Gertrude Stein (esq.) e sua companheira Alice Toklas | França 1983

ENTRE IGUAIS
Jornalista norte-americana escrutina a vida da judia Gertrude Stein que manteve uma relação homossexual saindo ilesa de todos os acontecimentos da Europa Nazista
Por Rafael Dias

DUAS VIDAS – GERTRUDE E ALICE
Janet Malcolm (trad. Patrícia de Queiroz C. Zimbres)
[Editora Paz e Terra, 240 págs., R$ 47]

Uma era a “abelha-rainha”, bonachona e ególatra; a outra, a “operária”, raquítica e feia, que tudo fazia: governanta da casa, deixava as coisas em ordem, fazia as vezes de serviçal, assumia o posto de braço-direito no processo de escrita (revisava os originais e datilografava as versões finais) e…, não menos importante, dava amor. A relação da escritora Gertrude Stein e a sua companheira Alice B. Toklas não impressiona apenas pela dicotomia de “gênios” em um caso amoroso homossexual. O que causa estupefação é a resistência de um pacto conjugal em meio a um cenário totalmente hostil. Por mais de 30 anos, Getrude e Alice viveram um idílio mais que concreto na França, incólume às bombas, à luta travada nos bunkers da IIª Grande Guerra e ao Holocausto.

Pelo teor inusitado, a história de vida das duas lésbicas judias norte-americanas, é claro, virou uma biografia. Duas Vidas – Gertrude e Alice, publicado no Brasil pela editora Paz e Terra, é, na verdade, um ensaio híbrido de crítica literária e relato autobiográfico, escrito pela jornalista americana Janet Malcolm. Originalmente, os textos foram publicados em várias partes na revista The New Yorker, na qual Janet trabalha. A obra, que reúne dados aprofundados e apreciações literárias sobre a obra de Stein, é um profícuo trabalho de pesquisa e uma interessante narrativa sobre um caso tão auspicioso quanto controverso.

O caso talvez nem tivesse tanto alarde não fosse a trajetória conturbada de uma delas. Filha de imigrante alemão de origem judaica, Gertrude Stein é mais conhecida pela sua excentricidade que pelo seu valor como escritora. Nascida em Pittsburgh (EUA) em 1874, mudou-se para a Europa na adolescência, em 1903, para morar com o irmão mais velho, Leo Stein, em Paris, e se dedicar às letras. Desenvolta no ambiente da efervescente vanguarda européia do século XX, a poetisa transitava entre lares e mesas de discussão freqüentados pela intelligentsia francesa. Pablo Picasso, Matisse, James Joyce e Ezra Pound eram seus amigos de sala de estar. Apesar do apreço e afinco à literatura, teve apenas um livro entre os best sellers, Autobiografia de Alice B. Toklas, prensado no Brasil pela LP&M.

Foi na casa do irmão Leo que Gertrude iria conhecer a sua companheira de longa jornada, confidências e brigas. Alice foi viver com os dois em 1909, mas logo depois Gertrude rompeu a amizade intensa com o irmão e passou a morar sozinha com a “amiga”. O que é curioso é que elas nunca se trataram como “casadas” ou “namoradas”, nem perante os mais íntimos, por medo de retaliação, embora muitos já soubessem. A vida, entre elas, era estritamente privada.

Alguns amigos, no entanto, presenciavam algumas situações bastante pessoais. Uma vez, Ernest Hemingway foi testemunha de um ataque de ciúme de Alice Toklas, que exigia a mudança de palavras nos textos originais, no que Gertrude acatava. Apesar das rusgas e discussões diárias, uma sempre se manteve fiel à outra. Segundo Janet Malcolm, Alice foi fundamental para o florescimento do gênio de Gertrude, pois enquanto a primeira assumia o trabalho braçal, a outra tinha tempo de sobra para concatenar as idéias e escrever seus livros.

Ilustrado com fotos, o livro é dividido em três partes: a primeira sobre o encontro entre Gertrude e Alice e as dificuldades para sobreviverem às ameaças do nazismo alemão; a segunda, uma análise crítica de The Making Of Americans, livro frustrado de Gertrude com o qual, segundo ela, queria se equiparar a Ulisses; e no último trecho, dedica-se a investigar a ascendência judaica das duas companheiras.

Mas o ponto crucial do livro se detém a desvendar por que e como Gertrude e Alice puderam resistir ao movimento anti-semita na Europa sob ocupação de Hitler. Simples: elas contavam com o apoio do amigo e escritor francês Bernard Fäy, que tinha relações escusas com a Gestapo, a polícia secreta nazista. A história não é um conto de fadas de Hans Christian Andersen, porém tem seus feitos heróicos e um laivo de inusitado.

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