Foto:Andrew Paynter/ Divulgação

QUERO SER GRANDE
Após o lançamento do aguardado novo disco, Narrow Stairs, resta saber se o Death Cab For Cutie vai sobreviver a trilha de sucesso que construíram
Por Mariana Mandelli

A banda que conquistou os corações indie mundo afora com canções lindas e a voz doce de Ben Gibbard, já tem mais de dez anos de carreira. Formado em 1997, em Bellingham, Washington, Estados Unidos, o Death Cab For Cutie (nome de uma faixa do álbum Gorilla, 1967, da banda Bonzo Dog Doo-Dah Band) na verdade se resumia a Gibbard e uma fita cassete produzida por ele e nomeada You Can Play These Songs With Chords – que, mais tarde veio a ser considerado o primeiro disco da banda, mesmo sendo relançado oficialmente no mercado em 2002.

Gibbard, hoje frontman, compositor e guitarrista do grupo, ficou surpreso com o sucesso repentino de You Can Play e decidiu montar uma banda de verdade. Ele chamou Chris Walla, que também havia ajudado na produção do cassete, para tocar guitarra; Nick Harmer para o baixo e Nathan Good para a bateria. Assim, o DCFC foi formado na Western Washington University, onde seus membros estudavam – o próprio Gibbard, estudante de engenharia na época, usava o porão da casa em que morava com diversos colegas para gravar as demos da banda. Essa ligação com Bellingham explica o porquê de várias letras do início da carreira apresentarem referências a diferentes locais da cidade.

Com essa formação, o DCFC lançou Something About Airplanes (1998), que deu seqüência ao sucesso na cena independente que a banda vinha conquistando. Em 2000, durante a produção de We Have the Facts and We’re Voting Yes, Natham Good saiu do grupo. Sua participação em “The Employment Pages” e “Company Calls Epilogue” foi mantida, mas Gibbard assumiu as baquetas nas outras faixas e recrutou Michael Schorr para substituir Good. A primeira aparição de Schorr como membro do DCFC foi no EP The Forbidden Love (2000).


Ao Vivo e feliz:O Death Cab seguiu um caminho tranquilo até o sucesso (Foto:Ryan Russell/ Divulgação)

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Em 2001, a banda lançou The Photo Album e, algum tempo depois, o DCFC, mais uma vez, trocou de baterista: Schorr saiu de cena para dar lugar a Jason Jason McGerr, professor de uma escola de música de Seattle e membro do Eureka Farm. McGerr foi o responsável pelas baquetas da obra-prima do grupo, Transatlanticism (2003), álbum que lançou o DCFC aos braços do mainstream. Faixas do disco fizeram parte da trilha sonora de seriados como The O.C., CSI: Miami, Six Feet Under e Californication, além de filmes de grande alcance popular – como Penetras Bons de Bico (2005).

O segundo passo para a saída do mundo indie se deu com a assinatura de um contrato com a Atlantic Records, depois de uma carreira inteira lançando discos pela Barsuk. A nova situação deixou a banda tensa – afinal, agora havia pressão corporativa sobre os ombros dos membros do DCFC – e, assustados, Gibbard e companhia incentivaram seus fãs a baixarem suas músicas da internet.

O ano de 2005 chegou e o primeiro trabalho da banda por uma grande gravadora foi lançado. O sucesso dos dois primeiros singles de Plans, “Soul Meets Body” e “Crooked Teeth” garantiram ao DCFC uma participação no Saturday Night Live, uma indicação ao Grammy Award de “Melhor Disco Alternativo” de 2005 e 47 semanas consecutivas na lista da Billboard.

Com os terrenos do mainstream dominados, a banda caiu de vez no gosto do mercado e começou a aparecer cada vez mais na mídia. Lançou dois DVDs, Drive Well, Sleep Carefully (2005) e Directions (2006), este um conjunto de onze curtas-metragens inspirados nas faixas de Plans e dirigidos por diferentes profissionais do cinema; assinou contrato com a Apple para vender seus vídeos em formato para iPod; aderiu à causa dos direitos dos animais ao associar-se com o PETA e começou a participar de grandes festivais – como o Bridge School Benefit, organizado por Neil Young. Gibbard ainda lançou um projeto eletrônico com Jimmy Tamborello, o ótimo The Postal Service, que lançou o disco Give Up (com o hit “Such Great Heights”) em 2003.

Agora 2008 chegou e o novo disco do DCFC, Narrow Stairs, também. Com sete álbuns e cinco EPs lançados, ninguém duvida que o Death Cab For Cutie firmou-se como uma das bandas indie de maiores sucessos da história da música. Resta saber se o grupo vai resistir ao monstro gigantesco que eles próprios criaram: a popularidade. Narrow Stairs prova que eles ainda estão no caminho certo.

