COMO SE CONSTRÓI UM MITO
Lady Gaga é exemplo da estratégica construção de uma estrela pop; cantora tem desafio de segurar o hype em novo disco

Por Marta Souza
Da Revista O Grito!, no Recife

Ela surgiu em videoclipes com cenários incomuns, porém marcantes, e figurinos exóticos. De tantas vezes repetidos no rádio e na televisão, os refrões das músicas dela são absorvidos rapidamente pelos ouvintes. Bastou um ano para ser comentada em sites sobre música e moda na internet, dois anos para ser capa das mais renomadas revistas culturais do mundo, e, três, para ganhar oito estatuetas no Video Music Awards (VMA). Depois de uma superexposição no último ano, existe uma pressão para que o sucesso – e o hype – em torno de sua imagem continue em 2011, com o lançamento do novo disco previsto para maio.

Desde 2007, Lady Gaga já vendeu 10 milhões de cópias dos dois álbuns que gravou até agora, além de 25 milhões de cópias em singles. Em abril de 2010, Bad Romance foi declarado o vídeo mais assistido da história no YouTube, ultrapassando a marca de 180 milhões de visitas. Em outubro, ela bateu mais um recorde e superou Justin Bieber, sendo a primeira a atingir um bilhão de acessos no site, na soma acumulativa de visualizações de seus clipes. Mas qual é a fórmula para um sucesso tão grandioso?

Antes de ser o maior ícone do pop da atualidade, Lady Gaga era Stefani Joanne Angelina Germanotta, filha mais velha de um casal ítalo-americano da classe alta de Manchester, Nova Iorque. Na adolescência, ela já participava de festivais de talentos e escrevia músicas para artistas como Britney Spears, The Pussycat Dolls e Fergie. Mas o fenômeno Lady Gaga surgiu depois que ela conheceu um experiente produtor musical, um excelente stylist e soube potencializar, como nenhum outro artista dessa geração, o espaço da internet.

De Stefani a Lady Gaga
Em 2005, o produtor musical Rob Fusari, seu namorado na época e coautor das primeiras canções, comparou a voz de Stefani a de Freddie Mercury, do Queen. Por conta da aproximação, ele a apelidou de “Gaga”, referindo-se à canção Radio Ga Ga. Stefani começou a usar o apelido como nome artístico e, a partir daí, ficou conhecida como Lady Gaga. Apesar de ter sido o grande mentor do início da carreira da cantora e de ter conseguido o primeiro contrato dela com uma gravadora (Island/Def Jam), hoje, Fusari move contra a cantora um processo de US$ 30 milhões, reivindicando royalties e lucros de merchandising pelas ideias que teria lhe dado.

Em 2007, com a ajuda do rapper Akon, Gaga assinou contrato com a Interscope Records. No álbum de estreia, The Fame, ela contou com o produtor musical RedOne, conhecido por seus trabalhos com artistas como Kylie Minogue e Michael Jackson. Em entrevista à BBC londrina, em agosto deste ano, RedOne afirmou que o grande segredo de um bom produtor é o artista com quem ela trabalha: “As gravadoras pedem constantemente para que eu crie sucessos como ‘Poker Face’. Eu respondo dizendo que não depende só de mim. Eu criei essa música, mas quem a fez foi Lady Gaga, essa música é como sua respiração. Ela e eu temos feito tudo corretamente, e a prova disso são milhares de pessoas que compram a nossa música.”

Músico, compositor e produtor musical há 17 anos, Flávio Medeiros acredita que uma boa produção faz grande diferença num mercado tão competitivo. “Gaga está inserida num segmento pop, no qual a produção tem muita importância, pois segue tendências atuais de sonoridade e mercado. Mas o fator sucesso só existe se a música, que é a matéria-prima, for realmente boa, e aliada a uma boa campanha de marketing. Ela possui os dois. Porém, tudo isso demanda muita grana e conhecimento. O produtor e sua equipe assinam o trabalho, e também lucram com o iminente sucesso”, explica.

Foi em 2007, também, que a artista começou a adicionar ao guarda-roupa um estilo mais excêntrico. Quem ajudou Lady Gaga nessa transformação foi a DJ e estilista Lady Starlight, que criou figurinos a serem usados em suas apresentações. Junto com ela, Gaga começou a cantar em clubes como o Mercury Lounge, The Bitter End, e no Rockwood Music Hall, com a apresentação chamada de Lady Gaga and the Starlight Revue. “Fui a Angie Bowie de Gaga”, afirmou Lady Starlight, em referência à ex-mulher de David Bowie, que inventou com ele as personas de Ziggy Stardust, Aladdin Sane e Thin White Duke, de quem Gaga é fã, assim como de Madonna e Prince.

Em 2008, ela começou a trabalhar com um coletivo de estilistas, diretores de criação e de videoclipes, maquiadores, fotógrafos e designers chamado Haus of Gaga, que hoje colabora com suas apresentações e figurinos. Foi a partir dessa parceria que ela começou a ser chamada de Diva Monster, devido às roupas extravagantes e o aspecto esquisito.

