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GENEALOGIA DO DEMÔNIO
por Paulo Floro

O Demolidor de Brian Bendis é melhor que o de Frank Miller. O Demolidor de Brian Bendis é a versão definitiva do Homem Sem Medo. A saga A Era de Ouro, do Demolidor de Brian Bendis é uma das melhores histórias já lançadas pela Marvel em mais de 40 anos do herói.

Os aforismos acima não são gratuitos nem exagerados. E nem significa um hype infundado, já que há alguns anos à frente do título Daredevil, o escritor Brian Michael Bendis já deu provas de que fez sua passagem pelo título valer a pena. E como! Atualmente a Panini Comics publica no Brasil as últimas histórias desta fase, desenhadas pelo magistral Alex Maleev. Nos Estados Unidos, o título do Demolidor está sendo atualmente escrito por Ed Brubacker (Gotham Central) e recebe elogios da crítica. Bendis revolucionou o personagem, lhe deu substância, experimentou nele técnicas de narrativa ousadas e utilizou todo o universo do herói ao mesmo tempo que o enriqueceu, com novos vilões, tramas brilhantes e um teor adulto que fora esquecido pelos escritores anteriores.

ELE É MARVEL – Brian Bendis ainda não era um dos mais poderosos artistas da Marvel Comics quando começou a escrever o título do Demolidor. Nessa época a editora decidiu confiar à Bendis os argumentos da revista porque também não botava muita fé no herói. O filme, estrelado por Ben Afleck tinha sido um fracasso e as vendas do gibi, escritas antes por Joe Quesada não eram muito animadoras. O Demolidor nunca foi um personagem de apelo midiático rápido como o Homem-Aranha, o Quarteto ou o Wolverine. Nos anos 1980, seu gibi era bimestral e o cancelamento era certo, até que o jovem artista Frank Miller revitalizou o título, criando a mais importante fase do Demolidor antes de Bendis. Miller trouxe profundidade às histórias.

Afastou definitivamente o título de “um gibi para crianças”. Foi Miller quem definiu a personalidade dos personagens, Foggy Nelson, Stick, Karen Page. Aproximando cada vez mais o personagem à realidade, tratou de temas como drogas (a namorada de Matt Murdoch, Karen Page era uma viciada) e criou várias polêmicas.

Aqui no brasil, os desenhistas da editora Abril tinham que “apagar” do desenho original toda vez que aparecia uma seringa ou outra alusão explícita às drogas. Miller também revitalizou a origem do herói em O Homem Sem Medo, desenhada por John Romita Jr., além de ser responsável por uma das maiores sagas do Demolidor, A Queda de Murdoch, quando o Rei do Crime descobre a real identidade do Demolidor e destrói seu alter-ego, fazendo-o perder tudo, dos amigos ao dinheiro. Depois de Miller, o Demolidor experimentou uma nova fase ruim, com escritores sem substância que acabaram quase destruindo o personagem, como por exemplo ao criar um ridículo novo uniforme, semelhante a uma armadura.

Apenas o cineasta e roteirista Kevin Smith conseguiu retomar o sucesso do título. Apesar da versão de Smith se distanciar bastante da origem e personalidade do herói, possuí ótimas histórias e até hoje ainda aguarda um relançamento à altura. Demolidor representa à essência da Marvel, ao mostrar super-heróis voltados para a realidade, atingindo extremos com o Demolidor de Miller.

BENDIS – Famoso por seus diálogos, o escritor Brian Michael Bendis utilizou o título do Demolidor para experimentar suas outras brilhantes qualidades como roteirista de quadrinhos. Numa narrativa densa e sombria, Demolidor é diferente a tudo feito na Marvel no momento. Talvez até mesmo nos quadrinhos como um todo. Bendis já tinha em mente suas motivações quando assumiu a revista: destruir a vida do Demolidor. De novo. Logo no início, derrubou o Rei do Crime, revelou a identidade do herói a imprensa e trouxe de volta fantasmas do passado: Elektra, Viúva Negra, Mercenário. Bendis conhece muito de quadrinhos e sabe como transformar em clássicos, argumentos banais.

Por isso, em suas histórias não temos apeteóticas cenas de ação, nem uma narrativa linear herói contra vilão. Bendis colocou o demônio numa encruzilhada, conflitando suas ações, e nunca entregando soluções fáceis aos leitores. O Demolidor de Bendis é um herói que chegou ao limite. Ele conserva todos os ideais de justiça mas começa a confrontar seus modos de agir. Ele não tem mais senso de humor nem paciência. Ele derrubou o Rei do Crime e se proclamou Rei da Cozinha do Inferno, afastando-se de seus principais aliados de colante. Como Matt Murdoch, é atacado publicamente e precisa lutar contra isso o tempo todo.

A narrativa de Bendis é tão envolvente que em muitas revistas o próprio Demolidor nem mesmo aparece. Merece grande crédito o desenhista Alex Maleev, com sua técnica que mistura fotografia, pintura e efeitos computadorizados. Cada personagem tem uma identidade visual bastante forte, até os coadjuvantes mais insignificantes. Frank Miller redefiniu o personagem e praticamente criou seu universo sozinho. Bendis soube aproveitar isso muito bem, com a diferença que fez do Demolidor uma hq de vanguarda, com um estilo inconfundível e criativo que não encontra parâmetro nas atuais séries. Demolidor não nutre similaridades com um gibi de super-heróis comum, apesar de Bendis fazer várias referências ao Universo Marvel, utilizados até mesmo como metalinguagem.

Atualmente a editora Panini publica na revista Demolidor, o penúltimo arco de Bendis e Maleev à frente do título. Com uma edição caprichada, com capas originais, boa tradução, nunca é tarde para se procurar conhecer um dos maiores clássicos dos quadrinhos desta década.

Frank Miller redefiniu o personagem e o colocou como o principal ícone realista da Marvel.PRINCIPAIS SAGAS DE BRIAN MICHAEL BENDIS EM DEMOLIDOR:

O Julgamento do Século (edições 1 a 3)
Victor Ayala, o Tigre Branco está no banco dos réus e Matt Murdoch precisa inocentá-lo, tornando-se assim o representante dos uniformizados, complicando ainda mais sua vida pública, abalada com a revelação de sua identidade secreta.

Barra Pesada (edições 9 a 13)
Cansado de lutar, Demolidor decide destruir o Rei do Crime de uma vez por todas! Neste arco, Matt tem outro relacionamento, com a jovem cega, Milla.

O Rei da Cozinha do Inferno (edições 14 a 18)
Maior crise do herói, onde obcecado, tenta livrar a Cozinha do Inferno do crime se proclamando senhor do bairro. Precisou também enfrentar os outros heróis que não apoiaram sua nova postura.

A Era de Ouro ( edições 24 a 28)
Melhor saga da fase Bendis, conta a história de Alexander Bont, o antigo Rei do Crime que saiu da prisão e pretende destruir o Demolidor. A narrativa é espetacular e mistura estética dos anos 60, preto & branco e atual.

Decálogo (edições 31 até a presente edição 34)
Mostra como foi a reação da população de NY durante o ano em que o Demolidor se proclamou Rei da Cozinha do Inferno. Semelhante à um grupo de alcoólicos anônimos, cada morador descreve sua experiência sobre o fato. Grande competência de Bendis como escritor, pois em nenhum momento o Demolidor aparece, mas ainda assim Decálogo é uma história sobre ele.

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