Affonso Romano de Sant'anna (Foto: Divulgação)

DESCONSTRUINDO CÂNONES

Nos anos 1960, Romano de Sant’Anna participou de movimentos de vanguarda e nos anos 1970 trouxe a música popular, a poesia marginal e a literatura infanto-juvenil para dentro da universidade e desencadeou renovação teórica na área de letras. Com mais de 40 livros publicados e tendo ensinado em universidades estrangeiras e nacionais, à frente da Biblioteca Nacional (1990-1996) criou o Proler, o Sistema Nacional de Bibliotecas e programas de exportação da cultura brasileira. Sua obra tem sido objeto de teses de mestrado e doutorado. É casado com a escritora Marina Colasanti.

Alguns artistas negaram permissão para terem obras divulgadas em seu livro, sobretudo os responsáveis por Duchamp. O que você tem a dizer sobre essa censura?
Sim, houveram problemas. O pintor americano Cy Twombly censurou a reprodução de suas obras no meu livro. Não adianta, o leitor pode ir à internet e ver o que ele quis esconder. As referidas obras estão num estudo do Barthes sobre ele, em O Óbvio e o Obtuso, estudo que é pura alucinação crítica de Barthes, autor que todos admiramos, mas às vezes viaja demais. Os representantes do Duchamp andaram querendo saber se o livro era contra ou a favor daquele artista… Felizmente isto foi superado.

O que se pretende basicamente com seu novo livro?
Com ele estou propondo e praticando uma intervenção dos estudos linguísticos e literários no domínio da crítica e ensaistica de artes. Grande parte do que se chama arte moderna e contemporânea pretende ser arte ” conceitual”. Por que não analisar tais conceitos, já que esse tipo de arte é dependente da literatura, da retórica e da filosofia? Quando aplicamos instrumentos de análise de texto aos “manifestos” e a certas obras “conceituais” abre-se um leque fascinante. Isto desencadeia até uma reorganização de valores e de mitos. Muito autor que parece ” inteligente” e ” genial” não resiste a uma análise linguistica, à uma análise do discurso.

O que há de novo na discussão sobre essa discussão?
É o que pretendo ver também. Trago uma contribuição sobre a qual tenho meditado décadas e décadas e sobre a qual fiz vários livros antes deste. Por exemplo: Desconstruir Duchamp, Que Fazer de Ezra Pound e A Cegueira E O Saber.

Não há obras de autores brasileiros em seu livro, porque? O que acha da crítica de artes plásticas na imprensa brasileira?
Resolvi ir à fonte, analisar aqueles que desencadeiam coisas que repercutem na periferia da cultura européia e americana. Muito do que a critica de arte produz por aqui é repetição do que dizem lá fora. Praticam uma critica subalterna, presa à ideologia dominante. O maior publicitário inglês-Charles Saatchi, lança artistas ingleses, usando táticas de marketing e pronto todo mundo copia e começa a elogiar os Damien Hirst da vida. A CIA e o Departamento de Estado americano nos anos 5o e 60 exportou a pop art e todo mundo comprou o pacote que incluia Raunschenberg, Warhol e outros. Não estou inventando. Há mais intervenção econômica e ideológica nas artes plásticas do que supõe o público. Há livros sobre isto, traduzidos até por aqui. Mas as pessoas não querem ver ou ler.

Como a problemática da arte contemporânea chegou até você? Quando, Affonso, o poeta, chegou a se interessar por este assunto?
Porque sou contemporâneo e nada do que e contemporâneo me é estranho, como diria Terêncio. Um inteletual que se preze tem que saber o que ocorre em outros dominios, da fisica quântica à ecologia. Sou um velho frequentador de museus.Vivi por o período das vanguardas nos anos 50 e 60. Meu livro ” Barroco, do quadrado à elipse” é um exemplo da interdisciplinaridade que sempre pratiquei. É impossivel ver o Barroco da mesma maneira depois da leitura desse livro.

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