Meryl Streep como a irmã linha-dura: recorde de indicações ao Oscar (Foto: Divulgação)

DUVIDAR É PRECISO?
Sem negar suas origens, Dúvida, baseado numa peça teatral tem na interpretação seu principal marketing e força criativa
Por Daniel Herculano

DÚVIDA
John Patrick Shanley
[Doubt, 2008]

Você acreditaria na palavra de um padre que sempre pregou o poder da dúvida em nossas vidas? Em Dúvida de John Patrick Shanley (baseado em sua própria peça vencedora do Pulitzer), testemunhamos de perto um caso de como uma simples dúvida pode mudar a vida de qualquer pessoa.

Estamos na América de 1964. O presidente está morto, o sonho acabou e o racismo ainda sobrevive. São tempos negros, cinzas, sem cores. Mas a igreja ainda influencia e representa boa parte do sentimento da população americana, seja ela em qualquer classe.

Alertada pela inocente irmã James (Amy Adams), a lendária irmã Aloysios (Meryl Streep), duvida que o garoto negro Donald Miller (Joseph Foster) esteja sendo apenas protegido e educado pelo padre Flynn (Philip Seymour Hoffman), e o que estaria acontecendo seria um caso clássico de pedofilia.

Ele, a carismática figura dentro da paróquia e hierarquicamente superior. Ela, a linha dura que parece ser preenchida apenas com um sentimento irascível de inquisidora. Um combate sensacional capitaneado por atuações fulgurantes de Hoffman e a já eternamente glorificada Streep. Somos adornados ainda com mais duas belas interpretações. Amy Adams brinca (no bom sentido) com a imaturidade de sua personagem, e Viola Davis reverbera dramaticidade em poucos, mas preciosos minutos em cena como a mãe negra do garoto. Santas e apaixonantes lágrimas urgem dos seus olhos, refletindo até no mais duro dos espectadores.

Suas cinco indicações ao Oscar não negam suas origens teatrais, sendo texto e atuações as forças da obra. Concorrem o (bom) roteiro adaptado (assinado pelo próprio Shanley) e as atuações de Hoffman (cravando mais uma, aqui como coadjuvante), Streep indicada como atriz (cada vez mais recordista, totalizando 15 indicações), Adams e Davis, que já podem se sentir premiadas por estar entre as indicadas, disputam como coadjuvante.

Shanley ainda capricha na ausência de cores dos cenários e nas inquietações sem freios que nossa mente pode gerar frente às interrogações. Precisamos mesmo duvidar diante de algo que não é provado? Do que vale sua postura e imagem impecável quando somos colocados á prova? Você crê que uma dúvida pode gerar outra? E outra? Pense de novo.

E Meryl Streep merece mesmo ganhar mais um Oscar? Merecer ela merece, mas talvez não leve por causa do peso de duas vitórias anteriores (atriz por A Escolha de Sofia, de 1982, e de coadjuvante por Kramer Vs. Kramer, de 1979) e da forte concorrência (Kate Winslet concorre por O Leitor, de 2008, e tem a seu favor um sentimento de dívida da Academia). Mas não duvide se sua força nem por um segundo.

NOTA: 8,0

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