Primeiro álbum brasileiro de Túlio Caetano promove experiência estética e visual
Por Paulo Floro

DR. BUBBLES & TILT 1 – SIDERAL
Túlio Caetano (texto e arte)
[Zarabatana Books, 42 págs, R$ 39,90]

Criou-se uma campanha de marketing espontânea – sobretudo por parte de jornalistas – para vender o livro de estréia de Túlio Caetano como um “álbum de estilo europeu”. Europeu no que tem de melhor, diga-se. De fato, após passar mais de 10 anos na França, onde começou a carreira de quadrinhista, Caetano conservou algumas características que saltam aos olhos à primeira impressão de sua obra, entre elas o uso de painéis e formato grande do livro.

Mas este livro merece um outro olhar menos afetado. Caetano consegue numa história curta transpor o leitor para um nível de realidade vivido pelos personagens, incluindo aí viagens “lisérgicas”. Dr. Bubbles é um eminente geneticista que trabalha em uma secreta e subterrânea instalação da gigante multinacional Genetechx. Após pedir demissão ele se encontra com Tilt, um junkie que vive numa eterna viagem de drogas ao lado de sua TV e que servirá aos experimentos do doutor.

O álbum é baseado em informações visuais, ainda que seu roteiro seja bem construído e dinâmico. Todos os desenhos carregam informações importantes à trama e apresentam referências que possibilita uma infinidade de possibilidade de interpretação por parte do leitor. Alguns recursos são desconcertantes, como a doença de pele do Dr. Bubble, que piora e aumenta de tamanho em momentos de tensão. O mais interessante é o uso das perspectivas incomuns, provocando uma sensação de desnorteamento em quem lê, tanto são os ângulos confusos. Esta experiência espacial é algo marcante no livro, e merece ser registrado como a principal colaboração de Caetano aos quadrinhos brasileiros.

O uso da coloração chapada e o estilo cartunesco garantem o clima caótico até o fim. O indicativo de primeiro volume indica que novos álbuns devam vir por aí, possibilitando um maior aprofundamento nos personagens principais, negligenciado nesta primeira edição. Mas talvez o intuito do autor seja justamente esse, usar artífices para apenas guiar o leitor num mundo de caos, oprimido pela informação constante e onde as drogas representam tanto um escapismo dessa realidade quanto um mergulho mais profundo e perigoso. [Paulo Floro]

NOTA: 8,5

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