TODO O CHARME DO SAMBITO
Segundo disco do paulistano Curumin traz novidades ao samba e se insere na vanguarda do pop internacional
Por Paulo Floro

CURUMIN
Japan Pop Show
[Quannum/YB, 2008]

Não é de se estranhar que os norte-americanos descobrissem primeiro o som de Luciano Nakata, também conhecido como Curumin. Em 2006, junto com a banda The Aipins, ele fez mais de 20 cidades pelos EUA, o que lhe rendeu a venda de mais de 15 mil cópias de seu primeiro disco, Achados e Perdidos. Agora, o Brasil tem a oportunidade de conhecer seu som na sua nova empreitada musical, Japan Pop Show, onde põe seu samba para dialogar com hip-hop, dub, dancehall e, sobretudo, soul.

De descendência espanhola e japonesa, Curumin é um dos artistas brasileiros a ter bons relacionamentos no exterior. Mas sua trajetória não anda em paralelo com os hypes conhecidos como CSS e Bonde do Role. Seu novo disco será lançado pelo selo Quannum, lar de nomes importantes do dub como DJ Shadow e Blackalicious. Não demorou para Nakata se tornar cult entre os gringos.

Recentemente, a atriz Natalie Portman escolheu uma música do Curumin para fazer parte de sua coletânea no iTunes, e o show do South By Southwest, festival que acontece anualmente no Texas, teve o músico como uma das atrações mais badaladas.

Numa análise mais apurada, podemos tomar percepções mais realistas. Primeiro é de que seu prestígio cresce sobretudo pela eterna demanda estrangeira de sonoridades ligadas ao samba. Sem falar que Curumin já se declarou influenciado – não só – por Caetano Veloso e Jorge Ben, nomes que são quase um passaporte para a esfera cult de críticos e fãs de música nos EUA. É de se notar que a construção da música do Curumin costura distantes referências, como a psicodelia, o funk, o afrobeat, rock e metal. Mas, o que se sobressai de tudo é uma nova perspectiva do samba, trazendo o gênero para a experiência mais pop que ele já teve.

Japonês e política
Se na forma, Curumin já se mostrou inovador, nas composições, ele se arriscou ainda mais. O resultado, no entanto, é satisfatório. Cantando em português, as letras de Japan Pop Show falam de política, relacionamento, crítica social, tudo sem perder o charme, muito menos o bom humor. “Mal-Estar Card” desconstrói o famoso comercial da Credicard para falar de corrupção. “Nem tudo o dinheiro pode comprar/ Para todas as outras existe o meu mal-estar card”.

O mesmo vale para “Caixa Preta”, que cita o acidente da Tam para falar de falta de ética na imprensa e omissão das elites. Com participação de B Negão e Lucas Santana, a música, assim como as outras com forte conteúdo político do álbum, passa longe do discurso panfletário e da crítica quixotesca ao sistema. Curumin continua nesse recorte jornalístico misturado às batidas dub de seus colaboradores em outras faixas, como “Kyoto”, uma das mais dançantes do disco, feito em parceria com o Blackalicious, onde fala sobre aquecimento global.

O melhor do disco, no entanto, está na parte subjetiva. É aqui que está o charme do samba de Curumin, que abandona a urgência dub das canções dançantes para se tornar mais introspectivo. “Compacto”, o primeiro single, fala do prazer que é escutar um disco de vinil 45 RPM. Aqui também ele se cerca de participações de peso. “Dançando no Escuro” conta com a presença de Marku Ribas, um nomidade no Samba Soul.

O petardo mais curioso vem com “Sambito”, em parceria com Tommy Guerrero. Todo cantado em japonês, a faixa é um samba esquisito que cativa nos primeiros segundos. Segundo afirmou Curumin em entrevista, o “Sambito” é, na verdade, um personagem, semelhante a um tamagochi – aqueles mascotes eletrônicos que o usuário precisa alimentar, dar atenção. O refrão da música, traduzido quer dizer: “Sambito, Sambito, meu único amigo”, que logo depois emenda em bom português, “não deixem de parar de tocar o sambito”. Ao mesmo tempo em que está na vanguarda do pop, Curumin revela ao Brasil seu samba autêntico.

NOTA: 9,0

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