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SOBRE AS AGRURAS DE AMAR ALGUÉM
Honoré volta às telonas com mais um filme sobre relacionamentos amorosos, decepção e grandes problemas conjugais
Da Redação

EM PARIS
Christophe Honoré
[Dans Paris, França, 2006]

Incrível como os franceses conseguem resolver muito bem as questões de relacionamento, pelo menos no cinema. Depois de Le Chansons d´Amor, a francofonia volta ao Brasil em mais uma faceta da Novelle Vogue, no Em Paris, (Dans Paris, França, 2006). Com estréia no ano passado no Brasil, o longa não tão longo assim (92 min), percorreu os grandes circuitos sul-sudeste e ainda está chegando à locais mais distantes.

Em Paris nos conta, em uma linguagem muito pouco convencional, a delicada história de dois irmãos que, repletos de proteção paterna, se tornam fragéis demais para encarar, de frente, as incertezas da vida. E para enfretarem qualquer tipo de dor necessitam de se ajudarem mutuamente.

Esse é o terceiro longa em que Honoré faz experimentos de linguagem sob a batuta da Nouvelle Vague – e poderíamos elencar François Truffaut e Jacques Démy como as principais influências desse cineasta. Contraditóriamente, numa seqüência de ordem aleatória, faz com que a câmara se fixe em cartazes de filmes do canadense Crononberg e do americano Gus Van Sant. Cineastas que estão bem distantes de seu trabalho, tanto na temática, como no estilo. Os porquês dessas referências ficam no ar.

O filme tem partida em uma conversa inicial de Jonathan (Louis Garrel), olhando para a câmara, como se dialogasse com a platéia, da varanda do pequeno apartamento da família, que fica nas proximidades da Torre Eiffel. Esse recurso parece estranho a uma narrativa, como a que se vai seguir, de tom intimista, embora a certa altura resvale para o musical à maneira dos de Démy, um dos mais sensíveis diretores da Nouvelle.

E na trama os irmão são completamente opostos. De um lado está Paul (Romain Duris) – em depressão após o fim de seu relacionamento com Ana (Joana Preiss) – e do outro está Jonathan, o mais novo que demonstra saber curtir a vida a cada segundo conhecendo garotas com a quais mantém relações, incluindo uma ex-namorada. E ele nada mais é do que mero narrador e por que não expectador muito distante da história de sua própria família.

Somente depois a partir da volta de Paul de sua malograda temporada no campo em companhia da namorada Anna, quando o amor de ambos se acaba, a linguagem visual de Honoré ganha força e a narrativa entra nos eixos. Bipolar, Paul tem uma sensibilidade feminina à flor da pele. Ele mergulha fundo no sentimento de perda do intenso amor que sentia por Anna. Mas vai-se ver depois que não é só por isso. Recusa convite do irmão Jonathan para sair, refazer, ao sol da manhã, o antigo percurso que ambos costumavam cobrir antes da ida dele para o campo. Ele prefere ficar todo o tempo fechado, escondido na cama, ouvindo música ou simplesmente olhando para o ar.

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Cena de Em Paris, que chega atrasado aos cinemas do resto do país. Foto: Divulgação

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Honoré, que aqui é diretor e também roteirista, mostra-se sensível na escolha de seus personagens, mais delicado ainda em seu amor pelo cinema francês. Em Paris mostra-se uma colagem de melhores momentos dos mais variados estilos e escolas, em especial a Nouvelle Vague, um dos principais movimentos de renovação do cinema francês, nos anos 50 e 60. O diretor pega emprestado cortes e monólogos de François Truffaut e Godard, pegando inspiração no clima de romantismo em filmes como Domicílio Conjugal e Beijos Roubados.

Mesmo com tantas fórmulas apreendidas em seus estudos, Honoré consegue não perder a originalidade nas formas da luz e sombra, tristeza e alegria, esperança e desespero com os dois personagens antagônicos e o mesmo tempo complementares.Foto: Divulgação As homenagens aos grandes da direção francesa não ficam apenas nos aspectos cinematográficos, mas com a personagem da mãe dos irmãos-problemas (Marie-France Pisier, estrela de alguns filmes de Truffaut, como Amor em Fuga). As figuras femininas no filme, aliás, são pouco citadas, ficando apenas em pequenos momentos como nas lembranças de Paul da degradação de seu relacionamento, as mulheres do caçula (três, ao longo do dia) e uma breve visita da mãe.

O elenco merece uma parabenização especial. Nada seria de um bom roteiro sem grandes atores para interpretar. O desafio da profundidade de interpretação buscado por Honoré é recompensado em Garrel e Duris, dois atores que correspondem à altura o desafio de retratar personagens tão complexos. A dupla de irmãos são o contraponto humano à experiência visual de Em Paris, filme que tão brilhante em seus diálogos passa quase despercebido no absurdo de um homem pular de uma ponte por uma decepção amorosa.

NOTA: 7,0

Em Paris – Trailer

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