhã já não sei! Vai depender do meu processo pessoal. Essa é a graça, né? Preciso dizer que sou eternamente grata à Rádio por tudo o que passamos juntos [oum!] e por ela ter me trazido um reconhecimento que faz com que as pessoas se interessem mais pelo que faço hoje! Natural, eu acho!

Você também produz/participa de uma festa no Recife, a Superingosto. A cidade voltou a ter uma cena movimentada para novos artistas? O que anda acontecendo por aqui?
Acho que Recife nunca esteve morta de verdade. Se compararmos a cidade a outros lugares do Brasil, vemos aqui sempre um movimento seguindo o outro. Com períodos um pouco mais complicados, é claro, e com uma falta de profissionalismo, muitas vezes, mas sempre existentes. Os mais espertos conseguem passar por cima disso e criam oportunidades com o que tem. A cena resiste e grita por espaço. Estes vão surgindo com suas deficiências e resitências, mas existindo. Já em termos de festa a cidade está bem servida ultimamente. A Superingosto surgiu com o intuito de preencher um espaço exclusivamente rock na agenda de festas da cidade. É legal se juntar com pessoas com o mesmo background musical para dançar ao som daquilo que não sai das nossas playlists particulares. Pra tentar juntar as duas coisas [o espaço para novos artistas se apresentarem e o espaço para escutar um rock e dançar até o amanhecer] a Superingosto vai lançar, agora em Agosto, um novo formato: a SUPERINGOSTO APRESENTA, onde vão ter bandas alternadas com djs da festa. O novo formato não vai suprimir o anterior. A ideia é que a periodicidade seja outra.

O que você pode adiantar sobre a produção do álbum?
O álbum começou a ser gravado em 2009 ainda com os meninos da Rádio de Outono, só que já com a guitarra [ausente na RdO] de Iuri Brainer [ex-Gandharva]. Foi aí que percebemos que o projeto já não funcionava como banda. O disco respirava bárbara, pedia pra se emancipar daquilo. Quando virou algo solo, tirei algumas músicas que não casavam com esse sentimento, pois ainda tentavam se agarrar à Rádio, e montei uma outra banda. Depois de alguns “entra-e-sai”, produzimos outras músicas e terminamos o disco. Agora estou satisfeita e ansiosa pra largar o filho no mundo. O disco foi gravado nos estúdios Carranca e Mr. Mouse e produzido por Léo D [que também produziu o disco da RdO]. Léo é um cara que fala a minha língua musical, que lê os meus pensamentos.

“A Mulher do Fim do Mundo” dá uma ideia de algo conceitual. Sobre o que fala o disco?
O disco foi construído num processo muito pessoal de mudanças. Ele conta diversas fases de auto-descobertas em que um mundo em que eu acreditava passou a perder o sentido. Foi um despertar para algo novo, para uma outra realidade, um momento de auto-aceitação, auto-respeito, auto-admiração! Uma paixão intensa por mim mesma! Eu precisava destruir o mundo que eu criei e mantive durante tanto tempo, pra aceitar o que aparecia pra mim. Era como trocar de pele, virar borboleta. [Isso tudo junto a um movimento que eu tenho percebido na humanidade em geral de dar valor ao equilibrio entre as energias masculinas e femininas.] Acho que ainda sinto e vivo isso, e o disco pronto é a bomba lançada, a poeira baixada. Agora é só enxergar o que tem mais na frente!

O que você tem ouvido ultimamente e o que mais te inspira na hora de compor?
Acho que minha veia é mais “poética”, se é que posso chamar assim. Eu preciso querer dizer algo. E a energia disso é o que vai ditar o resto. Durante a produção desse disco eu voltei a escutar bastante Portishead, Cardigans [na fase Gran Turismo e, Long Gone Before Day Light], Camille, Air, algumas músicas em particular do Frente!, o Vespertine de Bjork [SEMPRE! O disco é quase um mantra na minha vida], PJ Harvey [pra lembrar que eu tenho sim, rock em minhas veias] e Vitor Ramil [que escreve fantasticamente]. Hoje eu tenho voltado a escutar coisas mais alegres, o que já tem refletido nas coisas novas que temos feito. Isso já dá pra perceber na versão que fizemos de “Come on Home” de Cindy Lauper para a revista da folha. Voltei a ter uma alegria em escutar Blondie, Veruca Salt e Luscious Jackson e estou completamente apaixonada pelo Metric, pelo Fleet Foxes, Grizzly Bear, Fever Ray, e por aí vai.

Falando de suas referências musicais, qual a lembrança mais remota de você querer trabalhar com música?
Mesmo, mesmo? Por volta dos 6/7 anos, me juntei com uma vizinha pra escrever letras pra banda que a gente ia montar quando achasse um menino pra se juntar com a gente [a ideia era ter uma banda como o novo Balão Mágico, sabe? Aquele das gêmeas que cantavam a música da bruxinha bonitinha da vassoura de capim?] #sincericídio

Planos para mais shows, turnê ou até participações em festivais?
Como eu ainda estava no processo de ficar de bem com o disco, não investi em espaços importantes. Agora sim, o trabalho está pronto pra isso! Shows previstos existem sim, alguns em fechamento, outro confirmado na primeira edição da Superingosto Apresenta em agosto. Já turnês e festivais, vão ficar pra depois do lançamento do disco [e do primeiro clipe, já em edição, previstos pra o começo do segundo semestre]. Mas eu tô apenas esquentando.

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