PARENTE É SERPENTE
Com “Dois Irmãos”, o diretor portenho Daniel Burman fortalece a narrativa focada na vivência dos personagens

Por Davi Lira
Colaboração para a Revista O Grito!, no Recife!

A uniformidade e a sobriedade ainda são aspectos menosprezados na produção audiovisual contemporânea. Mas é na beleza da melancólica e sensível introspecção do sóbrio que se encontra o verdadeiro valor da narrativa de Dois Irmãos. O sétimo filme do diretor portenho Daniel Burman, lançado no primeiro semestre na Argentina, foi extremamente mal recebido no Festival Internacional do Rio de Janeiro, no final de setembro. A película, baseada no romance Villa Laura, do também argentino Sergio Dubcovsky, entrou nas salas de exibição de algumas cidades brasileiras no mês passado. O longa foi exibido dentro da mostra Retrospectiva/Expectativa, do Cinema da Fundação, no Recife.

Dois Irmãos é um sensível registro que sintetiza de forma honesta e fiel a complexa relação fraterna que envolve irmãos. No filme, o eixo estético se concentra bastante no sentido humano da condição de orfandade. De uma solidão de uma mulher e um homem já na meia idade, envolvidos com seus medos, contradições, conflitos, e submersos no difícil relacionamento marcado por enfrentamentos agravados após o falecimento da mãe.

É com a morte da personagem de Elena Lucena, que o filme toma rumo com as excelentes representações de Graciela Borges e Antonio Gasalla, importantes atores do país vizinho, ele da TV; ela de todos os palcos. Vai ser a partir desse fato que Susana e Marcos encenarão com mais clareza essa verossímel história da vida real. Dois irmãos se aproximando dos 60, solteiros, sem filhos, que se combatem, cada um a sua forma.

Reconhecido por um cinema de laços judaicos e abordagens familiares (Abraço Partido, Lei de Família, O Ninho Vazio), Burman deixa a marca religiosa de lado e se apoio firmemente na grandeza da ambientação da vivência de seus personagens. O drama é preenchido pela ternura do relato da vida desse casal de irmãos, de posturas tão particulares. De um lado uma mulher soberba, elegante, mandona, que chega a ser falsária simulando ser consultora imobiliária para ostentar certos padrões sociais; de outro, um homem culto, devorado pela ação impositiva da irmã, ainda mal resolvido sexualmente e que reservou grande parte de sua vida à cuidar da mãe enferma.

Duas realidades, mesmo que distintas, marcadas por certos graus de introspecção e aproximadas por uma série de cenas cômicas e divertidas. Talvez as melhores delas resumidas na entrada forjada ao coquetel oferecido pela Embaixada Brasileira em Buenos Aires, e especialmente na mudança (forçada pela irmã) de ambos a uma pequena vila do vizinho Uruguai (em busca de uma vida mais barata). Mas é lá que Marcos vai se envolver com o teatro e se encantar por outro mundo, o de si próprio. Vai ser nas constantes idas e vindas que Suzana também vai iniciar um novo período da sua vida, talvez apenas percebido de forma mais clara com a apresentação de Édipo Rei pelo retraído irmão.

» Entrevista com a protagonista do filma, Graciela Borges

Daniel Burman demonstra um extremo domínio narrativo enriquecido por uma bela fotografia contextualizada com os estados de ânimos dos irmãos, que são retratados de forma nominal, mas que são representativos de uma universalidade ímpar. Essa, que é talvez, a grande marca do Novo Cinema Argentino, é discretamente retratada através da própria relação fraterna entre ambos. Irmãos que não conseguem viver juntos, nem separados.

Eles, na verdade, são filhos que nunca se permitiram sair da própria condição de família, e que sempre (como tantos outros irmãos) vivem envoltos de brigas e discussões infantis que impedem maior partilha de sentimentos, e até aproximação espontânea. Mas o delírio de grandeza de Susana se esvai durante o encontro com a singeleza metafórica da apresentação da obra de Sófocles pelo irmão. É nesse momento, que está longe de ser um instante de redenção, que a irmã reconhece as fraquezas, aprecia mais a profundidade alheia e deixa o passado de brigas e imposições em outra atmosfera, a mais mundana. Nessa encenação do real, Graciela Borges e Antonio Gasalla buscam deixar de viver sob o estigma do engano e do imaculado, para se expor na verdadeira e não menos complexa relação fraterna entre pessoas que compartilham o mesmo sangue.

Dois irmãos é mais um dos registros que fazem de Burman um diretor daqueles que vale a pena esperar o que vem adiante, em termos de novas produções. É a sobriedade uniforme, banhada pelas águas do rio da Prata, se colocando como mais uma possibilidade de abordagem nesse novo panorama mundial do cinema.

DOIS IRMÃOS
Daniel Burman
[Dos Hermanos, Argentina, 2010]

NOTA: 9,0

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