Cena da peça "Retomada". (Divulgação).

Cena da peça “Retomada”. (Divulgação).

A cena alternativa contemporânea é composta por um quadro altamente heterogêneo e multifacetado, com estéticas bem diferentes entre si, como A Cia de Teatro e Dança D’improvizzo Gang, o Teatro de Fronteira e os biodramas, o Magiluth que investe no jogo e no abandono dos signos de tempo e espaço, o teatro físico e antropológico do Poste, a multi-linguagem performática do Totem, o Coletivo Grão Comum, a Cia Omoiós, entre muitos outros. Há também os que apostam no teatro em casa, uma vertente do alternativo, uma cena mais próxima, mais íntima. Entre alguns artistas/produtores que abriram as portas de suas casas para o teatro estão as atrizes Nínive Caldas, Hilda Torres e Márcia Cruz, e os diretores/encenadores Jorge Clésio e Rodrigo Dourado.

O que faz um trabalho teatral ser alternativo? A ocupação de um espaço não convencional, a produção, linguagem, novas dramaturgias? O que sabemos é que a cena alternativa em Pernambuco já acontece desde os anos 70, momento pulsante do nosso ‘udigruidi’. Nesse período o teatro alternativo foi uma trincheira de resistência e ebulição, provocada por grupos como o Vivencial, o TUBA, o TEO, o Ponta de Rua, entre outros. Neste período aconteciam apresentações em igrejas, bares e galpões. Nos anos 80 a produção independente viu surgir grupos como o Trem Fantasma, a Ilusionistas Corporações Artística, o Coopera, o Totem, entre outros, e espaços como o Abraxas em Olinda, um epicentro da produção alternativa e experimental, capitaneado por Fred Nascimento e Lau Veríssimo.

Os bares Depois do Escuro, Três por Quatro e o De Vento em Popa, no Recife, abrigaram uma produção teatral alternativa, situada num território situado entre o teatro e a performance, levada à cena por artistas como Henrique Amaral, Mozart Guerra, Augusta Ferraz, Moisés Neto, a lista é enorme. Período em que já se experimentava dramaturgias do espaço, criações coletivas, dramaturgias fragmentadas, uma maior exposição corporal dos atores e atrizes, e uma intensa interação com o público, configurando um teatro mais provocador. No início dos anos 1990 aconteceram duas edições do Festival Nacional de Arte Alternativa Trópicos Utópicos I e II, em Olinda, de real importância por seu caráter alternativo de produção. Durante os anos 2000 o Coletivo Laboratório Multicultural também promoveu mostras alternativas de arte, abrangendo teatro, performance e outras linguagens artísticas. Os Festivais Curta Cena, produzidos pelo Grupo Marco Zero, a Mostra FRONT – Fronteiras Teatrais, capitaneada pelo Totem, são parte dessa história de resistência.

A partir da virada do milênio, entramos na era dos editais, mas o alternativo continuou no seu caminho paralelo, e o que não falta são razões para que continue existindo, sejam elas estéticas ou de ordem econômica, como a falta de recursos financeiros, criações atreladas à pesquisas, a busca por novas formas dramatúrgicas, os processos criativos de atores-autores, as dramaturgias do corpo, a desconstrução teatral, a busca de uma nova espacialidade, a mistura de gêneros, a infecção do teatro pela performance, talvez, a principal responsável pela renovação do teatro, geradora de novas poéticas e estéticas, a partir da diluição das fronteiras, do hibridismo, da quebra de hierarquias, etc. Não há uma receita para o alternativo, hoje coexistem múltiplas formas e modos de se fazer teatro, algumas poéticas se encaixam mais dentro do conceito de teatro pós-dramático, outras estão mais para o performativo e o performático, sem que uma exclua a outra.

Importante registrar ações e iniciativas de grupos como o Magiluth com o Festival Pague Quanto Puder, o Trema! Plataforma de Teatro e seu Festival de novas dramaturgias, o Movimento de Teatro em Casa que emplacou uma mostra dentro do Janeiro de Grandes Espetáculos e outra na Casa Galeria Galpão como parte da programação do FIG 2016. Para fechar aconteceu recentemente o Outubro ou Nada – a 1ª Mostra de Teatro Alternativo do Recife, já vitorioso, por agregar tantos grupos, artistas, estéticas e espaços, um alimento de esperança em tempos tão sombrios.

Enfim, como disse um dia Raul Seixas: “o hoje é apenas / um furo no futuro / por onde o passado / começa a jorrar.

Cenas da performance "Nem Tente". (Divulgação).

Cenas da performance “Nem Tente”. (Divulgação).

teatro

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