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E FEZ A ESCURIDÃO EM MEU CORAÇÃO…
Por Breno Soares, especial para O Grito!

“Puta, santa, demônio, amante, louca ou anjo, não há outra voz no rock, no jazz ou na vanguarda musical com sua violência, com sua abrasadora paixão e pura força elementar”. John Gill- “Time Out London”.

Diamanda Galás é uma artista como poucas são. Considerada uma artista Avant Gard, trata de temas variados em suas canções, como AIDS, genocídios étnicos, política, religião e, até mesmo, guerra biológica. O interessante é que sempre esses temas surgem em suas canções quando eles estão sendo pouco abordados ou até mesmo antes de seu massivo surgimento em jornais ou publicações de grande circulação. Quando o mundo sentia o medo de uma guerra química, por causa da invasão do Iraque, Diamanda tinha feito um disco quase que completo falando sobre o assunto, 10 anos antes.

Obcecada pelo vampirismo e uma grande defensora das minorias, Diamanda nunca foi facilmente compreendida pelo grande público. Filha de um professor de mitologia grega, tocador de baixo e trombone em uma orquestra de jazz, foi iniciada na música tradicional grega e árabe. Seu pai costumava dizer que cantar era para idiotas e prostitutas e sempre foi contra a iniciação vocal de Diamanda, que aos 14 anos era concertista da Orquestra Sinfônica de San Diego. A partir daí, sua vida e carreira colecionaria fatos controversos e curiosos.

Com a perda seu irmão, vitima da AIDS em 1986, ela se tornou engajada no tema e ativista de grupos gays e de prevenção contra o HIV, como também a fez tatuar em sua mão “we are all HIV+” (todos somos HIV+). Já foi presa em 1989 em Nova Iorque, em uma manifestação de um grupo ativista gay, acusada de distúrbio da ordem pública e logo em seguida em 1990 foi acusada por “blasfêmia contra a Igreja Católica Romana” após uma apresentação no Festival Delle Colline na Tosaca. “Satã mora mesmo nos EUA, agora mais do que nunca” disse Diamanda à época.

Diamanda é raiva, protesto, angústia, sombras e morte. Ela canta com voz poderosa enchendo os espíritos de medo mostrando que escuridão e a morte estão para todos aqueles que se conformam. Escancarando suas referências, posou para as lentes da fotógrafa Annie Leibowitz nua e presa a uma cruz em chamas, para uma edição da revista Vanity Fair. “Ela tem sido comparada a uma vampira, a uma Valkiria e a uma rainha lagarto – todos apropriados, desde que ela pareça pronta para sugar a vida de seu ainda pulsante coração…”, disse um editorial da Time Out New York, em fevereiro de 2007.

Diamanda impregna em suas canções um misto de mistério, escuridão, revolta e protesto. Cantando quase sempre acompanhada apenas de um piano, ela consegue deixar o público atônito não apenas com sua voz forte, mas também com sua atuação no palco, com sua linguagem corporal bastante expressiva. No álbum Defixiones, por exemplo, um disco muito complexo e lírico, “Remanescente da obra musical de Galás referente aos anos 80, isto é, à sua fase mais experimental e vocacionada para a exploração de uma temática específica” (Mondo Bizarro #18), temos Diamanda falando sobre o genocídio dos cristãos da Ásia Menor e em menor quantidade, do genocídio proporcionado pelos turcos.

“Num mundo conspurcado pelo Mal e polvilhado por interesses demoníacos, cujas manifestações se revelam através da AIDS, da morte, do sofrimento ou de genocídios, Diamanda Galás representa uma tentativa de cura libertadora. Uma cura que expurga esses males, uma cura que se materializa numa das vozes mais feéricas e ameaçadoras que alguma vez se ouviu no panorama da música contemporânea” escreveu Victor Afonso, na revista Mondo Bizarre.

Álbum: La Serpente CantaJá no álbum La Serpenta Canta, um disco ao vivo gravado em Adelaida na Austrália, com ela ao piano apenas, temos Diamanda tratando de temas como prisões, situações de isolamento, guerra biológica e química. Este é considerado pela crítica um dos discos mais acessíveis da cantora. “A sua música é tudo menos fácil. Os temas que lhe estão subjacentes são ainda mais incômodos. Há quem a considere mesmo uma espécie de bruxa moderna”, afirmou o crítico e jornalista Nuno Calado, na Mondo Bizarre.

Foto: Sonidobscuro.comDiamanda está vindo com seu novo trabalho, tão excentrico e intenso quantos os outros, o que não poderia deixar de ser. Guilty, Guilty, Guilty é o novo disco da vampira e será lançado pelo selo Mute Records no dia dos mortos, 1° de Novembro de 2007. Neste álbum, além das composições próprias, considerado trágico e com canções de amor homicidas, ela fará releitura de músicas de O.V. Wright’s (“Eight men and four women”), Jonny Cash (“long black veil”) até Edith Piaf (“Haven have mercy”) e Ralph Stanley (“O death”). Diamanda já havia feito uma releitura do clássico das Supremes “My love is empty without you”, empregnando de sombras e mistérios a até então doce canção das Supremes. Veremos o que nos aguarda em suas novas releituras musicais. Diamanda tem uma extensa obra que vem desde a época dos vinis, com vários ep’s e bastantes discos.

 

Algumas de suas mais notadas produções são:
Litanies of Satan – 1982
Plague Mass – 1984
The Divine Punishment & Saint of the Pit – 1989
The Singer – 1992
Vena Cava – 1993
The Sporting Life (com John Paul Jones) – 1994
Schrei X – 1996
Malediction and Prayer – 1998
La Serpenta Canta – 2003
Defixiones, Will And Testament – 2003

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