A editora de moda da Folha de S.Paulo, Vivian Whiteman, acredita que os delírios estéticos da cantora deram origem a uma espécie de religião baseada no seu dance grudento e nas roupas abusadas: o gagaísmo. “Se Lady Gaga é uma deusa fashionista, o stylist nipo-italiano Nicola Formichetti é seu profeta”, afirma. Formichetti é diretor criativo e de moda da Vogue Hommes Japão, editor de moda senior da Another Man e editor colaborativo das revistas V e V Man. Além de ser stylist também de Ashton Kutcher, Scarlett Johansson e Justin Timberlake.

Numa entrevista para o jornal americano The New York Times, Formichetti falou sobre a composição das peças usadas por Gaga. Para ela, ele adota alguns padrões de estilo e atitude, e entre as “leis de Gaga” – que ficam entre a futilidade, o deboche e a diversão fashion – estão as regras de jamais aparecer em público sem um modelo calculado e escrever mensagens visuais com a roupa. “Precisa ser algo que nunca ninguém tenha visto antes, algo que seja ultrajante e que talvez algumas pessoas odeiem. Isso é o que amo nela, é bem parecido com meu trabalho. Vivemos num mundo de imagens. Quem domina a imagem tem o poder”, disse o stylist.

Atualmente, Lady Gaga é cobiçada pelas maiores grifes do mundo, que querem associar suas marcas ao fenômeno pop do momento. “Ela só é esse sucesso devido à sua excentricidade e às abordagens diferentes de Formichetti, que é um profissional inteligente e não tem medo de ousar nas propostas. Ele tem sorte de ter uma cliente e parceira como Gaga, que entra na onda e segura o look”, comenta o stylist e designer de moda Ander Oliveira.

De acordo com o crítico de música da Bravo!, Pedro Alexandre Sanches, os looks da nova diva retratam as correntes estéticas que marcaram o século 20. “Quando sai à rua com uma lagosta servindo de arranjo de cabelo, Lady Gaga faz lembrar o clipe Rock Lobster (1979), da banda new wave The B-52’s. Se um dia usa peruca e roupas sensuais à Marilyn Monroe, no dia seguinte pode estar a cara do horripilante roqueiro Marilyn Manson. Em outras ocasiões, prefere invocar a iconografia católica. Pouco adiante, encarna uma mocinha meiga dos anos 1950, à moda de filmes como Grease ou Hairspray. Depois, adota um cabelo punk parecido com o dos integrantes do grupo Sex Pistols”, escreveu em matéria sobre a cantora na edição de maio de 2010 da revista.

Ironia e internet
Uma palavra que pode resumir a relação que Lady Gaga tem com a indústria fonográfica e o universo das divas é ironia. Segundo a professora do programa de pós-graduação em Arte, Educação e História da Cultura da Universidade Mackenzie e colunista da Cult, Márcia Tiburi, Lady Gaga é uma diva que sabe que é diva. “Ela deixa a ironia clara quando exagera na vestimenta e na coreografia. É sarcástica também com os homens. O destino deles, tanto no clipe de ‘Bad Romance’ quanto em’ Telephone’, é a morte. Já em ‘Alejandro’, ela inverte os papéis: são os homens que são objetos e não mais as mulheres. Ela não deixa de se fazer de diva, mas, ao mesmo tempo, brinca com o universo que a cerca”, opina Tiburi.

Um dos principais fatores que a conduzem ao posto de diva, nesta década, é a maneira que utiliza a internet a seu favor. Além de ser a mais vista do YouTube, Gaga é a primeira artista a vender quatro milhões de downloads apenas de seus dois sucessos iniciais, “Just Dance” e “Poker Face”. Ela tem mais de seis milhões de seguidores no Twitter, um pouco mais de 19 milhões no Facebook e possui uma conta no Myspace. E é por causa desses números que o professor Mathieu Deflem, da Universidade da Carolina do Sul, em 2011 iniciará um módulo acadêmico em que a artista é o tema científico a ser debatido. O curso se chama Lady Gaga e a Sociologia da Fama.

“Ao contrário de outras divas, como Madonna, por exemplo, que não expõem suas vidas e sempre parecem ser pessoas inatingíveis, Lady Gaga procura se relacionar bem com as mídias sociais, fazendo com que o fã se sinta parte da sua vida. Eles se consideram os little monsters dela”, exemplifica o editor de suplementos da Folha de Pernambuco, doutor em comunicação e cultura contemporâneas pela UFBA, Thiago Soares.

Agora, resta aos fãs esperarem as novidades e esquisitices dessa diva do pop. Em maio deste ano chegará às lojas e a internet o álbum Born This Way, segundo da carreira da artista. Mas a diva monster já mostrou que sabe usar os ingredientes certos, e o resultado dessa fórmula é o mundo pop aos seus pés.

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