MOSAICO TURCO
Por Rafael Dias

DO OUTRO LADO
Fatih Akin
[Auf der Anderen Seite, Turquia, 2007]

Fatih Akin gosta de tocar em feridas. E falar de amor e ódio. Das faíscas que saem desse entrechoque de sentimentos que convergem para o que pressupomos entender como (in)tolerância. Pois é sobre esse tema, espinhoso e quase sempre evitado, que o diretor alemão de ascendência turca (ontologicamente, ele é o filho de um conflito cultural) se debruça. E com primor. Em Do Outro Lado (Auf der Anderen Seite), que estréia esta semana no País, ele constrói um mosaico de identidades culturais e desencontros que põe na berlinda a relação com o “outro”, o multiculturalismo e a utopia da diversidade de gêneros e costumes – assuntos, por assim dizer, mais que atuais.

Engenhoso e criativo, o enredo que rendeu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes deste ano é mesmo o grande achado do filme. A maneira sóbria de narrar e a atualidade da história saltam da película de modo que as falhas ficam menores. É uma obra que, antes de tudo, propõe algo e não apenas denunciar problemas e fissuras na estrutura da sociedade. Sob um filtro humanista, a ficção busca a reconstituição do amor e dos laços perdidos para histórias de dramas familiares que se entrelaçam pelo acaso.

As angústias pessoais são apenas o mote, é claro, para Akin adentrar no mérito do discurso político – o que é uma atitude louvável em tempos de apatia e convulsão social. O apartheid étnico-social (ainda que velado) entre alemães e turcos é, na verdade, o pano de fundo da história, que contrapõe seis personagens diferentes e suas diferentes formas de pensar. Na ponte entre os dois países, Do outro lado pinta um manifesto político a favor da tolerância e do respeito pelo outro, que deveria estar acima de questões nacionalistas ou direitos supostamente “democráticos” a serviço de outros interesses.

O filme interliga a vida de personagens que, embora tenham um forte vínculo capaz de mudar seus destinos, não chegam a se encontrar em um único plano. Como nômades sem identidade e terra, eles trafegam na rota (e descaminhos) entre a Alemanha, rica e civilizada, e a Turquia, pobre e sob regime autoritário. Entre eles, o motorista de táxi Ali Aksu, que conhece a prostituta Yeter Öztürk e, após se dizer apaixonado, a convida para morar em sua casa. O filho de Ali, o professor universitário Nejat Aksu, não aprova a relação, mas se compadece com a história de Yeter, que diz ter deixado a única filha em Istambul para tentar a vida em Bremen. Com a morte da imigrante turca, Nejat resolve viajar à Turquia para buscar Ayten, filha de Yeter e ativista política, que, por sua vez, irá se apaixonar por uma alemã, Lotte Staub, durante o exílio na Alemanha.

É interessante como Fatih Akin não cruza as histórias à toa. Ouvir o outro e reconhecer nele uma alteridade que se complementa ao “eu” seriam a premissa para, pelo menos, diminuir (e não acabar, pois é parte natural) com os choques. Por interpor histórias simultâneas, que se afastam e se aproximam em vários momentos pela ironia do destino, o filme guarda muita semelhança com o formidável Amores brutos, do mexicano Alejandro González Iñárritu. É uma lição dolorida, mas que, se levada a cabo, traria menos dores ao mundo.

NOTA: 8,5

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