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TODA A CRUELDADE DE UMA PAIXÃO
Filme de Joe Wright fala das formas como o desejo pode ser um instinto destrutivo dialogando com imagens idílicas
Por Fernando de Albuquerque

Baseado em Reparação (com tradução brasileira pela Companhia das Letras, 2002), romance do inglês Ian McEwan finalista do Booker Prizer 2001, o mais prestigiado prêmio literário britânico, Desejo e Reparação foi um dos campeões de prêmios tanto no Globo de Ouro, quanto no Bafta. Do mesmo diretor de Orgulho e Preconceito, Joe Wright, o filme se baseia na Inglaterra dos anos 30, pouco antes da eclosão da Segunda Guerra, combinando vários ingredientes como o antagonismo de classe – num castelo antigo onde convivem as filhas de uma família aristocrática e os filhos dos empregados – problemas familiares, muito ciúme, inveja e principalmente repressão.

O enredo é o seguinte: Briony Tallis, de 13 anos, nutre uma paixão secretíssima pelo filho da governanta, Robbie, que por sua vez ama loucamente a irmã dela, Cecília. Briony é uma menina dotada de uma certa predisposição literária e inspirada na sua paixão louca e pelo ciúme inconfessável que esse amor produz, esquematiza uma das maiores sacanagens do século e estraga por completo a vida da irmã e do filho da serviçal.

A partir daí, as cenas idílicas nos campos ingleses dão lugar ao pesadelo: num salto, acompanha-se as desditas de Robbie na França, em plena segunda guerra, lutando pela Inglaterra como simples soldado do front – o grau de instrução que acumulara com a ajuda da família Tallis não lhe serve para nada. Nesse momento a vida de Robbie se torna um inferno maior ainda já que ele e Cecília reatam promessas de amor quando ela estava como enfermeira chefe por ter sido apartada da família durante os acontecimentos do castelo.

As cenas ganham contornos mais épicos quando Robbie e seus companheiros estão encurralados em Dinquerque, na famosa batalha de 1940, em que britânicos e franceses conseguiram escapar das tropas alemãs pelo mar após graves perdas. Entre passagens dramáticas – inclusive num longo e belo plano seqüência em que vislumbramos o desfecho trágico em Dunquerque – e flashbacks que explicam e complementam o enredo permeado pelo de desejo, o sentimento de culpa e inveja que motivou a separação do casal central, voltamos a Briony, também atuando com enfermeira e tendo que lidar com os próprios fantasmas. Em busca de reparação (título original do romance, Atonement), ela escreve, escreve e escreve, mas só encontrará conforto na velhice, quando a morte se insinuar por doença degenerativa.

Com todos esses ingredientes, mais duas horas de duração, trilha sonora grandiloqüente, direção de arte deslumbrante e interpretações à altura de tudo, não é a toa que o filme esteja sendo tão cultuado. Mas dentro de toda essas visissitudes Desejo e Reparação discute em seu cerne a psicologia moderna, já que foi Melaine Klein quem introduziu a “reparação” entre os conceitos da psicanálise. E é nos anseios de Briony, que prefere os pedaços, o decote, a voz, um olhar, a perna, a forma dos lábios, que o desejo ganha os contornos ferozes do inverso do amor. Já que este amor nos ajuda a reparar os efeitos da carnificina de nosso desejo.

DESEJO E REPARAÇÃO
Joe Wright
(Atonement, Inglaterra, 2007)

NOTA: 7,5

oscar.gifOSCAR 2008

Melhor Filme
Melhor Atriz Coadjuvante (Saoirse Ronan)
Melhor Fotografia
Melhor Direção de Arte
Melhor Figurino
Melhor Trilha Sonora
Melhor Roteiro Adaptado

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