DESVENDANDO BRESSON
Livro traz imagens inéditas sobre o maior fotojornalista de todos os tempos

Por Lidianne Andrade
Da Revista O Grito!, em São Paulo

Até o ano passado acreditava-se que pouca coisa ficou para falar sobre o fotógrafo Henri Cartier-Bresson (1908 – 2004). O nome já quase tudo para os profissionais de imagem, pois ele foi ninguém menos que um dos maiores fotógrafos do século 20. Mas o pai do fotojornalismo ainda tem muito a mostrar a mundo e a prova disto foi a revisão recente do seu acervo de fotos e negativos, propiciando o lançamento do livro Cartier Bresson: O Século Moderno, que chega às livrarias pela Cosac Naify

Sobre Bresson são mais de 40 livros publicados, sem contar os que tratam da obra do fotojornalista indiretamente como releituras, ensaios, resenhas e análises de mestrado e doutorado em diversas universidades do mundo. Mas talvez nenhum tenha proposto uma análise tão profunda como ‘O século moderno’, cujo autor é o curador chefe do MoMA (Museum of modern art – de Nova York) e maior estudioso da obra do fotografo, Peter Galassi.

Galassi foi curador e responsável pela última exposição realizada sobre Bresson, realizada em maio/junho deste ano no MoMA, a exposição mais bem sucedida dos últimos 20 anos no Museu. Do estudo para tal evento surgiu a idéia do livro. Para inveja de muitos, primeira vez um pesquisador teve acesso livre ao acervo pessoal do artista sem a interferência de parentes, conseguindo reunir negativos de fotos famosas e imagens inéditas de diferentes eventos com cobertura fotográfica do profissinal. São mais de 60 anos de trabalho reunidos em mais de quinhentas fotos.

“Uma das atrações da obra, além da lista completa de seus registros, é mostrar o layout de como foram publicadas, então você pode já conhecer a foto mas não sabia como tinha saído nas revistas da época. Tem a capa dessas publicações e o conteúdo das páginas, como um fac-símile de quando foram publicadas pela primeira vez”, conta Cassiano Elek Machado, Editor da Cosac Naify, no lançamento do livro, em São Paulo, na casa da editora.

A publicação faz um passeio por toda a carreira de Bresson, começando nos anos 1930, início de sua carreira, quando ele tinha atuação próxima a dos surrealistas e fazia fotos absolutamente inovadoras, até sua trajetória como fotojornalista. A obra é dividida em sessões, correspondente a eventos e fases do fotógrafo, mas uma merece destaque: “Pontos de Referência”, apresentando pela primeira vez ao mundo os roteiros das viagens de Cartier-Bresson para expedições fotográficas.

Mitos e verdades
A obra deve atrair não apenas fotógrafos, mas curiosos sobre o acervo e biografia de um dos maiores fotógrafos de todos os tempos. Sua biografia pode ser considerada uma das mais estudadas e revisadas no mundo da imagem. Boatos rolam aos montes sobre um fotógrafo misterioso, com um dom sobrenatural de apertar o botão do obturador e nunca ter editado uma foto.

“Por mais poético que possa ser, ‘nunca ter editado uma foto acredito’ é uma dádiva que nenhum fotografo conseguiu no mundo, mesmo Bresson. Mesmo mínimo, houve ajustes”, comenta o fotojornalista pernambucano Ivan Alecrim. “Vale ressaltar que na hora de compor uma foto já estamos editando, e isso ele fazia muito bem”, complementa o profissional.

Segundo o autor de O Século Moderno, Henri editava bastante suas imagens na mesa de luz. “Pude estudar negativos e ampliações bastante retocadas, bem diferente das originais. Alguns são pequenos retoques como eliminar pessoas através do crop, mas o mito que eram imagens únicas e intocadas infelizmente não existe”, explica Peter Galassi na coletiva de imprensa de lançamento do livro.

Uma novidade em seu acervo é o trabalho com recortes, fragmentos. A partir dos retratos que fazia, em alguns casos, pegava uma parte deste retrato e ampliava, fazendo uma nova foto. “Pode-se descobrir que ele editava através da folha de contato, ou seja, todas as imagens que ele fez para chegar em uma imagem”, esclarece Galassi.

Aversão social
O ângulo em que se fotografa pode dizer muito sobre o profissional. No caso do mestre do fotojornalismo, suas fotos mostram-no como observador passivo, sem interferir na cena. Um transeunte, mas atento. Seu ângulo e presença imperceptíveis no cenário criou o mito de uma forte ‘misantropia’, uma aversão ao humano e o meio social em geral. “Se fosse misantropo, ele teria vivido na profissão errada, não? Pois seus retratos são basicamente retratos interagindo com o meio”, comenta o fotógrafo social Pablo Correia, admirador e estudioso da obra de Bresson.

Mas seria Bresson apenas fotojornalista? Descobrimos em O Século Moderno que não, Bresson fez trabalhos como feelancer para empresas como automóveis e tintas, imóveis, entre outras. ‘O Século Moderno’ traz alguns desses trabalhos publicados, incluindo moda e anúncios publicitários.

Algumas questões ainda não tem resposta, mas nada tira a magia da escolha perfeita de enquadramento e dramaticidade da obra de Bresson. Talvez um dia ainda se encontre uma caixa secreta com mais negativos ou um diário explicando o porque de ser fotojornalismo e não moda.

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