Sidonie C. (Foto: Divulgação)

UMA MULHER, UMA VIDA, UM SÉCULO
Mais do que tratar da polêmica teoria de Freud sobre a homossexualidade feminina, livro sobre Sidonie C. é um breve olha sobre uma mulher que viveu 100 anos intensamente
Por Rainha do Maracatu, colunista d’O Grito!

DESEJOS SECRETOS – A HISTÓRIA DE SIDONIE C., A PACIENTE HOMOSSEXUAL DE FREUD
Inês Rieder e Diana Voigt
[Companhia das Letras, 432 págs, R$ 59]

Sidonie C: judia, homossexual. Simples assim não tivesse ela nascido em uma Viena burguesa em 1901 e tivesse que enfrentar o puritanismo da época, o preconceito da sociedade e duas guerras mundiais – ressaltemos que, durante a última, os judeus se tornavam o epicentro da fúria alemã em uma Áustria dominada pela Gestapo de Hitler. Sua biografia – escrita pelas vienenses Inês Rieder e Diana Voigt ganhou primeira edição em português pela Companhia das Letras sob o título Desejos Secretos – A história de Sidonie C., a paciente homossexual de Freud.

A titulação curiosa devido ao fato de Sidonie (nome fictício) ter sido paciente de Freud ainda na adolescência não é o mais importante do livro. Em verdade apenas um breve olhar de uma sociedade em que se considerava homossexualidade como sinônimo de doença. A vida de Sidonie, esta sim, com o perdão do trocadilho, “daria um livro”. Viena, Paris, Japão, Cuba, Estados Unidos, Bangcoc, Brasil, duas guerras mundiais, a perda de um grande amor para a doença, um casamento de aparências, perda de fama e fortuna, trabalhar pela primeira vez na vida aos 50 anos, dispensar um grande amor. Uma mulher e sua vida devastada por amores irrealizáveis.

O ritmo da narrativa impresso à vida de Sidonie muda de estilo. A princípio, uma adolescente frívola e em desespero por seu amor a uma mulher mais velha e de reputação suspeita. À medida em que envelhece, a passagem do tempo também faz com que o estilo narrativo se torne reflexo de sua biografada e as reflexões ficam mais e mais densas.

Sidonie viveu muito. Intensamente. Apaixonadamente. Era leal aos amigos. Jamais teve filhos. Amou três mulheres e nenhum destes romances se concretizou. A primeira – a baronesa de reputação duvidosa – ainda acalentaria suas lembranças na velhice. E, veja bem, Sidonie morreu aos 99 anos. A segunda era sua amiga, seu amor sereno. A última – não-correspondida – é a que nos intriga: ela conseguiu se apaixonar quando já possuía mais de 70 anos.

Quanto a Freud e seu mal sucedido ‘tratamento’ para desânimo dos pais da moça, a única coisa que ele disse que jamais ela pôde esquecer foi: “A senhora tem olhos astuciosos. Não gostaria de encontra-la nesta vida como inimigo”. O mais puro e fiel retrato de uma mulher intensa, passional e profunda.

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