DISCOGRAFIA

You Can Play These Songs With Chords
[Barsuk, 1997/2002]

Por ser o primeiro disco da banda, é tido como uma compilação de demos gravadas por Gibbard e Walla em um cassete. Na edição de 1997, o álbum contava com apenas oito músicas – entre elas, os hits “Pictures in an Exhibition”, “Amputations”, “President of What?” e “Champagne from a Paper Cup” , que fariam, mais tarde, parte do tracklist de Something About Airplanes. Ao ser relançado em 2002, You Can Play ganhou mais dez faixas – entre elas, um cover quase punk de “This Charming Man”, dos Smiths, entre outras raridades. Como debut e esforço, é um álbum louvável e uma promessa de desenvolvimento musical de Gibbard.

Something About Airplanes
[Barsuk, 1998]

Mais barulhento e com faixas complexas que enchem os ouvidos do começo ao fim, esse é o disco do DCFC que mais se aproxima, como um todo, do noise pop e do twee. As baladas acústicas deram lugar a guitarras e bateria tensas, vocal distante e letras atormentadas de um indie rock original e estiloso que a própria banda impôs. Combinações etéreas de som somadas ao uso de violoncelo e sintetizadores dão o tom de Something About Airplanes, apresentando efeitos sonoros e melodias líricas e climáticas, como em “Your Bruise” e a lindíssima “Bend to Squares”.

We Have the Facts and We’re Voting Yes
[Barsuk, 2000]

Com exceção do primeiro trabalho da banda, We Have the Facts talvez seja o álbum mais simples do DCFC. Apresentando um chamber pop luminoso, o disco mostra uma clara evolução de Something About Airplanes, permitindo dizer que a banda se encontrou ao entregar os acordes das guitarras a uma espécie de “soft indie rock”. O resultado é um álbum sólido (“Lowell, MA”, “Title Track” e “The Employment Pages” são símbolos dessa coesão) mas que não desenvolve o potencial da banda ao máximo – problema que só será resolvido anos mais tarde, com Transatlanticism.

The Photo Album
[Barsuk, 2001]

The Photo Album tem um certo gosto de missão abortada, porque não desenvolve o potencial da banda que já foi mostrado nos outros trabalhos. Contudo, passa longe de ser um disco ruim. Mais emo e com influências de the post-punk, o disco é maduro e menos cansativo do que os anteriores, com faixas diferenciadas que apostam em instrumentação diversificada (piano e órgão marcam presença) e tons menos repetitivos. “I Was a Kaleidoscope”, “Styrofoam Plates” e o hit “A Movie Script Ending” são as pérolas desse álbum.

Transatlanticism
[Barsuk, 2003]

A obra-prima. O disco é a definição do momento em que todo o hype existente em torno da banda concretizou-se em um disco lírico. As histórias cantadas aqui por Gibbard retratam um jovem solitário e desiludido com o amor que, ao lidar com o naufrágio de seus sentimentos, é obrigado a enfrentar suas lembranças e nostalgias de um tempo em que era mais feliz. Com letras dignas de Elliot Smith e doses equilibradas de dream pop, indie rock e sadcore, a brilhante seqüência de faixas arrasta o ouvinte para o mundo transatlântico das emoções contidas, construindo uma atmosfera envolvente e mágica. “Title And Registration”, “Passenger Seat”, “Death Of An Interior Decorator” e a apoteótica “We Looked Like Giants” (hit sobre a saudade das descobertas amorosas e sexuais dos tempos de adolescente) fazem de Transatlanticism o tipo de álbum que não enjoa – pelo contrário: a cada “ouvida” se torna mais genial e avassalador.

Plans
[Atlantic, 2005]

O disco mais pop, “fofo” e coeso da banda. Acusado de ser muito produzido e excessivamente impecável – conseqüência da migração do DCFC para uma gravadora maior – Plans é a consagração comercial do estilo Death Cab de música. Letras poéticas e introspectivas que falam de solidão e reflexão continuam sendo o forte da banda, agora aliado a texturas muito bem trabalhadas que atingem a essência do pop – “Crooked Teeth”, “Soul Meets Body” e “Your Heart Is An Empty Room” são provas disso. Mas ainda há espaço para a construção de melodias belíssimas, como é o caso de “What Sarah Said” e, principalmente, “Brothers On A Hotel Bed”.

[+] NARROW STAIRS: SEM NOVIDADES, PORÉM MAIS COESO

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