Ensaio Sobre A Cegueira (Foto: Divulgação)


DIÁRIOS DA CONSTRUÇÃO

Por trás da feitura de Ensaio Sobre A Cegueira se esconde uma nova reflexão – para o bem e para o mal – da obra de Saramago
Por Gabriel Gurman

A seleção de Ensaio Sobre a Cegueira para a première de abertura do último Festival de Cannes deixou claro que este filme não é só mais um. Projeto ambicioso e ousado desde a sua concepção, a grande expectativa resultou em uma fria recepção da imprensa mundial, o que foi um balde de água gelada no diretor Fernando Meirelles, que já não necessita o adjetivo “brasileiro”para acompanhar o seu nome. “Sou uma pessoa movida a desafios. Investi muito tempo e dinheiro nos meus sonhos e dei passos maiores do que minha perna aguentava”, disse o diretor em coletiva de imprensa realizada esta semana em São Paulo para promover o filme. Apesar da visível dedicação do diretor à realização do filme, é importante notar que Meirelles é apenas um dos pilares desse projeto que durou exatos dez anos desde seu primeiro passo até a finalização.

Como todos sabem, Ensaio Sobre a Cegueira é um dos maiores livros escritos em língua portuguesa de todos os tempos. Best-seller mundial, a obra foi uma das responsáveis pela consagração de seu autor, José Saramago, que, poucos anos depois, acabaria contemplado com o prêmio máximo da literatura, o Nobel. Dono de um estilo de escrita extremamente característico e inteligível à uma leitura desatenta, o ateu e comunista escritor português é conhecido também por despertar em seus leitores diversos questionamentos morais e existenciais que habitam em cada um de nós. Esta universalidade temática acarreta em diferentes visões da mesma obra, o que é acentuado ainda mais em …Cegueira pela necessidade de uma construção imagética que não possui qualquer referência de história, tempo e espaço.

Sempre contrário à idéia de liberar sua obra para o cinema, José Saramago acabou cedendo ao roteirista Don McKellar e ao produtor Niv Fichman, ambos canadenses, que, com os direitos em mãos, começaram a desenvolver o roteiro do filme. Jovem, mas experiente em seu ofício, McKellar comentou: “sabia que seria muito difícil, pois a história é fora dos padrões de Hollywood. O filme nos motiva a ver coisas de uma perspectiva diferente e vejo isso como algo libertador”.

Com o roteiro finalizado e já financiado por uma produtora japonesa, os canadenses viram na figura de Fernando Meirelles a possibilidade de realizar um filme que saísse dos padrões do “cinemão” e ganhasse a densidade que o livro propunha. O diretor, que já havia adaptado obras literárias que possuíam temática similar – excluídos que lutam contra um mal social, seja ele o tráfico e a pobreza, em Cidade de Deus, a exploração e a fome em O Jardineiro Fiel e, neste Ensaio Sobre a Cegueira, a própria cegueira em si – teve em suas mãos um estrelar elenco formado por Julianne Moore, Mark Rufallo, Danny Glover, Alice Braga, Gael Garcia Bernal, Yusuke Isea, além de uma equipe técnica de confiança que incluía o montador Daniel Rezende, o cenógrafo Tulé Peake e o fotógrafo uruguaio radicado no Brasil César Charlone.

Se a transformação da “prosa poética” de Saramago em imagens era um deasfio para diretor, roteirista e produtores, não podia ser diferente para os atores. Vinda de um período de férias no Pantanal com seu filho e demonstrando uma grande admiração por Meirelles, Julianne Moore comentou na Coletiva sobre o difícil processo de criação de sua personagem, a Mulher do Médico: ‘Foi um estudo behaviorista. Os personagens não têm história e não há nada por trás do que estão fazendo em cada momento. Isso faz com que o espectador não tenha idéia de qual será o próximo passo daquela pessoa no filme e isso é ao mesmo tempo assustador e libertador para um ator”. Prova desse desafio é que Sean Penn, o primeiro ator convidado a interpretar o médico (que depois acabou nas mãos de Mark Rufallo), recusou o papel por não saber como construir um personagem sem qualquer referência histórica do mesmo. “O papel de Julianne é fundamental, pois assim como a Mulher do Médico, o público assiste àquela gente e a situação recai na velha questão ética da humanidade, que observa e não age diante do drama alheio, o que se torna o tema principal do filme”, comenta o roteirista Don McKellar. Na visão da atriz, a personagem não passa de uma pessoa comum: “o cinema sempre apresenta uma história onde aparece um herói, mas na vida real sabemos que não é assim. Na vida normal, não vai aparecer o Batman ou o Bruce Willis para controlar o caos”.

Ensaio Sobre A Cegueira (Foto: Divulgação)

Para auxiliar no desenvolvimento dos personagens que, de uma hora para outra, se vêem imersos em uma cegueira branca, foi criado um laboratório cujo objetivo era desenvolver os sentidos de tato, olfato e audição dos atores, além de simular tarefas físicas das mais cotidianas sem que eles enxergassem. Cada um dos atores passou por um período de imersão total – através do uso de uma venda -, para, na etapa final, realizar as filmagens a olho nu ou com uma lente que os cegavam. “No começo, eu optei pelas lentes, mas depois de 20 dias, eu parei de usá-las porque já havia entrado de fato no papel”, comentou a atriz brasileira e cada vez mais internacional Alice Braga, que no filme interpreta a Mulher dos Óculos Escuros.

Outro ponto de ousadia do filme são as locações. Apesar de não serem identificados, o filme foi rodado em três países: Brasil, Uruguai e Canadá, onde foram rodadas as cenas do asilo, transformado em um campo de quarentena. A maior parte das cenas externas foi filmada em uma São Paulo destruída e abandonada, lembrando a Londres do filme Extermínio, de Danny Boyle. Quem esteve na cidade na época das filmagens, lembra da mobilização que houve na época para a realização das filmagens: “a ajuda da CET foi fundamental. Montávamos a cena durante a madrugada para filmarmos no primeiro raio de sol, quando todo mundo ainda dormia”, comentou Fernando Meirelles. A degradação do asilo também impressiona: “Foi o produtor Niv Fichman quem comentou sobre o lugar. Lá era, na verdade, uma prisão abandonada e apesar do clima tenso do filme, as gravações no local foram muito saudáveis para equipe e para os atores” ainda comentou o diretor, acompanhado dos sorrisos de Alice braga e Julianne Moore.

É nesse clima de “finalmente, conseguimos!” que o filme chega às telas brasileiras. Com um orçamento ínfimo se comparado aos grandes blockbusters americanos e exigindo atenção de seu espectador (algo visivelmente esquecido em diversas produções recentes), Ensaio Sobre a Cegueira é, antes de tudo, a realização daquilo que se considerava impossível e que poucos ousariam arriscar fazer. Se o filme fará sucesso ou não, é difícil saber, mas, se dependesse exclusivamente da opinião do autor da obra, José Saramago, o esforço de canadenses, brasileiros e japoneses o esforço de dez anos valeu a pena:

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