Especialistas aconselham: não se apaixone por um boy (Foto: Aart van Bezooyen)

O AMOR TAMBÉM SE COMPRA
Saunas gays recifenses não fogem à regra dos estabelecimentos do gênero: chics ou desmanteladas, elas oferecem homens para todos os gostos

Por Biu da Silva
Articulista da Revista O Grito!*

Ao entrar numa fase relativamente complexa na vida sexual (fim de caso, vontade de sair do armário e não saber como começar, crise de meia-idade ou por safadeza mesmo), devemos confessar: ir às saunas, termas e clubs é uma opção, no mínimo, divertida. Após os anos de retração provocada pela bad trip da Aids que andou carimbando bibas em todo o mundo e agora é apenas uma doença crônica para os que têm acesso aos medicamentos de cápsulas mágicas, estes locais de exercício homoerótico persistem repaginados e continuam pontos animadíssimos para praticar estrepolias libidinosas. Mesmo em cidades onde a prática do ato sexual desenvolve-se com relativa naturalidade em locais diversos, inesperados e cujos rótulos para o liberou geral não são preestabelecidos, como é o caso do Recife, elas abrem suas portas para homens de todas as idades, classes, e atitudes, aproveitarem o fuderetê entre machos.

Impulsionado em parte por uma das condições descritas no início desta crônica, e por sugestão de uma pauta, em que o componente gonzo é uma premissa, resolvi refazer esta aventura erótica cuja origem perde-se na poeira do tempo (um clichê de vez em quando não ofende). Estou falando aqui dos banhos públicos romanos, os hamams turcos, e que hoje se re-significam a partir de uma condição pós-moderna de consumo, mas que, no fundo, mantém a mesma ideia de sempre: o sexo, queiram ou não os guardiões da moral e dos bons costumes, é um dos motores da existência e nas saunas gays ele é vivenciado em todas as suas dimensões. Bom, mas deixemos de lado estas teorias delirantes e vamos ao que interessa. Experimentando, obviamente, um certo frisson genital, fui então fazer um tour por estas casas em geral de fachada discreta, que evitam ostentar placas luminosas, mas as quais reconhecemos facilmente quando estamos pertos de uma pelo odor de desinfetante de eucalipto lançado no ar de suas redondezas.

Crônicas anteriores
» Terça-negra no Recife
» O Baixio das Bimbas no Cinemix
» Favoritos comem oiti na Boa Vista

No Recife, já houve saunas lá para as bandas da Av. Mário Melo (e que nos anos 1970 era a única existente); em Boa Viagem, na Madalena; etc.. Mas, hoje é na Boa Vista, este Marais (ou este Castro) dos trópicos gilbertianos, onde a maioria delas está localizada. Tem uma também lá em Boa Viagem, mas para que ir tão longe, se no Centro da cidade o babado é sempre mais forte? E também, a bem da verdade, sauna gay é meio igual aqui e alhures. Diariamente elas continuam atraindo uma leva de adoradores do falo, que encontram em meio à umidade e ao vapor o que mais lhe interessam: rapazes dispostos a fazerem sexo gratuito ou mediante uma permuta de capital em que o corpo, invariavelmente, é a atração principal (claro que isto diz respeito aos mais jovens e sarados, porque para os que já estão meio sambados e com o prazo de validade vencido é o volume da carteira que se sobrepõe ao volume da bilola).

Mas, como ia dizendo, as saunas gays (casas de chá para senhores, como dizem alguns frequentadores tirando onda) são muito mais do que um local para homens enrolados em toalhas brancas irem relaxar e cuidar da pele. Elas são um parque de diversões adulto em que a atração mais concorrida não são os banhos de vapor e sim as salas de vídeo com garotos bem dotados, assistindo a filmes pornôs “héteros” e praticando uma punheta incansável antes de cada rodada pelos corredores para caçar algum freguês guloso. Bar, sala de filmes pornôs gays, cabines, os quartos escuros para encontros às cegas, palco para shows, chuveiros expostos onde se pode acompanhar de soslaio aos que acabaram de satisfazer suas ânsias mais primitivas lavarem o corpo, num ritual de gozo e alívio, é a receita habitual. Em todas elas uma música disco de fundo é quase sempre inevitável e aparelhos de TV, exibindo programas de auditório, jogos de futebol ou shows ao vivo de Cher, Cristina Aguilera e outras dessas aves emplumadas do pop kitsch, são componentes obrigatórios.

No quesito da caça ao bofe, pude observar que existem ainda as ardorosas defensoras do 0800 (sexo sem dinheiro) e que só se entrelaçam com os congêneres e até criticam as pragmáticas que preferem o pagou levou. Questão de gosto.

