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A Comuna ao vivo no Pré-Amo 2007 (Foto: Divulgação)

ATENTADOS POP POÉTICOS
Por Alan Luna

A desembargadora do Tribunal Regional Federal da 5ª Região, Margarida Cantarelli. O cantor de rock Johnny Hoocker. Professores acadêmicos. Adolescentes e escritores. Foi para um público assim heterogêneo, que lotou o auditório da Livraria Cultura num fim de tarde de sábado, que a banda A Comuna lançou seu mais novo disco. Na ocasião, o quinteto esteve acompanhado de um inusitado sexto elemento: o festejado poeta tropicalista, cineasta e agitador cultural Jommard Muniz de Brito.

Foi a primeira execução pública do disco JMB em Comuna, que a banda dividiu com o jovial septuagenário. “Atentados poéticos” envoltos em climas etéreos. Anarquia e devoção. Ironia e improviso. Com este álbum, a banda — que agora é “ex-experimental” e se prepara para lançar um disco com canções em formato mais convencional — retoma o sentido da antiga nomenclatura. E vai acendendo uma vela para Deus e outra pro diabo. “Estamos na geléia geral faz muito tempo. Tem espaço pra canção e pro experimental”, constata o guitarrista Ricardo Maia Jr., que fala desse e de outros assuntos na entrevista concedida para O Grito!.

De onde veio a idéia de criar um álbum mesclando tão explicitamente música e literatura?
A concepção desse disco se deu quando eu e Glauco [César Segundo, piano e vocal] estávamos numa viagem de volta de Porto de Galinhas para casa, no Recife, e estava rolando no som do carro Manuel Bandeira recitando suas poesias intercaladas com o piano de Belkiss Carneiro de Mendonça, tocando Camargo Guarnieri. Então, pela amizade que já tínhamos com Jomard Muniz de Britto, vimos a possibilidade de gravar um disco com ele recitando seus “atentados poéticos”.

Procurando pelo CD de vocês com o JMB, encontrei-o na prateleira pop/rock. Está no lugar certo? A literatura pode ser pop?
Na verdade, não sei em que lugar esse disco poderia estar dentro dessas classificações de gêneros e estilos. Não há lugares certos, e sim incertos. E a literatura já é pop, estão aí os best-sellers para provar, como os Harry Potters, Nick Hornby, Paulo Coelho. O próprio JMB já subverteu tudo isso propondo em seu primeiro disco uma “Pop filosofia”, que vai mais além.

As coisas não se esgotam em si, a gente que enche o saco e depois retoma de alguma maneira

Por que musicar atentados de JMB ao invés de alguém da geração de vocês? Não há novas vozes interessantes ou as vozes antigas ainda têm muito a dizer?
Há muitas vozes que podem dizer bastante, concordo. Mas, a escolha por Jomard é uma questão de afetividade e, claro, de admiração pelo trabalho dele. Por isso, veio a calhar esse trabalho em conjunto.

Como foi o processo de criação do CD? Houve conflito geracional ou mais complementaridade entre as diferenças?
O processo criativo do disco foi bem ao estilo do nosso antigo nome agregado à Comuna: experimental. Fiz muito, com Glauco nos teclados, o esquema de escutar uma vez e ele gravar logo em seguida, improvisando de fato. Tiveram músicas que já existiam como composições tanto minhas quanto de Glauco e até de Bruno [Freire, guitarras]. E, no processo de edição das faixas, eu cortei, picotei e colei muita coisa. Limei umas palavras, frases e versos de JMB. Mudei a ordem dos textos. Colei guitarras e percussões que foram gravadas para outras coisas. Não houve conflito. Apesar de, “aparentemente”, brigarmos bastante, chegamos a consensos sem grandes traumas.

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Os meninos da Comuna

Há pouco tempo, o Chico Buarque propalou o “fim da canção”. Em seguida, o Tom Zé lançou um disco [Danç-êh-sá] composto de “não-canções”. No entanto, vocês estão preparando um álbum de canções, daí abandonarem a alcunha “experimental”. Ainda há espaço para a canção popular hoje?
Estamos na geléia geral faz muito tempo, como já disse Gil no disco Tropicália. Tem espaço pra canção e pro experimental. E essa coisa de anunciar mortes é muito manjado. Godard e Peter Greenaway mataram o cinema também. Mas, é como Glauber Rocha declarou em resposta ao cineasta francês que ainda há muito o que fazer com o cinema no Brasil. E eu amplio dizendo que há muito o que se fazer em nível da qualquer arte no mundo. As coisas não se esgotam em si, a gente que enche o saco e depois retoma de alguma maneira.

O processo criativo do disco foi bem ao estilo do nosso antigo nome agregado à Comuna: experimental

A propósito, já dá pra falar como é que vai ser o próximo disco?
A gente está fazendo um pré-lançamento na internet, tanto no nosso MySapce quanto no nosso domínio no youtube. Vamos ainda lançar um site .com, de fato: www.acomuna.com. No disco, há bastantes canções realmente, mas com algumas partes de experimentação e improviso nas próprias canções bem conservadas do nosso passado. Escutamos muito Beatles, Sérgio Sampaio, Caetano Veloso, só para citar três de muitos. As faixas variam mais em levadas de piano, violão e teclado. Há momentos mais tranqüilos, só com piano ou com violão e vozes, mas também outros com guitarras, teclados, bateria e baixo bem mais, digamos, “nervosos”. E também sempre com o bom psicodelismo rolando solto, não há como esquecer. As participações são, apenas, duas: Leonardo Vila Nova tocando percussão e Mário Lobo no sax.

Você está desenvolvendo tese de mestrado sobre a obra audiovisual do JMB. A academia tem algo a acrescentar ao artista? Há espaço para a criação na academia?

A academia tem uma linguagem própria, como a música, a poesia, a pintura. Eu acho válido fazer um trabalho sobre os audiovisuais de JMB, porque, além da monografia escrita, estou fazendo um trabalho de divulgação de seus audiovisuais, no youtube e no myspace. Já postei uns 26 filmes dele, por aí. E sobre criação na academia, acho que há espaço, sim. É preciso que haja um maior contato da sociedade e da universidade, ambas têm muito o que trocar. E sobre o texto em si, também acho que há espaço para criação, apesar das amarras do estilo acadêmico. No campo da comunicação — onde trabalho —, há interação entre várias disciplinas, o que está atraindo pessoas de diferentes áreas, como arquitetura, letras, administração, direito, computação… Essa possibilidade de poder ser multidisciplinar é positiva para uma análise mais humana e menos científica — no mau sentido, claro.

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