Death cab for Cutie (Foto: Divulgação)

Banda não supera obra prima Transatlanticism, mas traz o bom e velho lirismo indie-rock
Por Mariana Mandelli

DEATH CAB FOR CUTIE
Narrow Stairs
[Atlantic, 2008]

Quem ouviu “I Will Possess Your Heart”, primeiro single de Narrow Stairs, sétimo trabalho do Death Cab For Cutie, pode ter uma impressão errada do novo álbum. Com seus mais de oito minutos e meio de cordas e bateria, a faixa pode soar cansativa no meio das outras preciosidades que o disco guarda, apesar de ser uma canção introspectiva sobre o desejo e a solidão – quem viu o clipe pode perceber que as cenas parecem inspiradas em Encontros e Desencontros (2003), belíssimo filme de Sofia Coppola, fazendo do vídeo uma espécie de “Lost in Translation around the world”.

A caminhada que trouxe a banda de Ben Gibbard até aqui foi longa, atravessou a década de noventa e os anos 2000 e consagrou seu grupo como um dos maiores ícones do indie pop da história. Com letras nostálgicas sobre uma adolescência e juventude ambientadas em lugares bucólicos, saudade de amores e desamores, lembranças distantes e abismos sentimentais pela ausência ou abstinência do “alguém amado”, Gibbard fez de seu DCFC um exemplo de lirismo e poesia no rock atual. Todo esse desespero poético culmina em texturas delicadas, arranjos bem trabalhados, vocais harmônicos e sons climáticos, elementos presentes na sonoridade de um grupo que vai muito além da alcunha de “rock fofo” imposta por muitos críticos e amantes da música em geral.

O DCFC sempre soou melancolicamente doce – parte da culpa disso é do timbre de voz de Gibbard. Mas as composições atormentadas e os acordes hipnóticos que a banda consegue criar mostram que o grupo amadureceu e que, mesmo após lançar sua obra-prima, Transatlanticism (2003), o Death Cab ainda tem muito para mostrar sem plagiar o próprio som. Narrow Stairs é a prova disso.

O disco abre com “Bixby Canyon Bridge”, faixa que começa delicada e sutil para desembocar em tons pesados e tensos no refrão, mexendo com a dualidade do som da banda. Após “”I Will Possess Your Heart”, segunda canção, vem “No Sunlight”, um hit certeiro com acordes de power pop e twee. O piano e o baixo definem o resto, tornando a faixa quase dançante.

“Cath…”, provavelmente dedicada a alguma Catherine e uma das melhores do disco, tem um certo ar country em suas guitarras, fato que a torna ainda mais bela e etérea. Também climáticas e com referências de dream pop são “Talking Bird”, a orquestrada “You Can Do Better Than Me”, a saudosista “Grapevine Fires” (atenção para o piano aqui) e “Your New Twin Sized Bed”.

As batidas de “Long Division” fazem dela a mais acelerada e, conseqüentemente, a mais indie rock do disco. Dinâmica e original, “Pity And Fear” vem na seqüência, com batidas que lembram sons de floresta. Para fechar, “The Ice Is Getting Thinner” encerra o disco tão melancolicamente quanto “A Lack Of Color” em Transatlanticism. Sons hipnóticos de guitarra e baixo acompanham a letra dilacerante de Gibbard sobre o “velório” de um relacionamento, instante em que o casal percebe que o sentimento está morrendo (“o gelo sob nós está se desfazendo”, canta ele).

Menos coeso e mais experimental do que Plans (2005), de certo modo inferior ao brilho de Transatlanticism e melhor produzido e trabalhado do que os primeiros discos, Narrow Stairs abusa das cordas e das batidas menos efusivas e, com isso, torna-se um belíssimo disco. É original ao seu modo e, ao mesmo tempo, um típico álbum do Death Cab For Cutie, coisa de banda que já conquistou seu espaço e sabe o que faz: lirismo em forma de indie rock.

NOTA: 8,5

[+] DE DEMO-TAPES AOS SHOWS LOTADOS, O AVANÇO DO DEATH CAB FOR CUTIE RUMO AO SUCESSO

Sem mais artigos