A decoração e os elementos iconográficos pelo menos por estas bandas também sofreram uma repaginação. Aquela coisa de estátuas de bofes com torsos musculosos nus ou um design de terma romana, aqui no Recife não funciona. Na verdade o cenário é bem parecido com o de qualquer casa suburbana em que a unidade dos elementos é uma abstração nunca alcançada. Os estabelecimentos mais abonados exibem uma preferência por tetos em gesso fazendo curvas sinuosas e pelas cores vivas e contrastantes. Têm pisos e paredes revestidas em cerâmica e materiais de gosto duvidoso, além de móveis bregas modernosos. As outras, com preços mais acessíveis, são meio desmanteladas mesmo. Claro, também, que em todas sempre tem alguma foto de homem pelado, embora o clima tipo “amor grego” bem comum nas antigas casas do gênero não role mais. Pode até ter uma coluna jônica servindo de base para um vaso comprado no Atacadão dos Presentes com um ramalhete de flores artificais, mas estes signos helênicos estão em franco desuso.

A programação também segue uma mesma lógica – show de transformista (cópias assustadoras das “divas” do momento) e caricatas contando aquelas piadas manjadas de bicha; apresentação de gogo boys; e nas de um público, digamos, mais eclético, o grupo de pagode, no domingo à tarde, completa o rol de atrações. Há pequenas variações como apresentação de algum cantor ou cantora, escolha do garoto não sei o quê do ano, miss gay, festa junina e até bingo, cujo prêmio pode ser um cafuçu para o ganhador. Para quem se entedia facilmente com estas baboseiras, talvez o melhor seja optar por ficar assistindo as performances espontâneas das bichas freguesas que adoram dizer “estou aqui” e podem ser até mais originais. Elas dão pinta, rodopiam, gritam, criam modelitos com as toalhas e interagem com os michês como se dissessem às novatas: “olha aqui querida, nós somos as preferidas deles e não nos importa se eles ganham a vida vendendo amor”.

No quesito da caça ao bofe, pude observar que existem ainda as ardorosas defensoras do 0800 (sexo sem dinheiro) e que só se entrelaçam com os congêneres e até criticam as pragmáticas que preferem o pagou levou. Questão de gosto. Estes sonhadores, em geral, acreditam que pode acontecer “algo mágico mesmo num lugar onde ninguém é de ninguém”. Os homens pagos, em geral, são os que mais encarnam o estereótipo do macho e expõem isto seja por meio do culto ao corpo torneado (alguns claramente anabolizados) e por uma imposição de virilidade a partir da categorização de uma dicotomia ultrapassada entre ser o ativo e o passivo. Não se enganem: quando a porta da cabine está fechada, este papel de bofão se dissolve como pó de gelatina na água morna. Alegria para alguns, decepção profunda para outros.

Em geral, os tipos que circulam nos clubs são muito divertidos, ao menos na aparência. Tem o boy amostrado e afoito que fica agarrando quem passa com mordiscadas nos mamilos da provável vítima e tem os que fazem caras e bocas, fingindo inacessibilidade, mas cuja máscara se desfaz quando o preço do “vamos fazer um programa bem gostoso” é definido e que pode variar, dependendo do produto e da situação, entre 20 e 50 reais. Entre os “’clientes” tem os que dormem nos sofás nos dias de pernoite, os que bebem feito umas esponjas (as saunas para fidelizarem os convivas, normalmente, oferecem uma hora de cerveja grátis), e tem aqueles que, quando estão com todo gás, levam orgulhosos até dois ou três rapazes para o tal programa gostoso.

Os travestis também baixam nos clubs, claro. Mas nas saunas metidas à besta, elas só podem circular pelo espaço se forem com os seios cobertos para não constrangerem os clientes (sic), maneira nada sutil dos proprietários dizerem: só venham aqui para o show no palco. E pelo que pude constatar funciona. Só vi transgêneros nas saunas menos controladoras. Ora, traveca adora mostrar os peitos siliconados e, lógico, que elas não vão se submeter a esta censura ridícula. Estou com elas. Isto para mim é transmisoginia. Deguileife total.

Portanto, caro amigo, se bater aquela vontade doida de agarrar um homem este pode ser o caminho. Lá não tem como escapar. E melhor: ninguém corre o risco de amanhecer esfaqueado ou com todos os eletrônicos comprados a prestação desaparecidos. Na sauna, dá para perceber que chegar ao objetivo desejado pode exigir um pouco de paciência para quem é cheio de não me toques, mas quem tá, sabe como é, meio subindo pelas paredes, pode encarar o vapt-vupt, e pronto tá resolvido, só não esqueça de – em qualquer situação – botar a camisinha.

Ah, só para encerrar, mais um aviso: especialistas aconselham também não cair na besteira de se apaixonar por boy de sauna. Eles são invariavelmente noivos ou casados e, como já constatou um amigo meu que adora conversar com os trabalhadores do sexo, no mínimo, eles têm um filho e juram levar o dinheiro arrecadado com as bibas para as respectivas. Portanto, se você ao ler este relato insistir em alimentar tal fantasia romântica, corra o risco por conta própria. Se bem que, cá entre nós, tem uns garotos que, sem dúvida, valem a pena repetir a dose.

* para temas sexuais

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