Um dos aspectos que mais chamou atenção no quarto dia de exibições do 11º Curta Taquary, em Taquaritinga do Norte, foi a potência do cinema de personagem, em ficção, documentário e animação. Claro que personagens podem ser pontos fundantes e constituintes de uma narrativa. Mas, aqui, nesses filmes, eles foram tema principal entre os curtas exibidos em praça pública, perpassando as mostras.

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Negritude, ruralismo fantástico e sexualidade em tema

Na Mostra Competitiva Dália da Terra, voltado para curtas produzidos em espaços formativos, oficinas e cursos, Isidoro, de Vania Fernandes e Izaltina Gonzaga (CE), falou sobre um artista plástico da cidade de Quixadá conhecido pela quantidade de obras produzidas ao longo de sua vida, mais de 80 mil.

O documentário se baseou em imagens de depoimentos, tanto do próprio homenageado quanto de pessoas próximas, aliando-as com imagens de suas pinturas. Na mesma mostra, a ficção Geisiely com Y, de Mery Lemos (PE) trouxe o tema da violência contra a mulher, ao falar sobre uma jovem mãe que recorre à queixa policial após uma noite de abuso físico. A produção foi realizada com equipe local, incluindo a interpretação da protagonista, sendo baseada em um conto da irmã da diretora.

Na Mostra Internacional – que não teve a exibição do filme Irma por problemas técnicos, adiando-a para a sexta-feira -, a animação biográfica Cantar con Sentido, de Leonardo Beltrán (Chile) contou a história da artista chilena Violeta Parra, que dedicou toda uma vida para a pesquisa e difusão do imaginário folclórico do país. Com mais de 20 minutos, o filmes mais longos da noite, a animação teve por base personagens em massa de modelar e superfícies bordadas para contar a história da cantora.

Na Mostra Primeiros Passos, dois filmes se juntaram ao anterior Isidoro no que se relacionava a uma espécie de tentativa de, ao construir o perfil de personagens específicos, criar uma imaginário das próprias cidades, ao gravar a vida do personagem no espaço público. Você conhece Derréis?, de Veruza Guedes (PB), mistura ficção e documentário para a criação do enredo do músico Derréis, que sonha com a fama e o reconhecimento na cidade natal de Patos, interior paraibano; e Uma Balada para Rocky Lane, de Djalma Galdino (PE), que utilizou, além de imagens de depoimentos, recursos de animação para construir uma estética e narrativa western sobre um “cáuboi” responsável por cuidar do já extinto Cine Bandeirantes.

O documentário Cor de Pele, de Lívia Perini (PE), foi apresentado na Mostra Competitiva Brasil, trazendo como personagem um garoto albino, de família negra, morador da cidade de Olinda. Com narrativa arredondada, aproveitando o ânimo e a simpatia da criança para contar sua história e com fotografia que aproveitava o contraste da pele albina com as cores da cidade e mesmo das outras crianças, negras, a sua volta, o curta surpreendeu dentro da mostra, sendo inclusive um dos esperados a ganhar o prêmio do júri.

Questões negras também em tela
Assim como na quarta-feira, o quarto dia de exibições trouxe curtas extremamente potentes para a discussão de questões relacionadas à negritude. Cabelo Bom, de Swahili Vidal e Claudia Alves (RJ), apresentado na Mostra Competitiva Primeiros Passos, reuniu um conjunto de depoimentos e imagens de mulheres negras para falar sobre o empoderamento feminino a partir da estética do cabelo crespo e cacheado. Mais tarde, na Mostra Brasil, foi exibido Peripatético, de Jéssica Queiroz (SP), contando a história de três jovens negros moradores de uma favela paulistana na busca pela definição de seus futuros – os quais, muitas vezes, não estão nem um pouco nas suas mãos.

Além dele, o curta Universo Preto Paralelo, de Rubens Passaro (SP) falou sobre tortura, e, embora não aborde diretamente esse tipo de violência contra pessoas negras – focando mais nos relatos do período da Ditadura Militar -, foi composto todo o tempo por ilustrações históricas que retratavam ou denunciavam a tortura de negros escravizados no Brasil Colônia e Brasil Império, refazendo o percurso histórico de dar sentido a essa tortura como um crime tão grave quanto aquele durante a Ditadura no Brasil, ainda muito mais recente e latente – e que fala das raízes desse tipo de violência, que tanto operou e ainda opera sobre o corpo negro.

Ficções
Entre as ficções, duas se destacaram. Na Mostra Primeiros Passos, foi exibido Só por Hoje, de Sabrina Garci (RJ), que conta a história de uma senhora de meia idade que mora só e não consegue organizar sua casa, mas que passa a frequentar uma reunião de alcoólicos anônimos e passa a conseguir ter mais organização na sua vida. O enredo cativante e o final aberto, na verdade, abre margens narrativas outras para a produção, como se atuasse mesmo como o piloto de uma série.

Na competitiva Brasil, o curta de Lucas Rossi (RJ), O Vestido de Myriam, com atuação de Tonico Pereira, conta a estória de um casal de idosos que vão vivendo descansadamente seus dias. A escolha de montagem optou pelo silêncio, com a ausência dos diálogos, e o tom preto e branco das imagens, oferecendo uma fruição mais imersiva e sensorial para o filme.

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