Trabalho documental do fotógrafo Fred Jordão traz mais de 150 registros das transformações pelas quais a capital pernambucana vem passando nos últimos 30 anos

A transformação urbana do Recife é algo que revela muitas das tensões da cidade. Seja a demolição de uma casa, a paisagem que se descaracteriza, um espaço que some. Catalogar tudo isso tornou-se algo crucial para discutir a memória local. O fotógrafo Fred Jordão percebeu a urgência de catalogar essa mudança, fruto de um processo próprio de modernização. Foram 30 anos de fotografia e pesquisa que resultaram no título Recife, que sai pela Cepe Editora.

A lente de Fred Jordão capturou o Recife de verdade, não a cidade maquiada, dos filtros de iPhones, de dias perfeitos e casario iluminado. Retratou os contrastes entre a pobreza extrema e a opulência, entre a riqueza arquitetônica do passado em decadência e o surgimento de uma nova cidade, refletida nos paredões de arranha-céus espelhados, que embotam a paisagem e sombreiam a praia de Boa Viagem.

São 175 fotos que trazem a beleza da cidade, mas também as cores desbotadas do casario, as paredes descascadas, a cidade fora de foco, que ao longo do tempo deixou de ser a Veneza Brasileira para incorporar a hellcife ou recífilis, denominação dada pela crítica social que se faz a essa mudança. “O livro é um inventário sentimental, o registro do surgimento de uma nova cidade, que se sobrepôs ao Recife de Lula Cardoso Aires e de Alcir Lacerda”, diz o autor.

Rio Capibarine na Iputinga.

Fred passou 12 anos fora, morou em Porto Alegre e depois em Brasília. Voltou aos 21 anos quando as mudanças começavam a apagar referências da cidade de sua infância. Entre outras coisas dedicou-se à fotografia de rua e a pesquisas no Centro de Documentação da Fundação Joaquim Nabuco. Conseguiu construir essa narrativa a partir das imagens capturadas do celular, de equipamentos sofisticados e também de câmeras mais simples. O importante era não perder o momento, como o da imagem do Conde da Boa Vista ao pé da ponte com o rosto vandalizado e coberto por abelhas.

“As cidades estão ficando todas muito parecidas e todas muito sem graça. A Rua da Aurora é mais bonita que a Avenida Boa Viagem. Dificilmente alguém vai construir um casarão como aquele, mas esses prédios de espelho estão em qualquer lugar, em Nova Iorque, em Bangkok ou em qualquer cidade do Terceiro Mundo. A modernização padronizou tudo”, analisa Jordão.

O bairro do Ipsep.

O que mais incomoda o autor é que nesse novo perfil Recife deixou de ser uma cidade de convívio para encastelar-se e continuar a sofrer essa transformação, numa narrativa que parece não ter ponto final. “O projeto não se limita a fazer uma denúncia, nem se trata de rescaldo de jornal, mas uma reflexão sobre toda essa modernidade”, salienta.

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